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Sépia

A foto na parede era a única coisa que fazia o homem sisudo rir.
Coisa estranha homem sério daqueles com foto de hippie na parede.
Tinha dias que a secretária entrava e ele estava lá, contemplando.
Enquanto ele assinava os documentos ela ficava de um para outro, credo.
Como é que esse homem aqui já foi esse aí?
Cabelo comprido, bagunçado, bermuda desfiada.
Violão do lado. E será que ele sabe tocar violão?
Além do mais na foto o homem parecia não ter nada a perder.
Não era tranquilidade de executivo, era, Deus que me perdoe, vagabundagem.
O homem atrás da mesa tinha muito a perder, comandava o mundo, imagina.
Nunca perguntou. Perguntava muito pouco, aliás.
O homem era por demais carrancudo. Ria pouco, só na frente da foto.
Nem com os filhos ele ria. Nem no final do ano ele ria. Nem com balanço positivo ele ria.

A secretária nunca soube.
A foto foi achada num sebo, dentro de um livro
Ele nunca entrava em sebos. Homem rico, imagina.
Comprou o livro por causa da foto, perdida dentro.
Na foto não era ele. Mas ele queria que fosse.


*Exercício realizado para a oficina "Narrativas breves", com Marcelino Freire. Na foto, o colega de oficina Victor Faria, do Saber menos.


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