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Sépia

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A foto na parede era a única coisa que fazia o homem sisudo rir.
Coisa estranha homem sério daqueles com foto de hippie na parede.
Tinha dias que a secretária entrava e ele estava lá, contemplando.
Enquanto ele assinava os documentos ela ficava de um para outro, credo.
Como é que esse homem aqui já foi esse aí?
Cabelo comprido, bagunçado, bermuda desfiada.
Violão do lado. E será que ele sabe tocar violão?
Além do mais na foto o homem parecia não ter nada a perder.
Não era tranquilidade de executivo, era, Deus que me perdoe, vagabundagem.
O homem atrás da mesa tinha muito a perder, comandava o mundo, imagina.
Nunca perguntou. Perguntava muito pouco, aliás.
O homem era por demais carrancudo. Ria pouco, só na frente da foto.
Nem com os filhos ele ria. Nem no final do ano ele ria. Nem com balanço positivo ele ria.

A secretária nunca soube.
A foto foi achada num sebo, dentro de um livro
Ele nunca entrava em sebos. Homem rico, imagina.
Comprou o livro por causa da foto, perdida dentro.
Na foto não era ele. Mas ele queria que fosse.


*Exercício realizado para a oficina "Narrativas breves", com Marcelino Freire. Na foto, o colega de oficina Victor Faria, do Saber menos.


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Tatiana

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A primeira vez que li algo dela foi tarde, há dois anos só, e se chamava Olhos de ver. Já tinha ouvido falar da escritora muito antes, mas queria ter passado minha infância toda com ela.
Descobri que Tatiana Belinky, escritora de 92 anos nascida na Rússia mas radicada no Brasil há mais de 80 anos, estaria em uma festa de aniversário de uma editora de livros infantis aqui em São Paulo. No dia e horário marcados, desci do metrô ainda me perguntando o que eu ia fazer ao chegar lá, sem conhecer ninguém, só querendo saber da Belinky. Decidi não pegar ônibus e fiz o trajeto até o lugar a pé, só pra contemplar a beleza das ruas cheias de brechós e lojas de móveis antigos. Um primor.
Cheguei na festa, encontrei-me com outros escritores e ilustradores, mas Tatiana ainda não tinha dado o ar de sua graça. Eu era uma menina grande, a única que não era criança ou estava acompanhando uma, numa verdadeira festa de arromba. Tinha contação de histórias, pipoca, milho verde cozido no fogão a lenha, brincadeiras, amendoim, bala de coco, oficinas, teatro, refrigerante, suco, goma. E nada da Tatiana.
Perguntei a umas três pessoas da editora quando ela chegaria, ainda me remoendo por não ter levado a máquina fotográfica. De repente, um escritor de livros infantis que conversava com as crianças lá no palco anunciou no microfone que Tatiana Belinky já chegara. Enfiei-me na fila, tentei convencer dois possuidores de máquina fotográfica a registrar meu momento com ela. O primeiro estava de saída, o outro não podia passar a foto.
Não interessava muito. Eu estava diante dela, da senhora distinta com olhos de moleca, que deu sua corrente de ouro pelo bem de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista, que chorou copiosamente quando os espanhóis se entregaram ao exército de Franco, que deixou um primo na Letônia apaixonado por ela, sendo os dois separados definitivamente mais tarde, durante a 2ª Guerra Mundial.
Tudo isso e eu ali, livro na mão, sem saber o que fazer. Abaixei-me do lado da cadeira de rodas e disse: Eu sou Tatiana também, o livro é pra mim. “Não diga!”, ela me respondeu. Com a mão fraquinha, a mente lúcida escreveu: “Para você, xará, um beijo da xará Tatiana Belinky”. Emocionada, falei baixinho no seu ouvido: “Tatiana, queria te agradecer por ter me ensinado a ter olhos de ver”. Ela gargalhou e alguém me chamou. Arthur, o primeiro possuidor da máquina que estava de saída, estava com a máquina apontada para nós. Disse: eu voltei pra fazer sua foto. Foi completo.
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Hoje eu escrevi no muro

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Se você fica pensando que queria ter tido uma turma legal, heterogênea, louca, pronta pra qualquer parada e com pessoas de coração grande, de abrigar o mundo inteiro, morra de inveja. Eu tenho essa turma, ela me enche de orgulho e agora temos um muro pra escrevermos todos juntos.

Torço para que o muro seja bem colorido, como sempre foi. O que for cinza a chuva vem e apaga.

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