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Mostrando postagens de Julho, 2011

A trança

No trem, o celular tocou. O homem, com poucos fios na cabeça, todos já grisalhos, falava alto, bem alto. “Ô, pastor, pastor, quando posso pegar os livros?... Amanhã?... “Sem problema, sem problema.... Minha esposa pega. Deixa eu ver com ela que horas dá para passar aí”.No banco ao lado dele, ela, a esposa. Cara de índia, aquelas índias gordas e curandeiras, com duas tranças, finas, entrelaçadas desde o topo da cabeça. Cara de poucos amigos, cara de que sim, tinha problema. “Vou ao mercado com você, né?”, respondeu em tom de reprovação. A partir daí ele ficou naquela situação de tentar reverter o mau humor da pessoa que não quer fazer nada, sem poder matá-la, pelo contrário, com tom afável, ao mesmo em que segurava o pastor, homem obviamente muito ocupado, na linha. Minutos suados depois, uma solução. “Então nove horas ela bate palma aí na frente e pega tudo”. Ufa.Nesse momento me peguei pensando nesses casais de muito tempo e, principalmente, nesses casais de muito tempo com uma mulhe…

Brinde

Repara só. É só você aparecer empolgado com alguma notícia, como a mudança de casa que você tanto esperava, que aparece um punhado de gente com energia ruim. Fala mal do novo bairro, alerta sobre a violência, lamenta os preços (tão altos!) ou vem contando uma história de uma tia de uma cunhada de uma vizinha que perdeu toda a mudança por conta de uma transportadora fantasma.Ando cada vez mais convencida que felicidade incomoda. Não precisa ser um plano concreto, basta você mencionar uma ideia mirabolante ou até mesmo uma banalidade divertida que acabou de passar pela sua cabeça que os agouradores de plantão ativam o mecanismo que despeja instantaneamente a água fria, anunciando os contras, os contras, os contras. No final você fica se sentindo o Curupira, com os pés virados pra trás. Travados de medo. Eles não perdoam nem mesmo quando você conta uma história ruim. “Vocês viram o assassinato do governador? Três tiros na cabeça”, você se espanta. Eis que seu seca-pimenteira de carteirin…
Meu pai é autista e gosta de pólvora. Nunca recebi um afago, uma palavra de carinho ou a presença dele nas festinhas e feiras de ciências da escola. Sou filha de um autista e minha mãe me ensinou desde cedo que ele me ama e que esse é o jeito dele. Ou melhor, a disfunção de desenvolvimento dele. Ela também me ensinou que não posso chegar muito perto, principalmente quando ele está segurando armas de fogo. Geralmente os autistas são arredios a contatos e têm linguagem pouco desenvolvida, por isso não respondem a perguntas e se isolam quando as pessoas insistem em se aproximar. Papai atira. Até hoje contabilizamos, entre os seres atingidos pela sua pólvora, o teto da sala, a parede da garagem, um ursinho de pelúcia que cantava, três gatos e o braço do namorado da minha irmã, só porque ele errou a porta do banheiro e surpreendeu meu pai no quarto. Depois dos três gatos baleados, minha mãe desistiu de nos comprar um cachorro, mesmo com os apelos chorosos meus e da minha irmã. Se os gatos …