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Mostrando postagens de 2012

Soledad Maria

Quantas caixas de supermercado nesse exato momento
Estarão registrando comida congelada, uma coca sem gelo
Um pacote de arroz em saquinhos, um sonho de valsa
E pensando: pobre coitado, ser sozinho é sofrimento

Ora

Eu não quero buscar em mim o que te falta
Porque nessa procura desenfreada perdi o prumo
De ser assim e de afogar meu karma
Somos dois incompletos e incompreendidos
Mas assusta-me você ter esse raciocínio certo
Ser coerente no que acredita, no que sente
Pois dá na mesma medida que exige
Pois quer ser visto no que não mente

Sua coerência me assusta porque não a quero mais
Como absoluta, tenho cá dentro uma verdade
Abrupta, que surta, insulta a conclusão dos finais
De ser sempre esta insana, eterna imbasta
Com a lista de defeitos vasta, com a de desejos curta
Assume as culpas, as minhas, as tuas
Cede as rédeas, rege o rastejo, se desgasta
Se culpa, se mata e não basta

Eu quero é transbordar, ultrapassar a borda
Passar por cima do que basta, de toda a bosta
Fluir em primeira pessoa, singular ou plural
Ser a mesma certeza quando dorme e quando acorda
Quero saber que tenho você ali, ao lado
Ao lado, disposto, talvez mudado
Teu orgulho me fere, me envenena
Tua boca vocifera, sou ora convict…

importa?

e no final, a pessoa que mais importa está te olhando pelo espelho. e quando altruísmo rimar com egoísmo e quando acariciar o outro é gesto corriqueiro e manter palavra é sinal de coisa nenhuma... é quando companhia se resume a um olhar no espelho. um olhar de respeito, por mais que reflexo, é o que importa.


Não sei mais ralar joelhos

Esses dias eu caí na rua feito fruta madura. Derrapei na sandalinha sem salto e fui direto pro chão. De primeira machuquei a mão, um tiquinho do dedão e o joelho. Esse sim, feio. Arranquei a tampa do coitado. Como sempre me ocorre nessas situações, fingi que estava ótima e saí andando o mais natural possível. Ainda ouvi um: “tudo bem, moça?”, respondi meio no sussurro e tratei de sumir. O sangue logo coagulou, quando deu parei para lavar com água e sabão e comprei uns curativos. Achava que estava tudo bem, até o danado do ferimento começar a cicatrizar. Coça, dói, arde, tem uma área em torno da ferida que fica quente, igual uma febrezinha. Hoje nasceu uma pelinha por cima feia, molenga. Sinto dor pra subir escada, quando paro em uma determinada posição e saio andando, dói pra valer, como se a pele estivesse sendo repuxada. Lateja sempre. Não entendo como pode incomodar tanto. Poxa, eu fui uma criança ativa, ativamente arteira e ralei inúmeras vezes meus joelhinhos. Não lembro desse …

Fosse minha

Eu não sou daqui, eu não sou aqui. Eu estou aqui. Há uma sutil diferença entre essas três sentenças. O paraíso de alguns, a correia nostálgica de outros, para mim é apenas a parada na minha rota. O tempo de rever quem fui, mesmo sendo tão difícil de me reconhecer nas ruas reformuladas, nos pontos de referência que conflitam com meus retratos.
O calçadão, batizado assim pelas antigas pedras brancas e pretas dispostas lado a lado, virou uma rua qualquer. Pergunto na loja de botões onde encontro uma presilha, ela me aponta e pergunto: “no calçadão?”, denunciando minha idade. Ninguém vai colher todas as lembranças que deixei impressas ali, nas pedras que já não contam mais histórias. Alguns anjos me roubaram o coração nesses e em outros bosques chamados solidão.
Mas, ao contrário do que se poderia supor, não são velhas as minhas lembranças e novos os caminhos que aqui traço como estrangeira. São os portões de ferro de agora que desafiam os ardilosos feitiços do tempo. É a pintura recente…

Hoje levei um cuspe na cara

É sério. Estava andando na rua, sozinha, às duas da tarde e levei um cuspe na cara. Tão engraçado como deve ser para você ler isso foi assustador para mim passar por isso. Surreal e nojento para leitor e autor. Aconteceu muito rápido. Estava passando por uma rua simpática e florida e um cidadão veio de encontro a mim do outro lado da calçada. Dei um passo para o lado no meio da caminhada e ele deu para o mesmo lado. Foi quase perto que notei que não ia escapar. De um ataque, um assalto, tome aqui meu celular seu moço, meus cartões, meu colar de capim dourado. De um estupro, assim, tão de dia, como que pode. Não. Foi um cuspe. Ele não me encostou um dedo, não me bateu, nem empurrou, não me arranhou. Me cuspiu, com os lábios, não um cuspe escarrado, nada de catarro. Mas choveu saliva em mim. É isso, foi um cuspe chuva. Atônita, como estou até agora, continuo embasbacada com o descaramento do sujeito que passou por mim e me lançou a cusparada. Olhei para trás e ele andava tranquilamente…

Perguntador

- Pai, o que é imensidão? O garoto esperava a resposta, a sobrancelha arqueada, a pose de quem questiona algo extremamente necessário para voltar os olhos ao livro que segurava em mãos. O pai cogitou abrir a boca para falar de grandeza, de mar, quiçá de um campo sem fim, de tudo aquilo que não se vê partida e chegada, daquilo diante do qual nos calamos, como forma de reverenciar o que nos comove em nossa pequenez. O menino desafiou o silêncio com uma pigarreada, a resposta era pertinente demais para continuar sua leitura de menino de 8 anos, ávido leitor, ávido perguntador, ávido descobridor de palavras. Viu o filho esperando sua resposta, a sobrancelha ainda mais arqueada, os lábios de um lado para o outro, um tique nervoso adquirido desde a mais tenra infância, coisa de quem anseia por respostas, o tempo todo. A franja quase em cima dos olhos, pequenininhos, que quando curiosos se fechavam ainda mais. O filho um pouco impaciente, talvez até meio triste, um ar melancólico de quem …

Como é que dói ser demais, ser até

Apenas um bocado de vontade. Vontade de te satisfazer. Desde o primeiro concurso de redação. As viagens, a busca pelo mundo, não sem uma foto junto, pra mostrar que fiz. Tudo que fiz é você ali. Sua imagem analisando se está bom. Os livros devorados angustiadamente, as palavras decoradas milimetricamente. As tentativas frustradas de emagrecer seguidas de ataques de fúria à comida que eu sorvia desesperada. Mente. Choro de acompanhamento. Engulo o título nunca obtido de primeira da sala. A mesma garota gorda e desajeitada, que não é bem resolvida o suficiente pra lidar com os apelidinhos da amiguinha má. Sim, eu sou essa gorda baleia e sendo assim, obesa e palerma, eu choro cá. Não, tenho que virar a mão, fazer sofrer. Sou só eu que sofro. Essa menina que permite que os outros a definam ainda existe. E a incapacidade de se fazer definir é a única coisa forte nessa personalidade quebradiça e infantiloide. Não importa quantos portos, quantas fotos, quantos concursos. A maior juíza ainda …

Pão quentinho

Se me pedissem para resumir o que é viver em São Paulo, eu exemplificaria com o que aconteceu hoje comigo no mercado. Estava na fila da padaria quando uma moça perguntou sobre o pão francês. A balconista disse que ainda tinha alguns, mas que novos sairiam em 3 minutos. A moça foi comprar outras coisas e voltaria depois. Decidi esperar. Fiquei observando o relógio no forno piscar em ordem decrescente. Em três minutos dá pra se pensar em muita coisa. Enquanto esperava meu pão quentinho, um rapaz pediu alguns pães. Ainda restavam uns na cesta. Eu toquei em seu braço, apontando para o forno: “em dois minutos e meio tem pão quentinho...” Ele respondeu com um semissussurro e uma risadinha meio “vou sair de perto dessa louca”, enquanto pegava seu pacote de pães passados. Restou-me refletir por que alguém não se demoraria por pouco mais de dois minutos em troca da felicidade de comer um pão que sai fumacinha. São Paulo é isso. Não se tem tempo para esperar dois minutos, mesmo que esses dois m…

Dos males o metrô

Costumo dizer que Deus deu a dignidade aos homens mas cortou o benefício para quem pega a linha vermelha do metrô. Não acredito em ninguém que me diga ser civilizado pegando metrô naquele fluxo de gente, em dia de semana, horário de pico. Uma vez li que 3 milhões de pessoas se deslocam da Zona Leste para trabalhar e estudar todos os dias. Creio que 95% delas estão no metrô que pego toda manhã. É porque eu moro na última estação antes da Sé, onde desemboca tudo. Então, na minha estação chegam metrôs lotados de outras 11 estações - acredito que as mais badaladas em termos de transporte público.
A primeira vez que peguei (ou melhor, tentei pegar) o metrô na vermelha, entendi o que as pessoas querem dizer com: barbárie. Depois do 5º metrô passar e você não entrar, você espuma. É preciso estar preparado para pegar suas armas e lutar, como gladiadores em uma arena. A luta não é só física, mas também psicológica (já presenciei pessoas usarem palavras de baixo calão a fim de desestabilizar o…

Em nome do pai

Folheou o jornal em busca das últimas do futebol e se deparou com a nota, quase imperceptível no canto da página. Um grupo de pesquisadores canadenses descobriu que pessoas bilíngues teriam menor possibilidade de sofrer de Alzheimer. Pensou no pai doente, na degeneração da sua memória, na linguagem rareando, justo o pai, exímio contador de histórias. O pai mais quieto, irritado, confuso, esquecido. Demente.
Não gostava desses adjetivos, lembrava-se do pai ainda robusto e bonachão, que mesmo velho paquerava as caixas do supermercado. Não queria se deparar com o ser semi-inerte sobre a cama, que vez em quando outra se levantava para fazer as necessidades no chão do banheiro, o pai que não o reconhecia quando ia visitá-lo. Queria os olhos do pai cheios de vida quando comprava salames frescos na quitanda ou quando encontrava o biscoito que os filhos gostavam. Renegava o olhar perdido do pai enquanto lhe fazia a barba, tentando em vão conversar sobre coisas banais.
Em toda visita acabava …

Escrevi num dia de muita chuva. E fez sentido.

Eu não aguento mais tanto choro, tanto respingo, tanta água rolando, não aguento mais São Pedro trabalhando, não aguento mais umidade, tanta falta de secura, me satura, não quero mais esse pranto copioso, esse estado pluvioso, não suporto mais o cinza da cidade, navegar mais nesse rio, não aguento essa ansiedade, esse vidro que embaça, essa roupa que não seca, essa garoa ilimitada, não aguento o pé molhado, a poeira que não larga, misturada com a água, vira lama, vira drama, suja todo meu programa, não aguento desviar da poça, do carro que passa, pela poça, eu fico é com essa fossa, dessa lira paulistana, essa ira dessa água, não aguento mais esse rio, esse frio, esse guarda-chuva que extravio, não guento, quero logo um unguento, para esse tempo nunca seco, não aguento sinal fechado, essa saudade, vontade de estar seca, essa enxaqueca, da vida úmida, esse rolar de lágrimas celestial, que me embala e me diz: quero dia de sol, não de sal.

Leitores anônimos

Eu tenho blog há uns 6 anos. Existia uma onda desses diários virtuais e eu decidi começar o meu sem ter muita ideia de como o preencheria. Quando leio meus textos antigos nem me reconheço. No começo ficava bem, bem, bem tímida se alguém queria saber o endereço. Não divulgava nunca. Hoje eu divulgo, espalho links pelos ventos. Perdi a timidez de ter o cotidiano lido, ganhei a cara de pau de espalhar meus segredos por aí. Dia desses, conversando com um colega de profissão lá do Paraná que eu não via há tempos, soube que ele lê meus textos. Um amigo de infância do meu irmão disse a mesma coisa. Minha mãe contou que uma prima distante lê também e, por ironia, eu quase não sei mais nada sobre ela. Por isso me fico me perguntando quantos passam por aqui uma, duas, cinco vezes ou frequentemente e eu nunca saberei. E isso é muito bom. Eu gosto bastante da ideia de ter gente querida passando por aqui, porque a maioria diz que é uma forma de saber da minha vida. Parece que eu dei mesmo ao blo…

O homem-placa

Trabalho por aí, em qualquer sinal, em muitas das esquinas por onde você passa. Certamente você já deve ter passado por mim, leu minha placa, mas não deu importância para o meu rosto. Eu mesmo só vejo minha cara nos retrovisores dos carros parados. Minha cara a tapa é suada e queimada de sol. Esse sol quente que me queima é o mesmo que doura as peles de quem desfruta das piscinas dos condomínios que eu divulgo. Condomínios. É isso que eu vendo. Sei de ouvir falar. Não sei ler. Carrego uma propaganda indecifrável, ilegível, pelo menos pra mim. Como aquelas pessoas que vestem uma camiseta, mas desconhecem o significado da sua mensagem. Eu só sei ler a cara da fome de meus filhos e é para eles que eu seguro. Seguro a onda, seguro o rojão, seguro a placa. Para vender, cada dia mais, mais apartamentos luxuosos, de 2 ou 3 dormitórios, mais apartamentos de 240 metros quadrados, mais de 10 vezes mais que o tamanho do meu puxado. É puxado, sim. Mas sabe que eu penso que todos somos um pouco h…

Minhas paredes

Estou participando do concurso cultural + amor em SP, promovido pelo site Catraca Livre. Inspirados na letra de Criolo, que diz que não existe amor na cidade, eles querem estimular a criação de receitas provando o amor em São Paulo. Concorro com o texto Paredes, com a arte é do Igor Villa. As cinco obras mais votadas, juntamente com outras 15 escolhidas pelo júri, serão expostas no MIS (Museu da Imagem e do Som). Se quiser, vote lá! :)
http://itsnoon.net/criacoes/19510/descricao/
Ah, tem que se cadastrar, mas dá pra fazer isso via Facebook.

Allontanarsi dalla linea gialla

Tenho visto muita gente surtada. Na rua, no metrô, em qualquer esquina trombo com elas. Tem vezes que me assusto com seus berros, tem vezes que até consigo achar graça. Dia desses na hora do almoço passei por um restaurante e vi uma mulher: barriga descoberta pela blusa um pouco curta, cabelos desalinhados, enchia de cerveja seu copo. Até aí tudo bem, no que a ouvi: Bill Gates nunca pediu minha opinião pra nada, pra nada! Lembrei-me esses dias de uma frase que eu ouvia sempre na Itália, quando ia desbravar outras cidades por linhas ferroviárias. Enquanto esperava o trem, a voz, a voz misteriosa e robótica de todas as estações, dizia assim: allontanarsi dalla linea gialla. E essa frase sempre me calava um pouco, me fazendo pensar mais do que devia nela. Difícil entender, já que eu vivo no metrô de São Paulo para cima e para baixo e sempre escuto sobre a linha amarela, que é a sua segurança, só a ultrapasse depois de o trem abrir as portas, e isso nunca me perturbou. Mas percebi que a…

Antianestesia

Gosto de colocar meus óculos escuros e manter meu anonimato. Mesmo quando não tem sol, visto meus óculos para encarar com sobriedade a multidão. Os óculos me mantêm invisível ante o amontoado, nesses dias em que não tenho coragem de encarar parte alguma. Os óculos me tornam imune às neuroses coletivas. Justo eu, que me incomodo tanto com o torpor diário das pessoas e seus fones de ouvido, gosto de me refugiar nos meus óculos escuros, que me dão a impressão de estar escondida, segura, secreta.

Gosto de me sentir perdida, sem saber para onde estou indo. Assusta-me a ideia de ser como um zumbi, vagando sem perceber por um trajeto estabelecido no inconsciente. Gosto de parar de repente em um ponto e me perguntar onde estou e para onde estou indo. E por que estou indo. Gosto de interromper meu caminhar e mudar os caminhos, de ver outras paisagens para não ser surpreendida quando a mudança vier e eu estar anestesiada demais para senti-la. Gosto de me cansar de ser levada pela procissão de …

Receitas

O amor - pensou ela enquanto enfileirava os pedaços de peixe sobre as batatas pré-cozidas - é igual fazer comida. Eu, por exemplo - continuava pensando, ao chuviscar de sal o peixe - nunca fiz peixe assado, mas estou aqui testando a receita da tia da barraca da feira, sem saber se vai dar certo. Se errar - ela refletia - eu mesma me darei um desconto, afinal, é difícil acertar de primeira. Na segunda a gente lembra do que fez na primeira receita, repete o que acertou, dosa melhor o que errou e assim - concluía ela, picando a cebola em rodelas e os pedaços de tomate para cobrir os filés - vamos aperfeiçoando e, quem sabe, entendendo do riscado. Pode ser que eu precise ligar para a mãe - refletia, picando o cheiro verde e terminando o colorido na travessa – pedindo maiores detalhes sobre em que momento deve entrar o papel alumínio, mas, mesmo com conselhos de um ou de outro, quem está com a mão na massa sou eu e serei eu a colher os louros ou amargar a derrota do prato mal feito. E ass…

Paradoxo da mulher moderna

É quando você decide comprar um pacote de tratamento estético para eliminar a barriga porque o site de compras coletivas está com uma promoção super em conta, que pode ser parcelada mil vezes no cartão. Mas como nem tudo é um abdômen durinho você só consegue marcar a primeira sessão para 6 meses depois e no seu horário de almoço, porque você trabalha 9 horas por dia e depois do expediente a clínica já fechou. Aí você avisa no trabalho que vai dar uma pequena atrasadinha, sai botando os bofes pra fora, se joga no metrô, cai no lado errado da Paulista, acha o prédio, faz cadastro na portaria, entra, preenche uma ficha interminável, e quando é finalmente atendida passa 40 minutos sentindo os “valorosos” efeitos daqueles aparelhinhos de ET no seu corpo. Veste-se correndo, sai esgualepando-se Paulista afora, chega na rua do trabalho ultrapassando mais de 20 minutos do seu horário de almoço e pra não ficar com a barriga vazia e pra não atrasar mais meia hora engole um salgado, enquanto man…

A moeda

Tenho um senso de justiça que às vezes me perturba de tão chato. Um senso que se ofende quando vê coisa errada acontecendo, que se incomoda também quando o alvo da injustiça sou eu. Nesse caso ele se incomoda tanto que teima até em me fazer chorar. Descobri que meu senso de justiça está impresso em um lado da minha moeda. Sim, eu tenho uma moeda, com a qual eu faço minhas negociações, com a qual eu pago meus honorários, com a qual eu recebo o que tenho de crédito mundão afora. Do outro lado da moeda – e como tudo na vida o outro lado costuma ser inverso – está a leveza, a leveza da qual eu quase nunca consigo lançar mão. Deve ser coisa da idade. Dias desses fui à médica e ela me perguntou como anda meu grau de estresse. Pergunta estranha para quem mora em São Paulo, cidade das pessoas e suas cabeças de panela de pressão. Respondi que me estresso muito, que brigo quando as coisas me incomodam a ponto de o sangue esquentar o rosto. Ela disse que “também era assim”. Minha chefe já me co…

Coragem, o cão covarde (Diangela Menegazzi)

Hoje eu li um texto lindo, de uma amiga igualmente linda que não tinha onde publicar seu texto. Ofereci o espaço, o texto realmente vale a pena. É a primeira participação especial no blog e eu fico contente de ser ela. Queria escrever mais, mas hoje o texto não é meu. Com vocês, Diangela Menegazzi.
***

Coragem, o cão covarde

Cresci dormindo no mesmo quarto que minha irmã, um ano mais velha que eu. Dormíamos num beliche. Ela em cima, porque sobrava valentia. Teve que aceitar dormir com a luz acesa por vários anos, eu tinha medo do escuro. Era ela que me defendia dos monstros imaginários e amenizava a intensidade dos meus soluços quando estávamos longe da mãe. Tinha medo de fantasmas, e do cara chamado coisa ruim, achava que algum dia seria assombrada pelo garfinho dele. Apesar disso, tinha valentia pra brigar com crianças na rua e enfrentar todos os meus primos. Em filmes de terror e suspense, sempre passava a maior parte do tempo com olhos e ouvidos fechados, mas anos mais tarde me aut…

μάθημα

- Eu estou certa. - Eu estou certo. Acho incrível como não podemos perceber que a vida não é matemática. Dois resultados diferentes podem estar certos. Se eles estão certos quer dizer que simbolizam, para cada pessoa, o seu resultado particular. E de particularidade em particularidade, vamos somando as diferenças. Lindo, não? Na minha prova real não deu certo. Tentei somar e ficou alguma coisa faltando, alguma coisa sobrando. Uma particularidade ao fundo gritando: espera aí, que eu não fui incluída nessa somatória! Então vem! Não vou, não vou porque não concordo. Não sou boa em Matemática. Ela é perfeita demais, portanto complexa demais e eu resido numa abstração simplificada. Está tudo ao avesso, hoje te odeio, amanhã te sinto amor, não suporto mais, vem para cá, quero ir embora, acho lindo isso de ficar. Para mim essa roda viva é compreensível. Raciocínio lógico não. O que é mais absurdo nessa coisa toda é que nesse gira-girar eu compreendi algo. Uma epifania, não tem isso em mat…

Paredes

São Paulo tem 4 paredes                 que abrigam várias chaves de uma mesma casa                 que abrigam gritos e portas batidas                 que abrigam um sofá cama na sala                 que abrigam caixas de pizzas vazias.
São Paulo tem 4 paredes                 que abrigam uma janela bem fechada                 que abrigam um closet lotado     que abrigam um vendaval de papelada     que abrigam ares condicionados
São Paulo tem 4 paredes                 que abrigam seres claustrofóbicos                 que abrigam olhares para o lado                 que abrigam toneladas de tóxicos                          que abrigam um trânsito sufocado
São Paulo tem 4 paredes                 que brigam com filhos aninhados                 que brigam com tenros abraços                 que brigam com machucados curados                 que brigam com favores desinteressados

Descoberta

Descobri que há uma fragilidade em estar gripada que me fortalece. Há alguma coisa na voz fanhosa, nos espirros constantes, na dor no corpo que me faz pequena, carente de colo, de atenção. Há alguma coisa no fato de estar gripada, nariz cheio, olhos inchados e noites mal dormidas, que me lembra da minha pequenez, de que não sou aquela fortaleza que pretendo – ou preciso – ser. Essa provocação do meu corpo comigo me lembra que minha autossuficiência conflita com a menina que pede arrego.
E não há coristina que cure manha, não há amor que resista a tanto dengo.
E quando eu insisto em dizer que estou quente, mesmo não tendo frio, mesmo nunca tendo febre, ele pega o termômetro e no caminho desliga o ventilador, indispensável em suas noites de verão.
E nem pede para que eu me cubra, aguentando o vento.
E se derrete feito vitamina C efervescente me fazendo cafuné.

É culpa das bugigangas

Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da min…

Ton soleil, ta braise

Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante. Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca est…

Desvairada

Sempre imaginei que a felicidade estaria em uma cidade sem fim. Sem tédio, sem rotina. Uma cidade inteira a ser desvendada, um sem fim de descobertas. Não sei ao certo a data que comemoro meu aniversário em São Paulo, sei que foi mais ou menos nessa época, há um ano, que cheguei assim, com a mala mais pesada na mão e a vontade de aprender os mistérios da megalópole mais pungente que poderia sonhar em morar. Daqui a uma semana, talvez por coincidência, São Paulo faz 458 anos e já me deu mais motivos que sua quantidade de velas no bolo para ficar. Vez ou outra descubro o cheiro de São Paulo, aquele odor que nos faz retomar de imediato alguma coisa. Um cheiro de terra molhada que me anuncia a chuva, o perfume forte e doce de uma prostituta que um dia entrevistei num posto de gasolina e que ora sinto quando uma mulher passa por mim, o sabonete de mel que meu pai trazia do Paraguai. Não. O aroma que me impregna em São Paulo é o do pingado e o do pão na chapa. Das muitas padarias por onde pa…

As maçãs, o ponto azul e nossas formas de pensar

No mundo existem 7.500 variedades de maçã. Aprendi na lâmina da bandeja do McDonald's. Aliás, aprendi hoje que aqueles papéis se chamam lâminas de bandeja. O fato é que eu adoro maçã. A gala e a fuji, bastante. Da argentina eu não gosto. É, aquela mesmo, pela qual o povo paga caro. Para mim a casca tem gosto de papel, artificial.
Pensando nas maçãs eu pensei em tudo que existe aos montes por aí e a gente desconhece. No mundo em que nos inscrevemos, circundamos uma linha em volta e, assim, no que tratamos de conhecer dentro desse espaço. Limitado, claro. Sem negativismo, não somos nômades nem anormais para conhecermos o mundo inteiro, para nos jogarmos numa aventura sem precedentes para devorar tudo. Além do que, quanto mais nos distanciamos em busca do outro, nos privamos de conhecer (ou conhecer mais) o que está bem debaixo do nosso nariz. Cada escolha uma renúncia, esse eterno paradoxo.
Embora seja impossível conhecer o mundo todo, tenho a abafada ânsia de conhecer o máximo que…

Pouco ortodoxo

Disciplinada está longe de ser minha característica número um. Geralmente sou esforçada e determinada quando o objetivo é em curto prazo e possível, assim, ao alcance das mãos. Sou péssima com aquilo que exige de mim uma dose de disciplina permanente. Por isso nunca consegui passar o filtro solar no rosto conforme recomendado, vivo num efeito sanfona e contrario todos os conselhos de revista de saúde, moda e beleza.
Foi só há um tempo que descobri como contornar isso. Pode parecer pouco ortodoxo, mas transformei médicos e afins em carrascos mentais. Tortura psicológica? Talvez. O fato é que naquele momento em que eu sobressalto de um semicochilo na cama e digo para mim mesma: "ah, só hoje eu não vou limpar o rosto antes de dormir, não fará diferença", vem a minha mente a sobrancelha arqueada da minha dermatologista como a me questionar: "tem certeza?". Levanto e vou, afinal, os produtos custaram uma fortuna. O mesmo com a preguiça esporádica de passar o fio dental,…

A cobra grande

Vi a jiboia pelo vidro. Ela estava quieta, me olhava de um jeito parecendo sorrir. Eu estava dentro da casa, ela fora, num jardim, ou matagal. Tive medo dela, passava pelo corredor onde estava a janela sempre correndo. Falava para os outros com temor, atordoada. Ela nunca vai sair dali, nunca vai entrar aqui, me diziam. Uma hora espiei e parecia não acreditar. Ela estava entrando por uma fresta, rastejando-se para dentro. Olhei nos olhos dele com aquele pânico misturado com: e agora, nego? Pois é, ela entrou. Me vi caída no chão e enrolada por ela, sem poder fazer nada. Sozinha, imóvel, conivente. Nem pânico tinha mais. Era só certeza. Certeza que ela tinha vencido. A cobra, com os olhos grandes e gélidos, olhando para mim com expressão fria enquanto me enrolava. Enquanto me vencia. Acordei sobressaltada, enquanto ele dormia tranquilamente.
Ela não vai entrar aqui, você tem razão. Meu medo não irá me vencer e, enquanto ele for pequeno, continuarei agindo tranquilamente, como os outros…