Sem caminhos

Moro bem perto de um aeroporto, mas nunca viajei por meio dele. Minha mais recente viagem e primeira inaugurando minha passagem por ali faz uns 15 dias. Na volta, fiquei com medo de ser enganada pelo taxista e liguei para minha companheira de apartamento para saber as indicações de como voltar para casa pelo caminho mais curto. "Pega a avenida tal, a rua tal, depois a rua tal..."
Entrei no taxi, falei meu endereço e dei uma de malandra:
- O senhor vai pela avenida tal? E depois pega aquela rua?
- Não.
Como assim, fiquei me perguntando, com aquele medo de ser enganada mas sem muitos argumentos. Ele perguntou que caminho era aquele que eu estava apontando, um absurdo, onde já se viu pegar tal avenida, onde você aprendeu esse caminho? Tive vergonha de dizer que pedi arrego. Contei que tinha feito o caminho com outro taxista.
Então ele explodiu numa gargalhada. "É claro que ele te enganou". E riu mais.
- Deu mil voltas com você, ou você mesmo pediu esse caminho a ele?
Não, não seria tão idiota de pedir um caminho que nunca havia feito antes. Encurralei-me na mentira, estava me sentindo envergonhada, até diminuída, por ter sido enganada por uma história que sequer existiu. E o taxista lá, rindo, não por maldade, mas um tanto por ver a história se repetir por mil vezes na sua profissão.
Foi aí que eu tomei as dores da minha amiga (que deve ter sido, ela sim, enganada) e expressei a mágoa por ter sido, eu também, enganada no Rio, cidade de onde tinha acabado de desembarcar (dias antes o taxista carioca fez o caminho mais comprido, para que eu pagasse uma pequena fortuna a mais). Essas enganações todas foram me avermelhando, primeiro pouco, depois tão forte que explodiram, verbalizadas em cachorros soltos:
- Pois eu não tenho vergonha de nada, meu senhor. Quem me enganou foi ele (e aqui ele representa todos os taxistas desse meu Brasil). Se alguém tem que se sentir envergonhado, esse taxista é a única pessoa. Não preciso me envergonhar de ter sido enganada por um pilantra, que se vale da ingenuidade alheia para dobrar os caminhos. Isso é roubo, ou ninguém percebe? Se não existissem taxistas ladrões, corruptos, não existiriam pessoas enganadas, roubadas e ouvindo o que estou ouvindo agora.
O cara se calou. Eu acalmei depois de desabafar minha mágoa, lamentando o fato de ter sido assim, com um homem que talvez nem seja corrupto, mas que teve a recorrente mania de achar que a vítima tem culpa. Prometi não me calar mais. Cada vez que vemos algo errado acontecendo e nos calamos, morremos um pouquinho. E eu estou decidida a ficar inteira.

6 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 8 de novembro de 2011 15:38 disse...

E é por isso que eu te amo muito, esse enfezamento deve ser usado sempre, já o com a louça ou o pano de prato pode dá uma folguinha de vez em quando...

{ Michele Matos } at: 9 de novembro de 2011 05:48 disse...

E se ele era corrupto a carapuça serviu. É bom desabafar.

{ Bola, o André } at: 14 de novembro de 2011 04:58 disse...

É isso. Nada a acrescentar!!!

{ Scheyla Horst } at: 15 de novembro de 2011 15:55 disse...

É difícil não se calar diante das várias coisas erradas que vemos todos os dias. Mas é um bom desafio!

{ Híndira } at: 16 de novembro de 2011 02:29 disse...

Acostuma-se a não dizer, daí, quando alguém se expressa numa situação como essa parece tão deslocado, né?

{ Klaus Pettinger } at: 22 de novembro de 2011 06:19 disse...

Eu ia dizer que o problema do Brasil é justamente jogarmos todos numa vala comum, por isso as leis são genéricas e injustas e a presunção da inocência muitas vezes não existe, só para os políticos.
Mas pensei melhor e vou dizer apenas: isso aí Tati! Manda esses pilantras todos catarem coquinho, esse bando de caras maus!! Nossa, peguei pesado!!! ;p
De boa? Mandou benzaço (bensaço???), o cara ralou peito, tá ligada!

 

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