Meu caso com o Moacyr Scliar

Eu tinha encasquetado que o tema do meu TCC de faculdade seria sobre as crônicas do Cony, mas minha orientadora sugeriu que eu mantivesse o estudo das crônicas, porém, mudasse o autor. “Conhece o Scliar?”. Não, não conhecia. No mesmo dia parti para a hemeroteca e encontrei várias das suas crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Não demorou para que eu me visse envolvida entre suas linhas, lendo e relendo, fazendo do trabalho de conclusão de curso uma forma de me aprofundar na essência do escritor.
Achei válido ter umas palavras dele no meu trabalho. Consegui seu e-mail com a editora e enviei. Três perguntas. Tive receio de elas serem fracas, de que ele nunca respondesse. Meia hora. A resposta.
“Tatiana: obrigado pelo e-mail e pelo interesse em meu trabalho. Aqui vão as respostas, com abrs. do Moacyr”
Mal contive a emoção. Tempos depois, a elaboração do TCC arrancou-me mais dúvidas e lá fui eu enviar outras três ou quatro perguntas. Atenção idêntica, rapidez idem. Pouco depois de concluir o trabalho, minha turma de Jornalismo produziu um jornal sobre a tradição gaúcha. Para a página 2, típica página de opinião, ninguém tinha idéia de quem pudesse escrever um artigo sobre o tema. Um professor sugeriu que nós convidássemos alguém famoso para escrever. Lembrei logo do Scliar. Enviei um e-mail cheio de formalidades perguntando se, caso não fosse muito incômodo, ele poderia escrever uma crônica sobre o assunto, mas não precisaria ser nada muito longo, só se desse mesmo, porque seria uma honra ter seu nome no nosso jornal e mais um monte de linhas. Deu uma hora e ele respondeu: “Tatiana, aí está a crônica, com abrs. do Moacyr”.
Eu nunca mais entrei em contato, mas a ideia de que eu era “assim assim” com o Moacyr Scliar correu. Até que, no ano seguinte, uma professora perguntou se eu não poderia mandar um e-mail convidando-o a dar uma palestra na faculdade. Eu tinha o e-mail, poderia passar a ela, mas ela imaginou que eu teria mais influência para fazer o convite. Enviei umas palavras e esperava uma resposta igualmente rápida, mas não estava tão convicta que um imortal quisesse viajar até Guarapuava para falar a alguns universitários. Minutos depois o telefone do meu trabalho tocou. “Tatiana? Tatiana, aqui é o Moacyr Scliar, tudo bem?” Gelei a barriga. Achei até que era alguém tirando sarro, mas não. Era ele mesmo. Participei de alguns acertos para o evento e esperei ansiosamente o dia. Imprimi meu trabalho e aguardei ansiosa em frente à porta do auditório até que ele chegasse. Minhas mãos tremiam.
Lembro-me até hoje da professora dizendo: “Scliar, tem alguém aqui que está ansiosa para te conhecer”. Nas minhas mãos trêmulas, além do meu trabalho, três livros esperando autógrafo. Em um deles, no meu preferido, ele escreveu: “Para Tatiana, uma glória para este escritor”. Meu trabalho era motivo de orgulho para ele, o que fui saber mais tarde, quando, em cima do palco, no meio da palestra, ele falou isso. Mas não era só essa surpresa que a noite me reservava. Depois da palestra, a professora organizadora do evento me puxou de canto e perguntou se eu queria jantar com o Scliar e outros professores. Era ela quem iria, mas teve uns imprevistos. Claro que eu queria ir, embora a ideia em si já me causasse arrepios.
Éramos eu, dois professores de Letras e o Scliar. Pensei que ficaria muda e estática todo o jantar, mas falei um bocado. Discutimos literatura, mas também formação, idealizações da faculdade e concretizações no mundo real. Scliar era de uma simplicidade espantosa. Na hora de ir embora, já cansado, ele me deu um abraço e falou: “Guria, boa sorte, é o que te desejo”.
No outro dia mandei um e-mail, agradecendo a palestra e o fato de termos nos conhecido. Pouco tempos depois, emocionada, li:
“Tatiana: obrigado pelo e-mail. Também foi um prazer para mim te encontrar. E a tese, que já estou lendo, é uma beleza! Teu trabalho é motivo de orgulho, para mim! Abrs. Moacyr”
Um tempo depois, curiosa que só, perguntei a ele se ele tinha terminado a leitura e o que tinha achado do texto como um todo. Foi o Scliar gentil, de sorriso largo e simpático, quem respondeu:
“Tatiana: claro que terminei! E gostei muito, não só da análise que você faz como também por seu estilo. Antevejo um grande futuro para você! Receba os parabens, o muito obrigado e o abr. do Moacyr”
Guardo todos os e-mails. Guardava ainda no celular um lembrete com o dia do aniversário dele. Mandava e-mail de parabéns todo ano. Quando soube que ele estava no hospital, acompanhei com o coração apertado e nesta manhã de domingo tudo amanheceu mais triste, mais vazio de palavras. Moacyr Scliar morreu nesta madrugada, na cidade que tanto amava. E eu sou uma das milhões de pessoas que passaram por ele e jamais esqueceram a atenção especial dedicada pelos seus grandes olhos azuis aos seus admiradores. Parece até o título de um livro que ele escreveu, “Eu vos abraço, milhões”. Li certa vez que o título veio de uma frase que ele gostava muito e sempre quis encaixar em alguma de suas obras. Scliar era assim, guardava suas ideias rabiscadas dentro em uma pasta de cartolina para um dia concretizá-las. Como diz um trecho de uma de suas crônicas, "Você está certo, meu jovem amigo. Não só as férias são curtas, a vida também”. A vida pode ter sido curta para executar todas as idéias rabiscadas da pasta de cartolina, mas poucos produziram tanto como você. E o nosso caso, o caso de uma admiradora com seu ídolo, não termina aqui, continuarei lendo e relendo suas letras nos livros, tantos, e nos recortes de jornais que guardo.
Não tem palavra para explicar tristeza de morte, eu prefiro me apegar ao que existiu em vida.

22 comentários:

{ isa_kagueyama } at: 27 de fevereiro de 2011 10:06 disse...

Não o conheço nada de sua obra, mas chorei aqui, Tati!

{ Gizele Cristiana } at: 27 de fevereiro de 2011 11:10 disse...

Quando comecei a ler seu texto, meu coração ficou apertado de saudades de tudo que foi os tempos da faculdade. Mas ao final da leitura entendi que meu coração antevia um motivo a mais para a tristeza sentida. Estou meio desigada dos noticiários, não sabia da enfermidade do Scliar tampouco de sua morte. Sinto muito, amiga! Pelo escritor que é e, principalmente, pela saudade que vai deixar. Beijos Tati

{ Judy , Natália e Emilly ! } at: 27 de fevereiro de 2011 12:48 disse...

Fiquei muito emocionada ao ler seu texto e fiquei encantada com a forma que os escreve .
Sinto Muito !
Visite o meu blog : vconectado.blogspot.com

{ Klaus Pettinger } at: 27 de fevereiro de 2011 13:29 disse...

Que lindo Tati! Sabia que você era fã dele, mas não conhecia a história toda! Acho que é o texto mais ¨oin¨ desse blog, impossível não chorar... Se comparar com o entrevistado para o meu TCC (Juca ¨Cavalo¨ Kfouri), então, fico ainda mais admirado e tocado com a atenção que ele te dispensou! E, sim, ele falava só a verdade quando te elogiou! Beijo

{ Eduardo Machado Santinon } at: 27 de fevereiro de 2011 15:22 disse...

Fiquei bem triste também. O conheci por causa de você e ainda não li nada dele, mas sabia o quanto ele era gente boa e o quanto você gostava dele. O mais triste é que ele era um daqueles casos (infelizmente) raros de pessoas que fazem coisas sensacionais e são sensacionais (humanas). Ele deve ter adorado mesmo ter te conhecido e ficaria orgulhoso desse puta texto.

{ Carlos } at: 27 de fevereiro de 2011 15:28 disse...

Olá, lindo o seu blog parabéns, adorei as postagens!
Irei seguir!
Me faça uma visitinha também. Irei adorar, sou designer de jóias:
http://evolutionjoias.blogspot.com
Carlos J Oliver
Designer de Jóias

{ sel2211 } at: 27 de fevereiro de 2011 15:35 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
{ sel2211 } at: 27 de fevereiro de 2011 15:36 disse...

Tati, impossível não lembrar de você hoje. O único detalhe é que foi por uma causa triste. De qualquer forma, sinta-se uma privilegiada por ter convivido com ele, mesmo que por breves momentos. Tenho certeza, ainda mais após ler o seu texto, de que as lembranças ficarão mesmo guardadas na sua memória. Esteja onde o Moacyr estiver, ele também ficou orgulhoso de ler mais esse relato escrito por você.
Selma

{ Camila Rufine } at: 27 de fevereiro de 2011 16:45 disse...

Não conhecia o Scliar, mas você me inspirou a querer conhecê-lo. Essa é a vantagem dos escritores: a de poder nos tocar, mesmo depois de mortos.

Beijos, Tati.

{ João } at: 27 de fevereiro de 2011 18:29 disse...

Após um dia desconectado do mundo, sento a frente da tv e vejo a notícia... Lembrei de ti no ato! Sem dúvida esse encontro foi um momento marcante não só pra ti, Tati, mas pra ele também!

{ Diangela } at: 28 de fevereiro de 2011 06:15 disse...

Poxa! Sem palavras... Privilégio teu, Tati. E eu concordo com ele, "antevejo um grande futuro pra você".

{ Carolina Filipaki } at: 28 de fevereiro de 2011 16:39 disse...

Lembro de tudo isso. Revivi a facul nestas linhas. Lembro de quando você contava dos e-mails e a felicidade do dia em que foi jantar com ele. Eu só não lembro porque eu não fui à palestra...
Também lembrei de você no momento em que li sobre a morte dele. Sempre lembrarei do seu caso com ele ao ler o nome Scliar!
Beijos

{ MSN } at: 1 de março de 2011 02:48 disse...

Tatiana

Você prestou uma bela homenagem ao Scliar, tanto em vida, com o seu trabalho, quanto agora quando ele morreu, com esta página afetiva de memória.
Miguel

{ Fernand's } at: 1 de março de 2011 19:24 disse...

fiquei emocionada com tua história. tbm sou jornalista, sei o quanto nos contagia a literatura, ainda mais conhecer o autor, objeto de pesquisa e tese de graduação.

parabéns.
gde bj meu.

{ Bola, o André } at: 1 de março de 2011 22:22 disse...

Fiquei triste com a morte dele também, apesar de não conhecer sua obra, só conheço de ouvir falar... Mais triste agora... Belo post Tati, como sempre...

Bjo!!!

{ Beto } at: 3 de março de 2011 21:56 disse...

Tati, não tenho cabeça pra te escrever agora mas me emocionei muito com teu texto, algumas ocasiōes conversei com o pai sobre ti (e sobre teu pai).
Perdi meu melhor amigo, meu guia, meu companheiro de aventuras.
Mais qu ser Moacyr escritor, admiro o pai pela simplicidadem, humildade e igualdade que ele tratava as pessoas
tu é show guria!!!


Beto

{ Fortalecer em Deus } at: 4 de março de 2011 05:52 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
{ Lediane Andrade Galvão } at: 4 de março de 2011 06:00 disse...

Lembro bem a noite que ele esteve na universidade. Recordo bem o que ele disse na palestra, fiquei muito curiosa quando falou de um dos seus livros: "A Mulher que Escreveu a Bíblia". Realmente um escritor marcante. E parabéns Tati pelo seu belo texto, também porque não só conhece o excelente escritor, como também teve a honra de conhecer a pessoa Moacyr Scliar.

{ Gui Sandi } at: 4 de março de 2011 11:44 disse...

Curioso, não é?
Depois da morte do Moacyr, pipocaram em blogs relatos de leitores e de aspirantes a escritores (a serem publicados) reiterando o aspecto muito humano de Scliar e de sua agilidade em dar vazão a tanta literatura que impulsionava sua vida e, por conseguinte, as nossas.
Fico muito contente de saber que não só comigo ele foi um homem extremamente atencioso, como com quem dele precisasse. Mais um grande autor e enorme ser humano que alcança a completa liberdade.

{ glauce } at: 26 de março de 2011 19:08 disse...

Não o conheço nada de sua obra, mas chorei aqui, Tati!

Fico com esse comentário, foi assim que aconteceu comingo.

"Você está certo, meu jovem amigo. Não só as férias são curtas, a vida também”.

E por isso não posso sair dela sem dizer o quanto tenho orgulho de vc.
Te amo muito, parabéns!

{ Felipe Lários } at: 29 de junho de 2012 12:05 disse...

Que história bonita, Tatiana! Cliquei no link que vc deixou lá no Blog dos 30 e não consegui parar de ler!

E que gente fina foi este Scliar, hein!?

Parabéns!

{ Luana V. } at: 2 de julho de 2012 13:01 disse...

Tatiana, gostei de ler seu texto sobre o Scliar! Não conheço bem a obra dele, mas gosto muito do que já li. Abraços!

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine