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Cortei os cabelos, de um jeito que precisava. Cortei os cabelos para me libertar do escudo que armei em volta de mim, da defesa certa quando a vergonha e a insegurança me jogavam atrás das cortinas. Rasguei minhas cortinas para mostrar meu rosto, para mostrar quem eu quero ser, minha cara emoldurada, o susto que ainda levo ao ver aquela moça diferente de relance no espelho. As pessoas na rua me olham diferente e sinto-me como as centenas de paulistanos que não me conheciam e para quem eu continuo uma anônima. Sou essa imagem daqui para a frente. Libertei-me da aparência de menina, da aparência que me acompanha desde que me entendo por gente. Cortei os fios longos e hoje tenho as costas nuas, hoje meu “Alea jacta est” está à mostra. Hoje sou mais eu, ou pelo menos sou eu tentando descobrir quem sou. Fiquei mais jovem e mais moderna, dizem. Não sei. Fiquei mais feliz. Não me escondo. Não consigo me esconder dos meus fios curtos e bagunçados. Não sou mais Sansão, não preciso mais da força do peso e do comprimento dos pelos. Os curtos me renasceram. Sou Dalila. A que corta, a que rompe, a que se reinventa, a que aparece. Sou livre e me sou anônima, precisei cortar para me redescobrir. Muito prazer.


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Minha prece em favor dos incompreendidos

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Estive pensando numa boa definição para insegurança. É quando sua autoestima é tão baixa, mas tão baixa, que você deixa os outros definirem o que você é, mais do que você mesmo. Aos inseguros não basta gritar bem alto quem são. Os outros gritam por eles, apontando o dedo em riste, cuspindo suas características mais vãs, justamente aquelas que não os definem bem.

Porque ninguém é uma coisa só. Embora a capacidade humana seja mestre em generalizar, para ficar mais fácil digerir as cenas, são as pessoas que mais se orgulham de sua capacidade analítica as que mais cometem erros. Porque essas têm a péssima tendência de atirar em cheio seus diagnósticos, sendo seu melhor alvo os inseguros azarados em lhes dar ouvidos. E o pior de lhes cravar a irremediável marca do que são, os pseudoanalistas ainda despejam suas opiniões como se as características fossem imutáveis. E mais, a origem de todo e qualquer desconforto.

Nada pior para os inseguros (pior ainda do que se perder o direito de se dizer quem é, em alto e bom som) é a sensação de que nada vai mudar. Seus erros mais torpes, as pisadas na bola mais feias e a imaturidade empregada desesperadamente em certas situações, tudo isso é mais forte. Porque, como disse um cara numa palestra que vi, a memória tem se tornado mais forte que a experiência. Infelizmente.

Sou ainda a mesma menina medrosa que minha mãe tentava chacoalhar com algumas doses de humilhação. Sou ainda a menina chorona que meu tio arrancou do banheiro e deu boas lições de moral. Sou a garota ciumenta, que não sabe lidar com as perdas das pessoas. Sou a mulher que, quem diria, foi taxada de rude por não se sentir à vontade em algumas rodas. Sou a doída, a corroída, a malvada, a maldosa, a vitimizada.

As definições são dadas pelas pessoas que preferem não ouvir, não sentir o que está no outro. Importa apenas a sua memória, que nem sempre traduz o todo. É muito fácil, aos apontadores de dedo em riste, definir quem o outro é e porque ele age desse ou daquele jeito. É um jeito fácil. E torto. Difícil é compreender. A mesma incompreensão de quem analisa em demasia é a que o faz desistir das coisas. Das lidas da própria vida. Das relações, das possíveis zonas de conflito. Quem mais gosta de apontar nos outros a fragilidade é quem tem mais dificuldade com seus dilemas, em enfrentar seus fantasmas (quando não são os mesmos que os assombram).

Por isso rezo essa prece em favor dos incompreendidos, inseguros, taxados. Desejo somente um grito forte e pesado. Dizendo quem são, voz firme, segura. E nesse canto tão bonito, tão alto, suas palavras serão ouvidas, entendidas, assimiladas. Esse mantra, capaz de despertar a ira de quem se acha tão cheio de razão, vai é mesmo amolecer os corações para a presença de um outro, desaparecer com a pretensão de se saber demais e dissolver a presunção de rotular o mundo.

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Sem caminhos

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Moro bem perto de um aeroporto, mas nunca viajei por meio dele. Minha mais recente viagem e primeira inaugurando minha passagem por ali faz uns 15 dias. Na volta, fiquei com medo de ser enganada pelo taxista e liguei para minha companheira de apartamento para saber as indicações de como voltar para casa pelo caminho mais curto. "Pega a avenida tal, a rua tal, depois a rua tal..."
Entrei no taxi, falei meu endereço e dei uma de malandra:
- O senhor vai pela avenida tal? E depois pega aquela rua?
- Não.
Como assim, fiquei me perguntando, com aquele medo de ser enganada mas sem muitos argumentos. Ele perguntou que caminho era aquele que eu estava apontando, um absurdo, onde já se viu pegar tal avenida, onde você aprendeu esse caminho? Tive vergonha de dizer que pedi arrego. Contei que tinha feito o caminho com outro taxista.
Então ele explodiu numa gargalhada. "É claro que ele te enganou". E riu mais.
- Deu mil voltas com você, ou você mesmo pediu esse caminho a ele?
Não, não seria tão idiota de pedir um caminho que nunca havia feito antes. Encurralei-me na mentira, estava me sentindo envergonhada, até diminuída, por ter sido enganada por uma história que sequer existiu. E o taxista lá, rindo, não por maldade, mas um tanto por ver a história se repetir por mil vezes na sua profissão.
Foi aí que eu tomei as dores da minha amiga (que deve ter sido, ela sim, enganada) e expressei a mágoa por ter sido, eu também, enganada no Rio, cidade de onde tinha acabado de desembarcar (dias antes o taxista carioca fez o caminho mais comprido, para que eu pagasse uma pequena fortuna a mais). Essas enganações todas foram me avermelhando, primeiro pouco, depois tão forte que explodiram, verbalizadas em cachorros soltos:
- Pois eu não tenho vergonha de nada, meu senhor. Quem me enganou foi ele (e aqui ele representa todos os taxistas desse meu Brasil). Se alguém tem que se sentir envergonhado, esse taxista é a única pessoa. Não preciso me envergonhar de ter sido enganada por um pilantra, que se vale da ingenuidade alheia para dobrar os caminhos. Isso é roubo, ou ninguém percebe? Se não existissem taxistas ladrões, corruptos, não existiriam pessoas enganadas, roubadas e ouvindo o que estou ouvindo agora.
O cara se calou. Eu acalmei depois de desabafar minha mágoa, lamentando o fato de ter sido assim, com um homem que talvez nem seja corrupto, mas que teve a recorrente mania de achar que a vítima tem culpa. Prometi não me calar mais. Cada vez que vemos algo errado acontecendo e nos calamos, morremos um pouquinho. E eu estou decidida a ficar inteira.
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