Nostalgia

do tempo em que meu maior medo era a lua

que eu espiava medonha e escondidinha

debaixo do colo protetor e risonho do meu pai

na frente de uma janela sem cortinas


s.f. tristeza profunda pelo leite derramado,

pelo que já foi e não volta mais

estado melancólico da alma


do tempo em que bullying não tinha esse nome

e minha única inimiga se chamava kethiele

a mais desbocada e terrível criança que já existiu

vilã até no nome


o sufixo “algia” tem raízes gregas e significa dor, aflição

o que quer dizer o resto da palavra desconheço

e prefiro continuar desconhecendo


do tempo em que eu morava na avenida brasil

e achava que todo mundo, mesmo os que moravam bem longe,

moravam também na avenida brasil, que por ser brasil era grande

e podia abrigar o mundo inteiro


os dados epidemiológicos referentes à nostalgia são bem variados

pode acometer crianças, homens, mulheres e velhos

especialmente velhos, no corpo ou na alma


do tempo em que o tempo era moleque travesso

e o mais curto era o tempo do recreio e o mais longo, o tempo de um ano letivo

no meio tempo o objetivo era passar de ano

e a gente sabia qual era exatamente o próximo passo e que ele não era em falso


os sintomas mais frequentes da nostalgia são o pigarro da alma,

saudade do que já foi e do que ainda não veio

melancolia varrida, que varre, varre e não recolhe nunca


do tempo em que mudar de colégio era o que de pior poderia acontecer

mas a tarde era inteira nossa, com sessão da tarde, mate da tarde, pipoca da tarde,

até que tarde da noite, lá pelas 7, a mãe ligava, dizendo que era hora de voltar


o diagnóstico efetivo se dá por um exame aprofundado nas pupilas

donde se vê o reflexo de um porto vazio e uma casa irremediavelmente perdida

e um sonho do qual se acorda já em pé


do tempo em que meu orgulho era ter lido quase todos da série vagalume,

e todos os livros do mundo estavam no acervo da Biblioteca Municipal de São Lourenço do Oeste

e a Marisa, bibliotecária, tinha a chave de tudo, por saber exatamente onde cada livro estava


uma das poucas moléstias em que não há prevenção

ou se nasce com ela ou nasce sem ela

mas ao longo da vida pode ser desenvolvida ao ver um álbum amarelado


do tempo em que eu sabia ralar joelhos a bordo de uma bicicleta

e que os machucados saravam rápido, como raiva de mãe

e briga de irmão mais velho


os sintomas são aliviados se o paciente respirar fundo três vezes,

subir numa ameixeira vez em quando outra e cuspir ressentimento fora como se cospe caroço

tratamento, amigo, não tem

nostálgico é doente crônico, vivente do passado e meio que descrente no futuro

6 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 21 de maio de 2011 04:01 disse...

Coisa linda, não a toa foi ovacionado.

{ Klaus Pettinger } at: 22 de maio de 2011 19:16 disse...

esse está muito longo... depois comento! #rááááMeVinguei!!!

{ Michele Matos } at: 23 de maio de 2011 07:50 disse...

Gente! Que lindo!
Eu sofro desse mal sim. =*
Bju Tatica, saudade!

{ Klaus Pettinger } at: 29 de maio de 2011 13:18 disse...

Já me arrependi de não ter lido antes (reli 3 vezes pra me redimir)! Fantástico!!!

Então, neste caso, é bom começar a sentir nostalgia deste texto. Sorte que, também neste caso, você tem um belo antídoto para o futuro: seu talento!

Nunca mais deixe de escrever ¨poemas metidos a poemas¨, guria! Vou parar de elogiar, senão vão me achar muito puxa-saco... mas que é dos seus melhores, ah, isso é!

{ FABI } at: 29 de maio de 2011 17:14 disse...

Bom demais Tati!

{ Camila Rufine } at: 9 de junho de 2011 13:33 disse...

Ai, tati. só pra eu me lembrar que não sei fazer poesia né? Hunf!
Lindo!

 

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