Educação

No parque, observei três meninos na fila da torneira, esperando para encher de água o baldinho. Molhar a areia para construir castelos, piscinas, um mundo todo de terra e água na palma das mãos. Os três na fila, as mães no banco, conversando sobre trabalho e esmaltes. Uma das mães, que não era mãe de nenhum dos três meninos, aproveitava o domingo de parque para corrigir provas dos alunos, enquanto as quatro crianças que ela trouxera a interrompiam constantemente, pedindo chocolate, pedindo refrigerante, pedindo pra mãe salvar da altura do brinquedo. A mãe e suas quatro crianças tomaram minha atenção por instantes, mas o aprendizado daquele domingo ensolarado estava mesmo na fila da torneira.
Enquanto os três meninos aguardavam pacientemente sua vez, uma senhora passou na frente deles, sem dó nem piedade, para encher uma garrafinha. Um dos garotos, com aquele ar sem ironia nem arrogância que toda criança de uns seis anos pode ter, perguntou; “Tia, a senhora não tinha que ‘tá’ lá trás?” Ela fez que nenhuma palavra foi dita. O garoto esperou a adulta saciar sua sede, eles encheram os baldes e voltaram contentes para a areia.
Do banco, só me restou torcer. Torcer para que o menino conserve sua sabedoria de pequeno, de saber quando as coisas estão erradas e de saber que isso deve ser dito em alta voz. Esperamos, menino, que mesmo ignorada, a voz da justiça um dia seja ouvida. E eu espero, “tia”, que seu encontro ocasional tenha servido ao menino. E que, se preciso for, mais “tias” encontrem meninos para que eles saibam, em todas as filas, em todas as esquinas, em cada dia, o que não deve ser feito.

9 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 28 de março de 2011 20:03 disse...

Nasce vaziozinha né, e é esponja, vai sugar o que ver. Li esses dias um texto do Mandela dizendo que ninguém nasce odiando, aprende odiar, e que se é assim que funciona dá pra aprender a amar, e dá dum jeito mais fácil e natural do que acontece com o ódio, pois o amor é um sentimento muito mais familiar para o humano do que o ódio. Eu sempre me emociono com o Mandela. Sempre me emociono com criança. Sempre me emociono com você.

{ Paula de Assis Fernandes } at: 29 de março de 2011 11:09 disse...

Adorei, Tati. E que esse menino cresça respeitando, vendo o que é negativo e não copiando-o. E esse vídeo, fantástico. Sempre me arrepia. Beijos

{ Michele Matos } at: 3 de abril de 2011 18:34 disse...

Puta lição de moral.
E que ótimo imaginar o cenário com esse texto lindo!

{ Marcy! } at: 3 de abril de 2011 23:43 disse...

Tantos pequenos dando lição em gente grande. As crianças na sua sábia inocência deveriam servir de exemplo para nós, adultos, com nossos medos, nossas malícias e até mesmo nossas vergonhas.

{ Marcy! } at: 3 de abril de 2011 23:43 disse...

Tantos pequenos dando lição em gente grande. As crianças na sua sábia inocência deveriam servir de exemplo para nós, adultos, com nossos medos, nossas malícias e até mesmo nossas vergonhas.

{ IgorVilla } at: 15 de abril de 2011 10:30 disse...

Se o moleque tivesse xingado a tia ela não teria ignorado... Se tivesse ameaçado jogar pedra então... a véia nunca mais ia querer furar fila novamente... rs...

Mas tudo bem, o moleque fez certo...

{ Lai Paiva } at: 20 de abril de 2011 08:21 disse...

Muito legal. Vou dar pro meu filho ler. Bj

{ Scheyla Joanne Horst } at: 23 de abril de 2011 17:03 disse...

Bela divagação!

{ ensinoregular } at: 29 de abril de 2011 12:27 disse...

Que texto bonito e chocante,pena que os adultos esqueçam de se educarem para dar bons exemplos as crianças que estão formando seus conceitos do certo e do errado.

 

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