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Mostrando postagens de Junho, 2011

Sépia

A foto na parede era a única coisa que fazia o homem sisudo rir.
Coisa estranha homem sério daqueles com foto de hippie na parede. Tinha dias que a secretária entrava e ele estava lá, contemplando. Enquanto ele assinava os documentos ela ficava de um para outro, credo. Como é que esse homem aqui já foi esse aí? Cabelo comprido, bagunçado, bermuda desfiada. Violão do lado. E será que ele sabe tocar violão? Além do mais na foto o homem parecia não ter nada a perder. Não era tranquilidade de executivo, era, Deus que me perdoe, vagabundagem. O homem atrás da mesa tinha muito a perder, comandava o mundo, imagina. Nunca perguntou. Perguntava muito pouco, aliás. O homem era por demais carrancudo. Ria pouco, só na frente da foto. Nem com os filhos ele ria. Nem no final do ano ele ria. Nem com balanço positivo ele ria.
A secretária nunca soube. A foto foi achada num sebo, dentro de um livro Ele nunca entrava em sebos. Homem rico, imagina. Comprou o livro por causa da foto, perdida dentro. Na f…

Tatiana

A primeira vez que li algo dela foi tarde, há dois anos só, e se chamava Olhos de ver. Já tinha ouvido falar da escritora muito antes, mas queria ter passado minha infância toda com ela. Descobri que Tatiana Belinky, escritora de 92 anos nascida na Rússia mas radicada no Brasil há mais de 80 anos, estaria em uma festa de aniversário de uma editora de livros infantis aqui em São Paulo. No dia e horário marcados, desci do metrô ainda me perguntando o que eu ia fazer ao chegar lá, sem conhecer ninguém, só querendo saber da Belinky. Decidi não pegar ônibus e fiz o trajeto até o lugar a pé, só pra contemplar a beleza das ruas cheias de brechós e lojas de móveis antigos. Um primor. Cheguei na festa, encontrei-me com outros escritores e ilustradores, mas Tatiana ainda não tinha dado o ar de sua graça. Eu era uma menina grande, a única que não era criança ou estava acompanhando uma, numa verdadeira festa de arromba. Tinha contação de histórias, pipoca, milho verde cozido no fogão a lenha, br…

Hoje eu escrevi no muro

Se você fica pensando que queria ter tido uma turma legal, heterogênea, louca, pronta pra qualquer parada e com pessoas de coração grande, de abrigar o mundo inteiro, morra de inveja. Eu tenho essa turma, ela me enche de orgulho e agora temos um muro pra escrevermos todos juntos.
Torço para que o muro seja bem colorido, como sempre foi. O que for cinza a chuva vem e apaga.
Texto meu, o primeiro de muitos, espero: http://murodasdivagacoes.wordpress.com/2011/06/10/firme-obstinada-teimosa-como-uma-mula/