Tatiana

A primeira vez que li algo dela foi tarde, há dois anos só, e se chamava Olhos de ver. Já tinha ouvido falar da escritora muito antes, mas queria ter passado minha infância toda com ela.
Descobri que Tatiana Belinky, escritora de 92 anos nascida na Rússia mas radicada no Brasil há mais de 80 anos, estaria em uma festa de aniversário de uma editora de livros infantis aqui em São Paulo. No dia e horário marcados, desci do metrô ainda me perguntando o que eu ia fazer ao chegar lá, sem conhecer ninguém, só querendo saber da Belinky. Decidi não pegar ônibus e fiz o trajeto até o lugar a pé, só pra contemplar a beleza das ruas cheias de brechós e lojas de móveis antigos. Um primor.
Cheguei na festa, encontrei-me com outros escritores e ilustradores, mas Tatiana ainda não tinha dado o ar de sua graça. Eu era uma menina grande, a única que não era criança ou estava acompanhando uma, numa verdadeira festa de arromba. Tinha contação de histórias, pipoca, milho verde cozido no fogão a lenha, brincadeiras, amendoim, bala de coco, oficinas, teatro, refrigerante, suco, goma. E nada da Tatiana.
Perguntei a umas três pessoas da editora quando ela chegaria, ainda me remoendo por não ter levado a máquina fotográfica. De repente, um escritor de livros infantis que conversava com as crianças lá no palco anunciou no microfone que Tatiana Belinky já chegara. Enfiei-me na fila, tentei convencer dois possuidores de máquina fotográfica a registrar meu momento com ela. O primeiro estava de saída, o outro não podia passar a foto.
Não interessava muito. Eu estava diante dela, da senhora distinta com olhos de moleca, que deu sua corrente de ouro pelo bem de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista, que chorou copiosamente quando os espanhóis se entregaram ao exército de Franco, que deixou um primo na Letônia apaixonado por ela, sendo os dois separados definitivamente mais tarde, durante a 2ª Guerra Mundial.
Tudo isso e eu ali, livro na mão, sem saber o que fazer. Abaixei-me do lado da cadeira de rodas e disse: Eu sou Tatiana também, o livro é pra mim. “Não diga!”, ela me respondeu. Com a mão fraquinha, a mente lúcida escreveu: “Para você, xará, um beijo da xará Tatiana Belinky”. Emocionada, falei baixinho no seu ouvido: “Tatiana, queria te agradecer por ter me ensinado a ter olhos de ver”. Ela gargalhou e alguém me chamou. Arthur, o primeiro possuidor da máquina que estava de saída, estava com a máquina apontada para nós. Disse: eu voltei pra fazer sua foto. Foi completo.

4 comentários:

{ Klaus Pettinger } at: 19 de junho de 2011 13:42 disse...

Chegará o dia no qual agradecerei a quem te deu 'mãos de escrever'! Ah, claro: eis a eterna estrangeira q sabe usufruir dos lugares q a acolhem.

{ Paula de Assis Fernandes } at: 20 de junho de 2011 07:04 disse...

Que lindo! Parabéns, Tati! Bela ídola! ;)

{ Michele Matos } at: 22 de junho de 2011 07:30 disse...

Ai que lindoooo!!! Que bom que conseguiu registrar o momento.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 27 de junho de 2011 18:58 disse...

Na primeira página do meu "Olhos de Ver" está escrito meu nome e, em baixo, "1998", com uma letra ainda titubeante. Acho que a Tatiana foi a primeira pessoa a me contar de um jeito profundo das pessoas anônimas que eu também via todo dia, como o cavalheiro que lhe pediu um empréstimo de dois mil e quatrocentos ou o menino que queria um livro. Encontrados nas ruas de São Paulo, ruas de qualquer lugar. Legal você ter conhecido ela ;)

 

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