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Meu pai é autista e gosta de pólvora. Nunca recebi um afago, uma palavra de carinho ou a presença dele nas festinhas e feiras de ciências da escola. Sou filha de um autista e minha mãe me ensinou desde cedo que ele me ama e que esse é o jeito dele. Ou melhor, a disfunção de desenvolvimento dele. Ela também me ensinou que não posso chegar muito perto, principalmente quando ele está segurando armas de fogo. Geralmente os autistas são arredios a contatos e têm linguagem pouco desenvolvida, por isso não respondem a perguntas e se isolam quando as pessoas insistem em se aproximar. Papai atira. Até hoje contabilizamos, entre os seres atingidos pela sua pólvora, o teto da sala, a parede da garagem, um ursinho de pelúcia que cantava, três gatos e o braço do namorado da minha irmã, só porque ele errou a porta do banheiro e surpreendeu meu pai no quarto. Depois dos três gatos baleados, minha mãe desistiu de nos comprar um cachorro, mesmo com os apelos chorosos meus e da minha irmã. Se os gatos que já são meio autistas meu pai implicou, mamãe pensava, dou um cachorro e na primeira lambida as meninas verão o cadáver do cãozinho estendido na cozinha, em pleno café da manhã. Nunca acreditei que papai fizesse por mal. É o jeito dele de lidar com tudo, com esse ódio do mundo. E a mira dele nem é tão boa, foram oito gatos mirados pra morrerem somente três. Um dia ele deixou os rifles e pistolas de lado. Pensamos, curou-se. No outro dia comprou um canhão. Antes de abastecê-lo com pólvora, a mistura de carvão, enxofre, nitrato de potássio e a bala, foi contido pelos homens de branco e a camisa de força. Minha mãe deu um basta. Nunca suportou enxofre.


*Graças a Deus esse é um texto de ficção. Meu pai está longe de ser um autista e tem horror a armas de fogo. Esse é um exercício realizado para a oficina "Narrativas breves", com o escritor Marcelino Freire.

Comentários

Michele Matos disse…
Huhaahuahuahauhauha Fiquei assustada e encantada.
Klaus Pettinger disse…
Hahahahahahahahaha!!! Faz mais disso, é divertido!!! Meu pai tb é autista! Ele tem 1,96m e se chama Alto e toca flauta (essa última frase é verdadeira...hahaha).
Imagina o Santa com um canhão, São Lourenço nunca mais pra mim.
doc disse…
Gostei do seu texto e conclui que nunca fui um pai autista... o que, realmente, não fez a menor diferença!
FABI disse…
Meu, você escreve muito bem Tati... mesmo já tendo lindo que era uma ficção, só consegui imaginar seu pai atirando nos gatos e não querendo abraçar vc´s...

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