A trança

No trem, o celular tocou. O homem, com poucos fios na cabeça, todos já grisalhos, falava alto, bem alto. “Ô, pastor, pastor, quando posso pegar os livros?... Amanhã?... “Sem problema, sem problema.... Minha esposa pega. Deixa eu ver com ela que horas dá para passar aí”.

No banco ao lado dele, ela, a esposa. Cara de índia, aquelas índias gordas e curandeiras, com duas tranças, finas, entrelaçadas desde o topo da cabeça. Cara de poucos amigos, cara de que sim, tinha problema. “Vou ao mercado com você, né?”, respondeu em tom de reprovação. A partir daí ele ficou naquela situação de tentar reverter o mau humor da pessoa que não quer fazer nada, sem poder matá-la, pelo contrário, com tom afável, ao mesmo em que segurava o pastor, homem obviamente muito ocupado, na linha. Minutos suados depois, uma solução. “Então nove horas ela bate palma aí na frente e pega tudo”. Ufa.

Nesse momento me peguei pensando nesses casais de muito tempo e, principalmente, nesses casais de muito tempo com uma mulher com cara de cu, com cara de que tudo não pode, com cara de que o hormônio já faz falta, de que a labuta do dia a dia já pesa nas costas há muito tempo. Pensei nos pobres coitados dos cônjuges que convivem com esses tocos de desamor e nos malabarismos diários que devem ser feitos para não se largar mão de vez. “O casamento é um eterno ceder”, costuma dizer minha mãe.

E de pensar, fechando os olhos por um instante, eles se surpreenderam abertos olhando uma mulher que ria. Ria com riso de quem se derrete feito manteiga no sol. Tudo porque o homem estava comendo (sim, comendo) sua trança direita. Mastigava-a com vontade, pincelava a trancinha na cara toda, para depois comê-la de novo, finalizando o movimento fingindo ser a ponta da trança seu bigode.

A mulher ria, ao mesmo tempo que puxava a trança de volta, sorriso nos lábios que contrastava com suas palavras de censura. “Para, homem”.

Poucas vezes minhas perguntas foram respondidas com tanta rapidez. O amor desarma. Desarma porque se faz de bobo, de bobo ao mesmo tempo que esperto, como criança que faz xixi na cama e chama a mãe de linda. Desarma como homem vivido comendo trancinha. Desarma porque é capaz de entrelaçar até fio bem embaraçado. Desarma porque diante de bobeira linda a gente baixa as armas. Obrigada, homem.

5 comentários:

{ Klaus Pettinger } at: 30 de julho de 2011 09:57 disse...

Daria pra fazer uma tese psicanalítica só disso: sugerir que a mulher é uma ¨cara de cu mimada¨, que faz manha só pro marido voltar a fazer-la sorrir: ou que o marido é um absoluto inseguro, acostumado às grosserias para não perder quem já lhe segurou tantas barras pesadas...
Mas prefiro mesmo é concordar que isso é amor, dos mais difíceis de largar, por não ser perfeito, mas do melhor jeito.
Ah, de nada, nós homens somos os máximos!!!
Ah 2, aposto um dedo que a mulher esqueceu a gracinha do dia anterior e foi buscar os livros bufando...

{ FABI } at: 31 de julho de 2011 18:35 disse...

É Tati, estou aprendendo que é difícil ser cônjuge por ter que ceder bastante (ainda não sei se é eterno!) coisa que não temos na casa dos pais!
Mas quando estamos deitados na cama e você fala uma bosta e ele te dá um haduggen, vc ri apesar da dor... e enche ele de beijos e carinho como se fosse castigo!

{ Paula de Assis Fernandes } at: 2 de agosto de 2011 10:00 disse...

Que lindo, Tati! É, o amor desarma, mesmo. E como! ;)

{ Michele Matos } at: 4 de agosto de 2011 07:39 disse...

Oooo Gódi!!! Esse tal amor desarma e deixa bobo. Eu não esperava isso do homem, não mesmo.

{ Renata Caleffi } at: 4 de agosto de 2011 13:53 disse...

dei um sorriso de canto de boca. Afinal, quem nunca teve um 'homem' que te fez rir depois de brigar. Né! curti milhões!

 

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