Minha prece em favor dos incompreendidos

Estive pensando numa boa definição para insegurança. É quando sua autoestima é tão baixa, mas tão baixa, que você deixa os outros definirem o que você é, mais do que você mesmo. Aos inseguros não basta gritar bem alto quem são. Os outros gritam por eles, apontando o dedo em riste, cuspindo suas características mais vãs, justamente aquelas que não os definem bem.

Porque ninguém é uma coisa só. Embora a capacidade humana seja mestre em generalizar, para ficar mais fácil digerir as cenas, são as pessoas que mais se orgulham de sua capacidade analítica as que mais cometem erros. Porque essas têm a péssima tendência de atirar em cheio seus diagnósticos, sendo seu melhor alvo os inseguros azarados em lhes dar ouvidos. E o pior de lhes cravar a irremediável marca do que são, os pseudoanalistas ainda despejam suas opiniões como se as características fossem imutáveis. E mais, a origem de todo e qualquer desconforto.

Nada pior para os inseguros (pior ainda do que se perder o direito de se dizer quem é, em alto e bom som) é a sensação de que nada vai mudar. Seus erros mais torpes, as pisadas na bola mais feias e a imaturidade empregada desesperadamente em certas situações, tudo isso é mais forte. Porque, como disse um cara numa palestra que vi, a memória tem se tornado mais forte que a experiência. Infelizmente.

Sou ainda a mesma menina medrosa que minha mãe tentava chacoalhar com algumas doses de humilhação. Sou ainda a menina chorona que meu tio arrancou do banheiro e deu boas lições de moral. Sou a garota ciumenta, que não sabe lidar com as perdas das pessoas. Sou a mulher que, quem diria, foi taxada de rude por não se sentir à vontade em algumas rodas. Sou a doída, a corroída, a malvada, a maldosa, a vitimizada.

As definições são dadas pelas pessoas que preferem não ouvir, não sentir o que está no outro. Importa apenas a sua memória, que nem sempre traduz o todo. É muito fácil, aos apontadores de dedo em riste, definir quem o outro é e porque ele age desse ou daquele jeito. É um jeito fácil. E torto. Difícil é compreender. A mesma incompreensão de quem analisa em demasia é a que o faz desistir das coisas. Das lidas da própria vida. Das relações, das possíveis zonas de conflito. Quem mais gosta de apontar nos outros a fragilidade é quem tem mais dificuldade com seus dilemas, em enfrentar seus fantasmas (quando não são os mesmos que os assombram).

Por isso rezo essa prece em favor dos incompreendidos, inseguros, taxados. Desejo somente um grito forte e pesado. Dizendo quem são, voz firme, segura. E nesse canto tão bonito, tão alto, suas palavras serão ouvidas, entendidas, assimiladas. Esse mantra, capaz de despertar a ira de quem se acha tão cheio de razão, vai é mesmo amolecer os corações para a presença de um outro, desaparecer com a pretensão de se saber demais e dissolver a presunção de rotular o mundo.

6 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 17 de novembro de 2011 05:41 disse...

Depois que li me deu vontade de murchar o dedo e de analisar por dentro, de mim, sem riste.

{ Marcy! } at: 20 de novembro de 2011 12:14 disse...

Que texto maravilhoso!!!

{ Michele Matos } at: 21 de novembro de 2011 10:55 disse...

Menina Tatiana, é uma honra ter você lá de primeiro comentário. Porque olha...seus textos estão cada vez mais surpreendentes. Que essa prece, esse mantra seja proferido por aí, em todo lugar.

{ Híndira } at: 23 de novembro de 2011 10:50 disse...

O seu texto exige silêncio e introspecção.

{ Scheyla Horst } at: 24 de novembro de 2011 22:39 disse...

Ótimo texto, Tati. Boas reflexões.

{ Klaus Pettinger } at: 26 de novembro de 2011 06:58 disse...

Fora de série, Tati, parabéns!!! A vantagem dos inseguros confessos é a capacidade singular de auto-análise, por isso o texto é lindo! Ah, me diga uma pessoa que não seja insegura nesse mundo (não a que não pareça, mas que realmente não seja)? Não conheço uma única. Continua escrevendo, please!!

 

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