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Soledad Maria

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Quantas caixas de supermercado nesse exato momento
Estarão registrando comida congelada, uma coca sem gelo
Um pacote de arroz em saquinhos, um sonho de valsa
E pensando: pobre coitado, ser sozinho é sofrimento
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Ora

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Eu não quero buscar em mim o que te falta
Porque nessa procura desenfreada perdi o prumo
De ser assim e de afogar meu karma
Somos dois incompletos e incompreendidos
Mas assusta-me você ter esse raciocínio certo
Ser coerente no que acredita, no que sente
Pois dá na mesma medida que exige
Pois quer ser visto no que não mente

Sua coerência me assusta porque não a quero mais
Como absoluta, tenho cá dentro uma verdade
Abrupta, que surta, insulta a conclusão dos finais
De ser sempre esta insana, eterna imbasta
Com a lista de defeitos vasta, com a de desejos curta
Assume as culpas, as minhas, as tuas
Cede as rédeas, rege o rastejo, se desgasta
Se culpa, se mata e não basta

Eu quero é transbordar, ultrapassar a borda
Passar por cima do que basta, de toda a bosta
Fluir em primeira pessoa, singular ou plural
Ser a mesma certeza quando dorme e quando acorda
Quero saber que tenho você ali, ao lado
Ao lado, disposto, talvez mudado
Teu orgulho me fere, me envenena
Tua boca vocifera, sou ora convicta ora pequena

Grande é o rio que observo, turbulento
Observo enquanto o encho com meu desalento
Procuro uma resposta, e a quero agora
Mas a água é turva e grossa, me suja
Quero a paz de um rio claro, sereno
Para deitar-me na beira e ver-me em seu reflexo
Sou eu ali, mas vista de fora, de longe, sem nome
Sou eu aqui neste silêncio e a sua voz que some
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Velinhas

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Se eu não te sacaneio, você não me sacaneia. Poderia ser simples assim.
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importa?

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e no final, a pessoa que mais importa está te olhando pelo espelho. e quando altruísmo rimar com egoísmo e quando acariciar o outro é gesto corriqueiro e manter palavra é sinal de coisa nenhuma... é quando companhia se resume a um olhar no espelho. um olhar de respeito, por mais que reflexo, é o que importa.


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Não sei mais ralar joelhos

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Esses dias eu caí na rua feito fruta madura. Derrapei na sandalinha sem salto e fui direto pro chão. De primeira machuquei a mão, um tiquinho do dedão e o joelho. Esse sim, feio. Arranquei a tampa do coitado. Como sempre me ocorre nessas situações, fingi que estava ótima e saí andando o mais natural possível. Ainda ouvi um: “tudo bem, moça?”, respondi meio no sussurro e tratei de sumir. O sangue logo coagulou, quando deu parei para lavar com água e sabão e comprei uns curativos. Achava que estava tudo bem, até o danado do ferimento começar a cicatrizar. Coça, dói, arde, tem uma área em torno da ferida que fica quente, igual uma febrezinha. Hoje nasceu uma pelinha por cima feia, molenga. Sinto dor pra subir escada, quando paro em uma determinada posição e saio andando, dói pra valer, como se a pele estivesse sendo repuxada. Lateja sempre. Não entendo como pode incomodar tanto. Poxa, eu fui uma criança ativa, ativamente arteira e ralei inúmeras vezes meus joelhinhos. Não lembro desse processo, não lembro dessa chatice. Pra mim, ralado de joelho virava casquinha quase que instantaneamente, casquinha que eu insistia em tirar, para desespero da minha mãe, que não queria me ver com marcas. Eu não sei o que mudou. Se meu organismo pré-envelhecido está demorando mais para cicatrizar a ferida ou se minha memória está me enganando sobre meus tempos (e prazos) de criança. Mas dizem que machucados infantis curam mais rápido mesmo. Isso explica muita coisa. A raiva dos coleguinhas durava o tempo do recreio, um pouco menos. A mãe deixava a gente de castigo por um dia, uma semana se a arte tivesse sido grande de verdade. As preocupações não duravam, não existia o para sempre. Semana de prova tinha no próprio nome assinalado o tempo certo para acabar. Com a prova e com nosso martírio. Sendo assim, exijo de volta meu corpo, minha capacidade regenerativa, minhas raivas com horas contadas, minhas preocupações com fim assinalado. Quero meus joelhos com casquinha. Logo!
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Fosse minha

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Eu não sou daqui, eu não sou aqui. Eu estou aqui. Há uma sutil diferença entre essas três sentenças. O paraíso de alguns, a correia nostálgica de outros, para mim é apenas a parada na minha rota. O tempo de rever quem fui, mesmo sendo tão difícil de me reconhecer nas ruas reformuladas, nos pontos de referência que conflitam com meus retratos.
O calçadão, batizado assim pelas antigas pedras brancas e pretas dispostas lado a lado, virou uma rua qualquer. Pergunto na loja de botões onde encontro uma presilha, ela me aponta e pergunto: “no calçadão?”, denunciando minha idade. Ninguém vai colher todas as lembranças que deixei impressas ali, nas pedras que já não contam mais histórias. Alguns anjos me roubaram o coração nesses e em outros bosques chamados solidão.
Mas, ao contrário do que se poderia supor, não são velhas as minhas lembranças e novos os caminhos que aqui traço como estrangeira. São os portões de ferro de agora que desafiam os ardilosos feitiços do tempo. É a pintura recente da porta de uma casa vizinha que agora mesmo está carcomida. São as tinturas descascadas, os forros vencidos, os vidros estilhaçados, a vida desgasta. A cidade, toda ela, envelhece em mim.
Mesmo jovem envelheço pouco a pouco no meio desse punhado de lembranças corroídas. Pulo meses ao voltar e sinto o peso dos saltos, a cada salto sou mais longínqua, pisco um olho e a cidade já envelheceu de novo. É o reflexo do meu passamento. Jovem o céu era um pouco mais azulado e as paredes mais coloridas. (o mesmo céu e as mesmas paredes que me empurravam pra longe pelo seu desbotamento). Hoje surpreendo a retina com esse mesmês estranho da paisagem apática, mas mesmo amarelada, por ser natal, me celebra, me prende, me atiça.
A paisagem que me esqueceu me convida sutilmente para ser dela, para sê-la. Não, arre! Envelheceu. Passou sua hora. Inquietas as janelas míopes que sempre carrego me pedem vigor novo. O nariz reclama, é ele que entope com o pó. Do pó, este pó estrangulador de negritude, não sairei, por enquanto. Para o pó, este pó duro e carregado do sotaque vencido da minha infância, não voltarei. Não volto. Quem me diz se não volto. Quiçá, chi sa?

“Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem”
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Hoje levei um cuspe na cara

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É sério. Estava andando na rua, sozinha, às duas da tarde e levei um cuspe na cara. Tão engraçado como deve ser para você ler isso foi assustador para mim passar por isso. Surreal e nojento para leitor e autor. Aconteceu muito rápido. Estava passando por uma rua simpática e florida e um cidadão veio de encontro a mim do outro lado da calçada. Dei um passo para o lado no meio da caminhada e ele deu para o mesmo lado. Foi quase perto que notei que não ia escapar. De um ataque, um assalto, tome aqui meu celular seu moço, meus cartões, meu colar de capim dourado. De um estupro, assim, tão de dia, como que pode. Não. Foi um cuspe. Ele não me encostou um dedo, não me bateu, nem empurrou, não me arranhou. Me cuspiu, com os lábios, não um cuspe escarrado, nada de catarro. Mas choveu saliva em mim. É isso, foi um cuspe chuva.
Atônita, como estou até agora, continuo embasbacada com o descaramento do sujeito que passou por mim e me lançou a cusparada. Olhei para trás e ele andava tranquilamente, como se nada tivesse feito. “Ridículo”, foi só o que consegui berrar à distância. Estava tão atordoada que nem todas as sílabas saíram. Lembrei da minha mãe dizendo para mim e para meu irmão crianças que cuspir na cara era a pior falta de respeito com uma pessoa. Judas cuspiu na cara de Jesus, ela falou.
Confesso, eu queria minha mãe comigo ali. Muito embora ela fosse rir de mim no início, como você deve estar fazendo, a minha vontade era mesmo alguém ensinar àquele sujeito bons modos, os mesmos que aprendi quando criança. Eu, que nunca cuspi na cara de ninguém, fui ser cuspida, fui receber esse emblemático sinal de desprezo de um desconhecido.
O Rubem Alves certa vez filosofou sobre o cuspe, representativamente masculino, vide à clássica semelhança com a ejaculação. Meninos cospem desde crianças pelas ruas. Quando homens desprezam seus jatos de saliva onde querem e quando tem vontade. É viril. Às meninas cabe o olhar de nojinho. Vira-se a cara. Eu não tive tempo de virar a minha e recebi na cara o desprezo, a galhofa, o desconto ou qualquer outra coisa desse moço.
Seria um doido varrido, vagando pelas ruas? Seria eu a cara (sou sempre a de alguém, nunca a minha) de uma ex-namorada que o trocou por outro? Será que ele não foi com minha cara? Ou achou que eu parecia a Geni, boa de cuspir? 
Tenho uma teoria que esse mundo está cheio de bandidos de ocasião. Não são assaltantes, estupradores, agressores em tempo integral. Atacam quando percebem uma oportunidade. E eu sou uma típica oportunidade. Menina, sozinha, quase sempre distraída. Pensei nessa dura condição de ser mulher, vulnerável sim, não venha me dizer que não. Mulheres são atacadas com frequência muito maior, têm mais medo, pagam mais para morar em lugares potencialmente seguros, sofrem mais assédio, porque são vítimas em liquidação.
Eu levei um cuspe, poderia ter perdido muito mais que uma parcela de dignidade. Mesmo depois de lavar o rosto, mesmo depois do banho, aquele cuspe ainda está em mim. Entender não entendi, mas raiva não guardei. Tenho é dó. Dó de quem não teve mãe para ensinar o que é falta de respeito.
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Perguntador

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- Pai, o que é imensidão?
O garoto esperava a resposta, a sobrancelha arqueada, a pose de quem questiona algo extremamente necessário para voltar os olhos ao livro que segurava em mãos.
O pai cogitou abrir a boca para falar de grandeza, de mar, quiçá de um campo sem fim, de tudo aquilo que não se vê partida e chegada, daquilo diante do qual nos calamos, como forma de reverenciar o que nos comove em nossa pequenez.
O menino desafiou o silêncio com uma pigarreada, a resposta era pertinente demais para continuar sua leitura de menino de 8 anos, ávido leitor, ávido perguntador, ávido descobridor de palavras.
Viu o filho esperando sua resposta, a sobrancelha ainda mais arqueada, os lábios de um lado para o outro, um tique nervoso adquirido desde a mais tenra infância, coisa de quem anseia por respostas, o tempo todo. A franja quase em cima dos olhos, pequenininhos, que quando curiosos se fechavam ainda mais. O filho um pouco impaciente, talvez até meio triste, um ar melancólico de quem desconfia da onisciência do pai.
Quis falar do imenso. Conseguiu dizer apenas:
- ...é o que eu sinto por você.
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Como é que dói ser demais, ser até

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Apenas um bocado de vontade. Vontade de te satisfazer. Desde o primeiro concurso de redação. As viagens, a busca pelo mundo, não sem uma foto junto, pra mostrar que fiz. Tudo que fiz é você ali. Sua imagem analisando se está bom. Os livros devorados angustiadamente, as palavras decoradas milimetricamente. As tentativas frustradas de emagrecer seguidas de ataques de fúria à comida que eu sorvia desesperada. Mente. Choro de acompanhamento. Engulo o título nunca obtido de primeira da sala. A mesma garota gorda e desajeitada, que não é bem resolvida o suficiente pra lidar com os apelidinhos da amiguinha má. Sim, eu sou essa gorda baleia e sendo assim, obesa e palerma, eu choro cá. Não, tenho que virar a mão, fazer sofrer. Sou só eu que sofro. Essa menina que permite que os outros a definam ainda existe. E a incapacidade de se fazer definir é a única coisa forte nessa personalidade quebradiça e infantiloide. Não importa quantos portos, quantas fotos, quantos concursos. A maior juíza ainda não deu seu veredicto favorável. O concurso ainda não terminou. Nunca o suficiente bonita, magra, inteligente, esperta, bem resolvida. Não está, nunca estará, nunca esteve. Decepcionei, nasci torta, gorda, descabidamente chorona e até impulsivamente tapada. Nasci do choro de um morto, não à toa nasci sem parar. Chorei sem nascer. Entrego a você o bastão de me dizer quem sou. Sou, mas nunca até, até porque nunca terei atendida a minha expectativa de um pouquinho de amor e não uma atenção frígida, fria e seca, bruta. Choro feito criancinha sem afago. Se essa é a imagem que todos têm da sua, da minha eu não conto, sou órfã desse amor deslavado. Pra mim só sobra a repulsa de ter nascido desajeitada, feia, estúpida e gorda. Não sou nada disso, mas me sobra a vontade de expulsar de mim esse ser que te agride. E não querendo ser assim sendo. A que você diz ainda, com os olhos e com os brados do desprezo, que sou. Só. Sozinha, definha. Aporrinha que pode ser feliz, a porrinha pode ser só bem resolvida, porque assim é um problema a menos. Sou só essa maltrapilha chupando o dedo e pedindo a atenção em forma de afago e palavra bonita e presença e visita e orgulho. Restou pra mim a distância porque é mais fácil manter ilusão de longe. De longe sou esse oásis que você quis pra mim e que nunca contribuiu pra fortalecer. De perto sou só eu etérea, galgando na areia movediça ser a mulher que queria ser e não consigo, porque ainda busco um tantinho de terra firme de amor e força. Pra mim restou a pressa, o desgosto, o pelo menos já que não basta. Tão feia, pelo menos tem os cabelos compridos que não embaraçam. Podia ser mais esperta, mais magra, mais bocuda. Podia saber andar de bicicleta. Ou podia ter e saber mexer numa arma, igual a essa menina que se matou aqui perto. Um problema a menos.
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Pão quentinho

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Se me pedissem para resumir o que é viver em São Paulo, eu exemplificaria com o que aconteceu hoje comigo no mercado. Estava na fila da padaria quando uma moça perguntou sobre o pão francês. A balconista disse que ainda tinha alguns, mas que novos sairiam em 3 minutos. A moça foi comprar outras coisas e voltaria depois. Decidi esperar.
Fiquei observando o relógio no forno piscar em ordem decrescente. Em três minutos dá pra se pensar em muita coisa. Enquanto esperava meu pão quentinho, um rapaz pediu alguns pães. Ainda restavam uns na cesta. Eu toquei em seu braço, apontando para o forno: “em dois minutos e meio tem pão quentinho...” Ele respondeu com um semissussurro e uma risadinha meio “vou sair de perto dessa louca”, enquanto pegava seu pacote de pães passados.
Restou-me refletir por que alguém não se demoraria por pouco mais de dois minutos em troca da felicidade de comer um pão que sai fumacinha. São Paulo é isso. Não se tem tempo para esperar dois minutos, mesmo que esses dois minutos simbolizem um pequeno prazer adicional. As pessoas correm, as pessoas correm atropeladas e esbaforidas, sempre com pressa para dentro de suas mesmas paredes. E um toque e um aviso de um estranho é algo que escapa, obviamente, às quatro paredes, o que resulta em certo espanto.
Pode ser, entretanto, que o pão quentinho não seja uma unanimidade e sim apenas meu pequeno prazer. O meu comercial de margarina, sabe? Aquele deleite um pouco inconfessável, porque há tanta coisa pra se desejar, coisas materiais de encher os olhos e a boca e os bolsos e meu projeto de felicidade se resume a um pão quentinho. “Qual é seu último desejo? Um pão recém saído do forno”. Sou eu criança e aquela fornada saindo, aquele pão caseiro, de vó, de tia, o cenário de uma fazenda, se não me engano. A manteiga derretendo, a casquinha crocante, o desmanche na boca. Sou esse pão quentinho, é ele essa minha lembrança.
Com meu pequeno tesouro em mãos a caminho do caixa, entendo logo porque São Paulo não espera dois minutos pelo seu pão quentinho. Entre o ter e o desfrutar do pão são muitos e muitos outros minutos na fila do supermercado, outros muitos no trânsito, mais alguns no elevador e, no final, o pão nem quentinho está mais. Mas não importa. Carrego meu pequeno trunfo nos braços pelas gôndolas e dispenso a cestinha para deixá-lo junto ao corpo. Prezar por ele, pelo pão quentinho, talvez seja uma das minhas resistências de garota interiorana, das quais me dou ao luxo na selva de pedra.
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Dos males o metrô

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Costumo dizer que Deus deu a dignidade aos homens mas cortou o benefício para quem pega a linha vermelha do metrô. Não acredito em ninguém que me diga ser civilizado pegando metrô naquele fluxo de gente, em dia de semana, horário de pico. Uma vez li que 3 milhões de pessoas se deslocam da Zona Leste para trabalhar e estudar todos os dias. Creio que 95% delas estão no metrô que pego toda manhã. É porque eu moro na última estação antes da Sé, onde desemboca tudo. Então, na minha estação chegam metrôs lotados de outras 11 estações - acredito que as mais badaladas em termos de transporte público.
A primeira vez que peguei (ou melhor, tentei pegar) o metrô na vermelha, entendi o que as pessoas querem dizer com: barbárie. Depois do 5º metrô passar e você não entrar, você espuma. É preciso estar preparado para pegar suas armas e lutar, como gladiadores em uma arena. A luta não é só física, mas também psicológica (já presenciei pessoas usarem palavras de baixo calão a fim de desestabilizar o concorrente). Tenha consciência de que o inimigo pode ser qualquer um. A velhinha, o cara com muletas, a mulher que puxa uma perna. É apenas você contra o resto do mundo.
Ao escolher onde esperar seu vagão, geralmente você não está sozinho. Então, o segredo é estudar seus oponentes. Reza a lenda que quem chegou antes tem preferência. Esqueça. Todos são inimigos, bárbaros inimigos, então, golpes baixos são permitidos. Parada em frente ao vagão, estudo friamente o movimento alheio, enquanto espio de rabo de olho se em outro vagão sai um número consideravelmente de pessoas – o que raramente acontece, mas quando acontece, a ideia é se deslocar rapidamente para aquele local. Leia-se: correr esbaforido. É a sua hora. Não hesito em mostrar às pessoas que estou ali para vencer e entrarei naquele vagão a qualquer custo, mesmo com os olhares raivosos de quem já está ali dentro.
O esquema é muito simples. Sai um entra um. É praticamente impossível entrar em um metrô lá sem que ninguém saia, porque não há espaço suficiente para um mosquito. Por isso, a saída de alguém é sua única chance. Quem está lá dentro, porém, faz parte de uma verdadeira cúpula do mal, tentando maquiar a verdade de que há lugar para um ser vivo e assim relaxa, diminuindo o espaço. Ignore. Seu lugar ao sol, ou melhor, dentro do vagão, é conquistado com muito suor, persistência e cotovelos.
Já vi muita gente surtar esperando o metrô. Num dia tenso, em que passaram uns 12 trens e eu não entrava em nenhum, vi uma menina parada em frente ao vagão do lado se jogar pra dentro. Acontece que lá havia um paredão de gente formado, não havia espaço para viv’alma. Foi meio que um bate-volta. Ela se jogou, deu de cara com as pessoas e voltou. Ninguém nem xingou, ficou meio estarrecido mesmo. No que ela grita: mas é o 4º metrô que passa e eu não entro! As pessoas (lembro-me particularmente de uma senhora) a fitavam com cara de: eeee? enquanto a porta se fechava. Tadinha. Já aconteceu comigo de me apegar a essa tenacidade. Pensei: “entro nesse e ninguém me impedirá!”. Às vezes dá certo.
É que pegar metrô na linha vermelha, assim como a vida, é uma questão de sorte. Já fiquei parada em frente a um mesmo vagão do qual não saía ninguém por 5 vezes, mas insisti nele porque pressenti que ia dar certo, tal qual um apostador viciado que persevera no mesmo cavalo velho. Já consegui entrar de primeira, mas ao invés de me deixar feliz, isso me lembra de que a vida é redonda e que na próxima estação vou me ferrar.
Como disse, moro apenas a uma estação da Sé, portanto, não fico mais de 5 minutos no sufoco. Mas é nesse caminho que está a maior parte da perda da dignidade que mencionei antes. Não se pode ligar se relam em você, porque as pessoas não simplesmente se relam de propósito, elas se transformam num bloco só. Mesmo se um cara for um tarado pervertido, creio que ele não consegue fazer nada nesse trecho. Não há espaço para locomoção. Uma vez estava mandando mensagem no celular quando o trem chegou e fiz menção de continuar escrevendo dentro dele, no que um senhor me olha estremecido. Nenhum movimento, tal qual como erguer um braço ou coçar o nariz, é permitido, pois isso acarretará em uma perda de espaço para o companheiro ao lado. Que caia o nariz de tanto coçar.
Bom, entrar e permanecer são grandes desafios, mas sair é outro capítulo à parte. Basicamente porque entro em um lado do metrô e saio do outro. Como disse, na Sé desemboca tudo, então, querendo ou não você será expelido. No começo eu sentia medo de não conseguir descer, até porque a turba enfurecida está sempre a apenas uma porta de distância atrás de mim e, quando aquela porta abrir meu filho, será como abrir a portinha para o touro. Você é o toureiro infeliz, importante ressaltar. Com o tempo passei a me despreocupar. É só erguer as mãos, dar glória a Deus e esperar ser carregado. Como disse um cara que li, o metrô é tão lotado que se largar um morto em pé no meio da rapeize ele desce na Sé e faz até baldeação.
Mas por incrível que pareça, ao contrário de muita gente por aí, chegar na Sé é meu prazer diário, o meu “sobrevivi” de toda a manhã. Depois do caminho anterior, as estações que me separam do trabalho não são nada. E mesmo nessas condições bárbaras, prefiro o metrô ao ônibus, com o qual não me dou bem. Carro, se soubesse dirigir e tivesse um, também não seria minha primeira opção, porque ficar parada por horas não é comigo. Dos males o menor. Dentro do metrô a gente se aperta, a gente se rela, a gente se une forçadamente, mas a gente escuta histórias divertidíssimas de pessoas ao lado, faz amizades e colegagens, dá risada com algumas situações constrangedoras e, principalmente, torce para que não seja preciso esperar muito tempo o trem à frente. Porque, meu bem, o metrô anda tão lotado que estou vendo a hora de alguém ser ejetado lá de dentro.
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Em nome do pai

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Folheou o jornal em busca das últimas do futebol e se deparou com a nota, quase imperceptível no canto da página. Um grupo de pesquisadores canadenses descobriu que pessoas bilíngues teriam menor possibilidade de sofrer de Alzheimer. Pensou no pai doente, na degeneração da sua memória, na linguagem rareando, justo o pai, exímio contador de histórias. O pai mais quieto, irritado, confuso, esquecido. Demente.
Não gostava desses adjetivos, lembrava-se do pai ainda robusto e bonachão, que mesmo velho paquerava as caixas do supermercado. Não queria se deparar com o ser semi-inerte sobre a cama, que vez em quando outra se levantava para fazer as necessidades no chão do banheiro, o pai que não o reconhecia quando ia visitá-lo. Queria os olhos do pai cheios de vida quando comprava salames frescos na quitanda ou quando encontrava o biscoito que os filhos gostavam. Renegava o olhar perdido do pai enquanto lhe fazia a barba, tentando em vão conversar sobre coisas banais.
Em toda visita acabava na cozinha para fazer um café ou outro pretexto para chorar pelo pai que já não tinha, pelo pai degenerando-se em vida. Mas com o jornal em mãos pensou que teria o poder de fazer algo, algo cientificamente comprovado, ao invés de assistir à doença vencê-los covardemente.
Sabia, é claro que sabia, que não conseguiria transformar o pai em bilíngue, o pai que não arranhava uma palavra do idioma do Tio Sam. Tinha consciência de que ele já estava doente, portanto, o bilinguismo não surtiria qualquer efeito. Mas uma família inteira é capaz de adoecer junto com um paciente, a ponto de um fiozinho de esperança dominar todo raciocínio, desafiando qualquer lógica.
Comprou um quadro negro e algumas cartelas. Foi visitar o pai, ansioso. Falava bem inglês, oito anos de cursinho, todos por insistência da mãe, que pagava as mensalidades do próprio bolso. Entrou no quarto disposto a enfrentar o olhar vago e o saudou: “Good morning, Mr. Freitas! How are you?”.
O pai reagiu da mesma forma de sempre, naquele abismo insondável, recluso em pensamentos que ninguém ousaria supor quais eram. Decidido, o filho pegou a primeira cartela. “Apple... Lembra-se, pai, daquela vez que roubamos maçãs da cesta da cozinha, para testarmos nossa catapulta? A mãe ficou puta. Ia fazer compota, ou algo assim...” O pai olhava para a janela, soltou um grunhido. “Apple, can you say it, dad?” Silêncio.
This is a bear.” E riu. Lembrou-se do pai dizendo a ele que ursos de pelúcia eram coisas de menina, enquanto ele chorava abraçado ao Teddy. “Teddy is a bear. Do you remember, dad?”. Largou o urso e trancou-se no banheiro. O pai ria e só foi se preocupar quando o menino não saía por nada, nem quando mentiram que a irmãzinha tinha afogado o Teddy no tanque. Saiu horas depois do banheiro, olhos vermelhos, dizendo que queria um avião.
The plane is blue”, disse, apontando na cartela o aviãozinho com olhos e sobrancelha. Recordou-se do dia em que o pai viajou de avião pela primeira vez. Sentiu medo de perdê-lo. Desenhou a família em um papel e colocou no bolso do pai, que, quando viu, bateu no filho desesperadamente, dizendo que não queria despedidas, ninguém ia morrer. O filho chorou, sem entender a surra, sem entender que o desespero de quem batia era pelo medo da viagem, um homem feito, de barba e bigode, tremendo de medo, sem poder chorar.
O pai murmurou, apontou para o avião. O filho repetia: “the plane is blue, dad”, “the plane” e chorava, pensando na disparidade de alfabetizar o pai. Homem grande chorando, filho ensinando o pai a falar com cartelas infantis, uma pesquisa idiota que alimenta a fé de alguém ousar reconstruir, com algumas palavras em inglês, os neurotransmissores de um doente, alguém que não consegue mais lembrar, pensar, falar. “Idiota!” Jogou as cartelas no chão, esmurrou o quadro negro e ficou em pé olhando o jardim pela janela.
Viu a mãe, envelhecida mais de dez anos por causa da doença que não era dela. A mãe arrumando de forma maníaca o jardim com flores que o marido gostava, as flores que ele não conseguia mais apreciar. Olhava a cena e se via ali, em uma vida inteira tentando arrancar do pai a atenção. Primeiro criança, para merecer ser filho de um herói, depois adulto, buscando recuperar do ente querido a consciência, a reação qualquer que seja. O pai imponente prostrado pela rasteira do tempo, pela irreversibilidade do diagnóstico.
Tratou de ir à cozinha tomar alguma coisa quando ouviu o pai balbuciar: “é-pa-al”, olhando o desenho da maçã caído ao chão. O filho, como louco, beijou a testa do pai incansavelmente e chamou a mãe aos berros, perguntando pelas ferramentas. Construiriam, naquele dia, outra catapulta.
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Escrevi num dia de muita chuva. E fez sentido.

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Eu não aguento mais tanto choro, tanto respingo, tanta água rolando, não aguento mais São Pedro trabalhando, não aguento mais umidade, tanta falta de secura, me satura, não quero mais esse pranto copioso, esse estado pluvioso, não suporto mais o cinza da cidade, navegar mais nesse rio, não aguento essa ansiedade, esse vidro que embaça, essa roupa que não seca, essa garoa ilimitada, não aguento o pé molhado, a poeira que não larga, misturada com a água, vira lama, vira drama, suja todo meu programa, não aguento desviar da poça, do carro que passa, pela poça, eu fico é com essa fossa, dessa lira paulistana, essa ira dessa água, não aguento mais esse rio, esse frio, esse guarda-chuva que extravio, não guento, quero logo um unguento, para esse tempo nunca seco, não aguento sinal fechado, essa saudade, vontade de estar seca, essa enxaqueca, da vida úmida, esse rolar de lágrimas celestial, que me embala e me diz: quero dia de sol, não de sal. 
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Leitores anônimos

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Eu tenho blog há uns 6 anos. Existia uma onda desses diários virtuais e eu decidi começar o meu sem ter muita ideia de como o preencheria. Quando leio meus textos antigos nem me reconheço. No começo ficava bem, bem, bem tímida se alguém queria saber o endereço. Não divulgava nunca. Hoje eu divulgo, espalho links pelos ventos. Perdi a timidez de ter o cotidiano lido, ganhei a cara de pau de espalhar meus segredos por aí.
Dia desses, conversando com um colega de profissão lá do Paraná que eu não via há tempos, soube que ele lê meus textos. Um amigo de infância do meu irmão disse a mesma coisa. Minha mãe contou que uma prima distante lê também e, por ironia, eu quase não sei mais nada sobre ela. Por isso me fico me perguntando quantos passam por aqui uma, duas, cinco vezes ou frequentemente e eu nunca saberei. E isso é muito bom.
Eu gosto bastante da ideia de ter gente querida passando por aqui, porque a maioria diz que é uma forma de saber da minha vida. Parece que eu dei mesmo ao blog aquele sentido de diário, como quando ele foi criado. Mas soube de gente que nem me conhecia e lia, o que me deixa feliz também. Quem sou eu expressa em letras e vírgulas, para pessoas que nunca me viram, que só me conhecem assim? Queria saber qual é essa imagem, se ela condiz com a realidade.
Mas quem sou eu para falar disso... Sou também uma leitora anônima de vários sites e blogs de desconhecidos e me mantenho assim por não saber como me pronunciar. Também crio minhas imagens daqueles criadores de textos. Talvez eles nunca saibam qual é.
Então, eu só queria dizer que me deixa realmente emocionada, nesse tempo de escrivinhança, não são os números e estatísticas, nem qualquer elogio ou reconhecimento. O que realmente me honra é a possibilidade de fazer sentido, de ter uma visão compartilhada com um outro - conhecido ou não - em uma das esferas que mais gosto, a da escrita (foi mais ou menos o mesmo que disse no texto de abertura).

Obrigada por me proporcionarem isso.
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O homem-placa

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Trabalho por aí, em qualquer sinal, em muitas das esquinas por onde você passa. Certamente você já deve ter passado por mim, leu minha placa, mas não deu importância para o meu rosto. Eu mesmo só vejo minha cara nos retrovisores dos carros parados. Minha cara a tapa é suada e queimada de sol. Esse sol quente que me queima é o mesmo que doura as peles de quem desfruta das piscinas dos condomínios que eu divulgo. Condomínios. É isso que eu vendo. Sei de ouvir falar. Não sei ler. Carrego uma propaganda indecifrável, ilegível, pelo menos pra mim. Como aquelas pessoas que vestem uma camiseta, mas desconhecem o significado da sua mensagem. Eu só sei ler a cara da fome de meus filhos e é para eles que eu seguro. Seguro a onda, seguro o rojão, seguro a placa. Para vender, cada dia mais, mais apartamentos luxuosos, de 2 ou 3 dormitórios, mais apartamentos de 240 metros quadrados, mais de 10 vezes mais que o tamanho do meu puxado. É puxado, sim. Mas sabe que eu penso que todos somos um pouco homens-placas, vivemos carregando estandartes de marcas e ideologias, das quais talvez nem compartilhamos, ou entendemos o real sentido. Nem faz sentido. Melhor carregar minha placa pelos dias, sem nem perguntar. E receber meu pagamento. Eu mal sei para quem eu trabalho, mas sei bem quem enriquece. Eu sou apenas um suporte. Eu suporto.

Sou o homem-placa. Cada dia mais placa, cada dia menos homem. 
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Minhas paredes

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Estou participando do concurso cultural + amor em SP, promovido pelo site Catraca Livre. Inspirados na letra de Criolo, que diz que não existe amor na cidade, eles querem estimular a criação de receitas provando o amor em São Paulo. Concorro com o texto Paredes, com a arte é do Igor Villa. As cinco obras mais votadas, juntamente com outras 15 escolhidas pelo júri, serão expostas no MIS (Museu da Imagem e do Som). Se quiser, vote lá! :)
http://itsnoon.net/criacoes/19510/descricao/
Ah, tem que se cadastrar, mas dá pra fazer isso via Facebook.

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Allontanarsi dalla linea gialla

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Tenho visto muita gente surtada. Na rua, no metrô, em qualquer esquina trombo com elas. Tem vezes que me assusto com seus berros, tem vezes que até consigo achar graça. Dia desses na hora do almoço passei por um restaurante e vi uma mulher: barriga descoberta pela blusa um pouco curta, cabelos desalinhados, enchia de cerveja seu copo. Até aí tudo bem, no que a ouvi: Bill Gates nunca pediu minha opinião pra nada, pra nada!
Lembrei-me esses dias de uma frase que eu ouvia sempre na Itália, quando ia desbravar outras cidades por linhas ferroviárias. Enquanto esperava o trem, a voz, a voz misteriosa e robótica de todas as estações, dizia assim: allontanarsi dalla linea gialla. E essa frase sempre me calava um pouco, me fazendo pensar mais do que devia nela.
Difícil entender, já que eu vivo no metrô de São Paulo para cima e para baixo e sempre escuto sobre a linha amarela, que é a sua segurança, só a ultrapasse depois de o trem abrir as portas, e isso nunca me perturbou. Mas percebi que aquela outra linha amarela, a italiana, era bem diferente. Quando eu escutava o toque e a instrução, eu ouvia, muito além do aviso, um conselho, bem sábio, sobre outras linhas amarelas da nossa vida.
A instrução me intrigava, dei-me conta, porque a linha amarela, no fundo, era uma metáfora para aqueles momentos de atenção, de previsão do perigo, e se encaixava em muita coisa. É a gente vivendo e o perigo rondando, vermelho e fatal. Mas não só o perigo externo, o que independe da gente, mas o que brota dos nossos próprios pensamentos, das nossas próprias doenças, neuroses, psicoses. Daquilo que nos surta.
Venho, desde então, buscando identificar as linhas amarelas que me mostram que algo pode estar mal. Uma depressãozinha que demora a passar, um medo desesperado de sabe-se lá o quê, a sensação de vazio, mais forte, uma tristeza que se instala como visita chata, a insegurança do dia a dia, que nos obriga ao recolhimento sem razão de ser. Identificando esses primeiros sintomas, apontada la linea gialla, fica mais fácil correr para o outro lado. Balançar a cabeça, desanuviar os pensamentos. Buscar respiro, fôlego. A linha amarela tem me mostrado muita coisa, inclusive que muitas pessoas não conseguiram allontanarsi e andam assim, sozinhas e a esmo. Tenho visto muita gente surtada e isso me mostra a necessidade de estar sempre atenta à linha amarela, que me pisca o caminho contrário. Afinal, eu também poderia estar bem chateada porque Bill Gates nunca pediu minha opinião pra nada! Mas acho que eu posso viver sem isso. 
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Antianestesia

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Gosto de colocar meus óculos escuros e manter meu anonimato. Mesmo quando não tem sol, visto meus óculos para encarar com sobriedade a multidão. Os óculos me mantêm invisível ante o amontoado, nesses dias em que não tenho coragem de encarar parte alguma. Os óculos me tornam imune às neuroses coletivas. Justo eu, que me incomodo tanto com o torpor diário das pessoas e seus fones de ouvido, gosto de me refugiar nos meus óculos escuros, que me dão a impressão de estar escondida, segura, secreta.

Gosto de me sentir perdida, sem saber para onde estou indo. Assusta-me a ideia de ser como um zumbi, vagando sem perceber por um trajeto estabelecido no inconsciente. Gosto de parar de repente em um ponto e me perguntar onde estou e para onde estou indo. E por que estou indo. Gosto de interromper meu caminhar e mudar os caminhos, de ver outras paisagens para não ser surpreendida quando a mudança vier e eu estar anestesiada demais para senti-la. Gosto de me cansar de ser levada pela procissão de pernas incansáveis de gentes, gentes brancas, pretas e amarelas, essas gentes que precisam chegar o mais rápido possível. Gosto de me cansar porque sei que esse arrastão não é o caminho certo, não é e nem poderá ser o caminho natural das coisas, das gentes que não merecem sua existência truncada e nem seu trajeto de indiferença.

Gosto de me perguntar para onde vão todas as pernas, mas principalmente para onde me encaminho, a fim de não me perder no vazio da existência, no caminhar sem sentido pelas ruas, na corrida para entrar no vagão dos pensamentos e se espremer lá dentro, no sufoco de partir para o misterioso caminho do sempre. Gosto de me perguntar qual é meu caminho para entender bem da minha viagem. Sei que posso passar a eternidade sem saber a resposta. Mas continuarei me perguntando.
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Receitas

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O amor - pensou ela enquanto enfileirava os pedaços de peixe sobre as batatas pré-cozidas - é igual fazer comida. Eu, por exemplo - continuava pensando, ao chuviscar de sal o peixe - nunca fiz peixe assado, mas estou aqui testando a receita da tia da barraca da feira, sem saber se vai dar certo. Se errar - ela refletia - eu mesma me darei um desconto, afinal, é difícil acertar de primeira. Na segunda a gente lembra do que fez na primeira receita, repete o que acertou, dosa melhor o que errou e assim - concluía ela, picando a cebola em rodelas e os pedaços de tomate para cobrir os filés - vamos aperfeiçoando e, quem sabe, entendendo do riscado. Pode ser que eu precise ligar para a mãe - refletia, picando o cheiro verde e terminando o colorido na travessa – pedindo maiores detalhes sobre em que momento deve entrar o papel alumínio, mas, mesmo com conselhos de um ou de outro, quem está com a mão na massa sou eu e serei eu a colher os louros ou amargar a derrota do prato mal feito. E assim – finalizava ela, pingando o azeite por cima de tudo - cozinhar é como amar. Ninguém precisa testar a mesma receita infinitas vezes, da primeira para a segunda já se evolui um bocado, além do que, tem receita que nem dá certo na nossa mão, sendo melhor alterar os ingredientes. Tem gente que cozinha sem receita, tem gente que erra no mesmo relacionamento até acertar, sem preciso trocar de par. Não há um só ser que possa dizer que não sabe cozinhar, assim como não existe ser humano sem capacidade para amar – ela arrematava, colocando a forma dentro do forno pré-aquecido – porque amar e cozinhar é desse jeito assim. Intuitivo.
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Paradoxo da mulher moderna

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É quando você decide comprar um pacote de tratamento estético para eliminar a barriga porque o site de compras coletivas está com uma promoção super em conta, que pode ser parcelada mil vezes no cartão. Mas como nem tudo é um abdômen durinho você só consegue marcar a primeira sessão para 6 meses depois e no seu horário de almoço, porque você trabalha 9 horas por dia e depois do expediente a clínica já fechou. Aí você avisa no trabalho que vai dar uma pequena atrasadinha, sai botando os bofes pra fora, se joga no metrô, cai no lado errado da Paulista, acha o prédio, faz cadastro na portaria, entra, preenche uma ficha interminável, e quando é finalmente atendida passa 40 minutos sentindo os “valorosos” efeitos daqueles aparelhinhos de ET no seu corpo. Veste-se correndo, sai esgualepando-se Paulista afora, chega na rua do trabalho ultrapassando mais de 20 minutos do seu horário de almoço e pra não ficar com a barriga vazia e pra não atrasar mais meia hora engole um salgado, enquanto manda sua gastrite calar a boca.
E fim.
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A moeda

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Tenho um senso de justiça que às vezes me perturba de tão chato. Um senso que se ofende quando vê coisa errada acontecendo, que se incomoda também quando o alvo da injustiça sou eu. Nesse caso ele se incomoda tanto que teima até em me fazer chorar.
Descobri que meu senso de justiça está impresso em um lado da minha moeda. Sim, eu tenho uma moeda, com a qual eu faço minhas negociações, com a qual eu pago meus honorários, com a qual eu recebo o que tenho de crédito mundão afora.
Do outro lado da moeda – e como tudo na vida o outro lado costuma ser inverso – está a leveza, a leveza da qual eu quase nunca consigo lançar mão. Deve ser coisa da idade. Dias desses fui à médica e ela me perguntou como anda meu grau de estresse. Pergunta estranha para quem mora em São Paulo, cidade das pessoas e suas cabeças de panela de pressão. Respondi que me estresso muito, que brigo quando as coisas me incomodam a ponto de o sangue esquentar o rosto. Ela disse que “também era assim”. Minha chefe já me comparou com ela também, mais jovem. “Com o tempo, a gente aprende a ser leve”, elas resumiram.
Percebi a diferença entre as minhas duas faces da moeda em outro episódio, em que me irritei com a estranha mania que os covardes têm em se exprimir nas redes sociais. Sob o falso pretexto de precisarem opinar sobre tudo, saem por aí soltando farpas em formas de indiretas, sem se preocupar se magoam covardemente atrás da cortina do “só estou dando minha opinião”. Criar um perfil, para alguns, é tirar porte para atirar palavras vazias contra o vento. Algum idiota pode pegá-las e aí o objetivo – se é que existe algum – é alcançado. Prazer, eu sou a idiota. Me achei injustiçada, porque algumas palavras me feriram, mas não entendi o porquê, o porquê de alguém querer ofender de graça, protegido sobre um pseudoanonimato e uma pseudoefemeridade – característicos da rede.
Meu senso de justiça me esquentou a cara e me deixou lavada em lágrimas. Foi aí que precisei da ajuda de dois amigos para me lembrar da leveza. Da leveza de pegar dos outros apenas o que faz bem e não aceitar o que não for bom. De usar o lado da moeda destinado a fazer os planos darem certo, de trilhar os caminhos sem discórdias ou mágoas. De ser leve, empregando energia naquilo que vale a pena e flutuando sobre as adversidades e pequenices – de pessoas a situações.
Não vou deixar de me ofender quando a injustiça for maior que a decência. Não deixarei de achar que falar bonito é quem fala com interlocutor, caso contrário não é bonito, é covarde. Continuarei esperando bom senso, principalmente das pessoas que também exigem bom senso em suas relações. Prometo, entretanto, não me deixar abalar tanto. Não precisa ser cara ou coroa, simples assim. Mas quando as adversidades vierem, posso optar pela leveza como antídoto ao sofrimento.
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Coragem, o cão covarde (Diangela Menegazzi)

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Hoje eu li um texto lindo, de uma amiga igualmente linda que não tinha onde publicar seu texto. Ofereci o espaço, o texto realmente vale a pena. É a primeira participação especial no blog e eu fico contente de ser ela. Queria escrever mais, mas hoje o texto não é meu. Com vocês, Diangela Menegazzi.
***

Coragem, o cão covarde

Cresci dormindo no mesmo quarto que minha irmã, um ano mais velha que eu. Dormíamos num beliche. Ela em cima, porque sobrava valentia. Teve que aceitar dormir com a luz acesa por vários anos, eu tinha medo do escuro. Era ela que me defendia dos monstros imaginários e amenizava a intensidade dos meus soluços quando estávamos longe da mãe. Tinha medo de fantasmas, e do cara chamado coisa ruim, achava que algum dia seria assombrada pelo garfinho dele. Apesar disso, tinha valentia pra brigar com crianças na rua e enfrentar todos os meus primos. Em filmes de terror e suspense, sempre passava a maior parte do tempo com olhos e ouvidos fechados, mas anos mais tarde me autodenominei ateia. Sempre tive medo de alturas, mas um dia saltei de paraquedas. Nunca me achei bonita, e mesmo assim raspei o cabelo. Ouvi exclamações de coragem, mas só porque eles não sabem que ainda subo as escadas correndo com medo do que me espera atrás.

Diangela Menegazzi
diangelam@gmail.com
@ysemueven
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μάθημα

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- Eu estou certa.
- Eu estou certo.
Acho incrível como não podemos perceber que a vida não é matemática. Dois resultados diferentes podem estar certos. Se eles estão certos quer dizer que simbolizam, para cada pessoa, o seu resultado particular. E de particularidade em particularidade, vamos somando as diferenças. Lindo, não? Na minha prova real não deu certo. Tentei somar e ficou alguma coisa faltando, alguma coisa sobrando. Uma particularidade ao fundo gritando: espera aí, que eu não fui incluída nessa somatória! Então vem! Não vou, não vou porque não concordo.
Não sou boa em Matemática. Ela é perfeita demais, portanto complexa demais e eu resido numa abstração simplificada. Está tudo ao avesso, hoje te odeio, amanhã te sinto amor, não suporto mais, vem para cá, quero ir embora, acho lindo isso de ficar. Para mim essa roda viva é compreensível. Raciocínio lógico não.
O que é mais absurdo nessa coisa toda é que nesse gira-girar eu compreendi algo. Uma epifania, não tem isso em matemática. Aprendi que não tem certo nem errado, tem a somatória possível e a impossível. Melhor, tem a somatória possível agora, a impossível agora, mas possível logo mais adiante, a impossível sempre e a possibilidade que baila entre o agora e o adiante que a gente vai tentando descobrir se é ou não é a vida inteira, como um objeto de estudo que a gente elege para todas as pós-graduações.
- Par!
- Ímpar!
Somaram os dedos e deu um número. Sempre dá, malandra matemática. Deu ímpar. Não mais um par.
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Paredes

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São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam várias chaves de uma mesma casa
                que abrigam gritos e portas batidas
                que abrigam um sofá cama na sala
                que abrigam caixas de pizzas vazias.

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam uma janela bem fechada
                que abrigam um closet lotado
    que abrigam um vendaval de papelada
    que abrigam ares condicionados

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam seres claustrofóbicos
                que abrigam olhares para o lado
                que abrigam toneladas de tóxicos         
                que abrigam um trânsito sufocado

São Paulo tem 4 paredes
                que brigam com filhos aninhados
                que brigam com tenros abraços
                que brigam com machucados curados
                que brigam com favores desinteressados
Uma das paredes costuma ser cinza

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Descoberta

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Descobri que há uma fragilidade em estar gripada que me fortalece. Há alguma coisa na voz fanhosa, nos espirros constantes, na dor no corpo que me faz pequena, carente de colo, de atenção. Há alguma coisa no fato de estar gripada, nariz cheio, olhos inchados e noites mal dormidas, que me lembra da minha pequenez, de que não sou aquela fortaleza que pretendo – ou preciso – ser. Essa provocação do meu corpo comigo me lembra que minha autossuficiência conflita com a menina que pede arrego.
E não há coristina que cure manha, não há amor que resista a tanto dengo.
E quando eu insisto em dizer que estou quente, mesmo não tendo frio, mesmo nunca tendo febre, ele pega o termômetro e no caminho desliga o ventilador, indispensável em suas noites de verão.
E nem pede para que eu me cubra, aguentando o vento.
E se derrete feito vitamina C efervescente me fazendo cafuné.
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É culpa das bugigangas

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Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da minha vivência um quarto de século gasta. Ah, doutor, eu já nem sei se essa cortina do meu consciente é suficiente para tampar essa quinquilharia toda, eu bem deveria era quebrar tudo a marretada, mas esses cacarecos são minha bagagem, fazem parte de mim, o senhor compreende? Ei, doutor, me arruma alguma coisa para eu abrir a cortina devagarinho, espiando de relance minhas coisas gastas até redescobrir tudo com olhos de menina, que descortinar brusco me embrutece. O senhor me entende, doutor?
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Ton soleil, ta braise

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Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante.
Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca está bem ou está mal. A gente tem “entãos”. Da última vez que conversamos, numa longa caminhada entre Leblon e Copacabana, falei a ele de um poema A Casa Branca A Nau Preta, do outro Fernando, o Pessoa, que resume bem esse meu estado de espírito:

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Fernando, o Pessoa, fala bem alto dentro de mim. Já chorei muito com seus poemas. Nos meus delírios mais nonsense, quis encontrá-lo no polo Álvaro de Campos para perguntar-lhe: “isso passa? e daqui mil anos, será que isso passa?” Porque é difícil ser assim. Meus amigos do segundo tipo devem me tirar para louca mas na minha frente dizem achar o máximo esses meus rompantes de me largar no mundo. De querer um porto sem fim. Às vezes eu trocaria tudo por ser contraditoriamente conformada, por ter objetivos de vida bem traçados e, principalmente, um facho bem sossegado.
O que mais me intriga na inquietude de Fernando, o amigo, é que ele parece não ter encontrado ainda o que o move, o que o guia, o que o incendeia. Seu sol, sua brasa, como diz a música do Chico Buarque. Também me encontro nesse estágio. Falo isso em relação a profissões, a projetos de meter a cara e tocar com rufar de tambores. Mas já evoluímos muito. Há uns dois anos, nos encontramos fazendo apostinhas, com um riso meio nervoso, tentando empurrar para o outro a derrota de se enraizar na cidade que não nos confortava (nem conformava). Saímos.
Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Porque é para eles que concentro meus melhores desejos de felicidade. O desejo de que encontrem seu sol, sua brasa, mesmo que seu sol e sua brasa sejam uma procura sem fim. Porque tem gente que se conforta em não achar nunca. Tenho amigos a quem enviar os melhores desejos, esperando que um dia eles, os desejos, voltem a mim quando eu precisar de uma tocha ardente e um sol guiando meus passos em busca da minha própria evolução.
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Desvairada

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Sempre imaginei que a felicidade estaria em uma cidade sem fim. Sem tédio, sem rotina. Uma cidade inteira a ser desvendada, um sem fim de descobertas. Não sei ao certo a data que comemoro meu aniversário em São Paulo, sei que foi mais ou menos nessa época, há um ano, que cheguei assim, com a mala mais pesada na mão e a vontade de aprender os mistérios da megalópole mais pungente que poderia sonhar em morar. Daqui a uma semana, talvez por coincidência, São Paulo faz 458 anos e já me deu mais motivos que sua quantidade de velas no bolo para ficar.
Vez ou outra descubro o cheiro de São Paulo, aquele odor que nos faz retomar de imediato alguma coisa. Um cheiro de terra molhada que me anuncia a chuva, o perfume forte e doce de uma prostituta que um dia entrevistei num posto de gasolina e que ora sinto quando uma mulher passa por mim, o sabonete de mel que meu pai trazia do Paraguai. Não. O aroma que me impregna em São Paulo é o do pingado e o do pão na chapa. Das muitas padarias por onde passo, nos bairros pobres e afetados, todas com seus garçons quase sempre muito gentis anotando “seu pedido, dona”.
Aprendi a dizer “obrigada, viu?”, quando agradeço algo. Um costume daqui, acrescentar “viu?” como se agradecimento necessitasse de aceitação. Agradeci mais de centena de vezes gestos despretensiosos e sorrisos de gentileza mesmo quando o mundo teime em professar que a cidade é ranzinza e cinza como o céu. Meu agradecimento mais tenro foi merecido por uma recepcionista morena simpática de um edifício de um bilhão de andares. Sem me ter visto nunca na vida, caçou listas de e-mails para que eu pudesse mandar meu currículo. Ainda tenho vontade de voltar lá e dizer que ela é tão linda por dentro como por fora.
Meus filmes e livros que São Paulo me deu de presente. Um filme raro lado B encontrado ao acaso na rua mais cosmopolita do meu mundo, justo na rua que me tirou tanto, a mesma rua que me devolveu aquela alegria de encontrar algo que você não estava procurando naquele momento. Ainda não inventaram uma palavra no nosso idioma para definir esse sentimento. O livro de Virginia ganhado de presente do meu querido amigo sem data nem motivo, o livro de Cortázar que recebi das mãos do meu mais novo antigo amigo, em comemoração aos meus 26. Os livros e filmes que ganhei dos olhos verdes mais singelos do mundo, que me abriu as portas de São Paulo e as portas de um mundo mais humano e menos coisificado.
Estabeleço com São Paulo uma relação quase humana, sou eu e esse organismo vivo, que se transmuta nos seus sotaques e traços de todos os lugares do universo. Estar em São Paulo é como ter a prova que você nunca conhecerá todo o mundo e se sentir pequeno com essa constatação. É sentir vontade de um teletransporte para sugar tudo o que há de interessante em todos os pontos da cidade e quando você acha que conseguiu ligar os pontos, surgem outros e outros e novas gentes e novos lugares e, pronto, você foi sugado por ela. Sugado e expelido em seguida como esse ar preto, que gruda nos móveis sem ganas de ser removido, sugado pela energia compartilhada com quilômetros de ferro, de trilhos, de vagões. Sugado, expelido, sugado, expelido. E continuar na cidade por ver que ninguém é verdadeiramente dela e nem ela verdadeiramente de ninguém. É como se ao conhecer um lugar novo você perdesse de imediato a memória do antigo e vivesse descobrindo e esquecendo, um jogo de gato e rato impensável com gente, ainda mais com cidade.
Cidade não. São Paulo é gente. Humana, viva. São todos. Sou eu.
Descobrindo aqui quem sou. Esquecendo e conhecendo.
Obrigada, viu? 

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As maçãs, o ponto azul e nossas formas de pensar

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No mundo existem 7.500 variedades de maçã. Aprendi na lâmina da bandeja do McDonald's. Aliás, aprendi hoje que aqueles papéis se chamam lâminas de bandeja. O fato é que eu adoro maçã. A gala e a fuji, bastante. Da argentina eu não gosto. É, aquela mesmo, pela qual o povo paga caro. Para mim a casca tem gosto de papel, artificial.
Pensando nas maçãs eu pensei em tudo que existe aos montes por aí e a gente desconhece. No mundo em que nos inscrevemos, circundamos uma linha em volta e, assim, no que tratamos de conhecer dentro desse espaço. Limitado, claro. Sem negativismo, não somos nômades nem anormais para conhecermos o mundo inteiro, para nos jogarmos numa aventura sem precedentes para devorar tudo. Além do que, quanto mais nos distanciamos em busca do outro, nos privamos de conhecer (ou conhecer mais) o que está bem debaixo do nosso nariz. Cada escolha uma renúncia, esse eterno paradoxo.
Embora seja impossível conhecer o mundo todo, tenho a abafada ânsia de conhecer o máximo que posso e acho que uma das formas mais lindas de conhecer o outro é aprendendo sua língua, apreendendo, enfim, sua identidade. Porque cada língua é uma forma de pensar e ao estudar um idioma isso se torna muito óbvio. Começamos ao traduzir ao pé da letra toda e qualquer coisa, para depois chegarmos à conclusão que só raciocinando naquela língua conseguimos nos expressar através dela de fato. Um dos exemplos mais instigantes aprendi em um curso de redação. Enquanto falamos em “ganhar dinheiro”, como se fosse uma dádiva dos céus, os americanos preferem “to make money”, ou seja, riqueza não se ganha, se conquista.
Alguns outros exemplos aprendi com a Rosana Hermann, aqui:

Rosana Hermann from TEDxPortoAlegre on Vimeo.

Uma língua não é apenas um conjunto de palavras e estruturas gramaticais partilhadas por um grupo de pessoas, mas também uma forma de raciocinar, de verbalizar como agimos e como vemos as coisas. Animador pensar nas infinitas possibilidades que temos ao desvendar o mundo estudando códigos linguísticos de outros povos, desanimador pensar em quantas maçãs eu deixarei de provar. Mas o mais irônico é pensar que a partir dela, de uma maçã, ou pelo menos de uma informação sobre ela, todas essas divagações me surgiram, aumentando minha vontade de conhecer o mundo, mas entendendo minha insignificância, afinal, somos apenas um pálido ponto azul no universo. Engraçado é pensar na maçã como um símbolo capaz mesmo de abrir os olhos para o conhecimento.
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Pouco ortodoxo

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Disciplinada está longe de ser minha característica número um. Geralmente sou esforçada e determinada quando o objetivo é em curto prazo e possível, assim, ao alcance das mãos. Sou péssima com aquilo que exige de mim uma dose de disciplina permanente. Por isso nunca consegui passar o filtro solar no rosto conforme recomendado, vivo num efeito sanfona e contrario todos os conselhos de revista de saúde, moda e beleza.
Foi só há um tempo que descobri como contornar isso. Pode parecer pouco ortodoxo, mas transformei médicos e afins em carrascos mentais. Tortura psicológica? Talvez. O fato é que naquele momento em que eu sobressalto de um semicochilo na cama e digo para mim mesma: "ah, só hoje eu não vou limpar o rosto antes de dormir, não fará diferença", vem a minha mente a sobrancelha arqueada da minha dermatologista como a me questionar: "tem certeza?". Levanto e vou, afinal, os produtos custaram uma fortuna. O mesmo com a preguiça esporádica de passar o fio dental, dizimada pela imagem de minha dentista balançando a cabeça negativamente enquanto explora minha vida bucal.
Quanto ao meu remédio matinal, aquele que preciso tomar em jejum toda manhã e depois do qual só posso comer após uma hora, não costumo esquecê-lo. Mas, nos dias que ocorre, ou mesmo quando como antes do prazo previsto, lembro-me da minha endocrinologista com seu ar maternal e ao mesmo tempo homicida desfiar as consequências de não fazer um tratamento adequado e, tá bom, tá bom, já entendi.
Para surtos psicóticos, tenho uma pequena lista, que vai de florais, banho morno, mantras e a feição nada simpática do meu analista prestes a sentenciar que isso é uma carência infantil e que sim, preciso amadurecer urgentemente.
Como ia dizendo, há uma certa dose de tortura psicológica e tendência ao drama nisso tudo, pois a memória poderia dar uma mão à leveza, o que me conduziria aos caminhos da paciência e determinação a longo prazo. Mas a receita tem dado certo e tem alcançado progressos animadores. Agora, com sua licença, tenho uma legião de criaturas imaginárias a atender. E não posso frustrar ninguém.
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A cobra grande

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Vi a jiboia pelo vidro. Ela estava quieta, me olhava de um jeito parecendo sorrir. Eu estava dentro da casa, ela fora, num jardim, ou matagal. Tive medo dela, passava pelo corredor onde estava a janela sempre correndo. Falava para os outros com temor, atordoada. Ela nunca vai sair dali, nunca vai entrar aqui, me diziam. Uma hora espiei e parecia não acreditar. Ela estava entrando por uma fresta, rastejando-se para dentro. Olhei nos olhos dele com aquele pânico misturado com: e agora, nego? Pois é, ela entrou. Me vi caída no chão e enrolada por ela, sem poder fazer nada. Sozinha, imóvel, conivente. Nem pânico tinha mais. Era só certeza. Certeza que ela tinha vencido. A cobra, com os olhos grandes e gélidos, olhando para mim com expressão fria enquanto me enrolava. Enquanto me vencia. Acordei sobressaltada, enquanto ele dormia tranquilamente.
Ela não vai entrar aqui, você tem razão. Meu medo não irá me vencer e, enquanto ele for pequeno, continuarei agindo tranquilamente, como os outros. Como se a cobra não existisse na janela. Até que um dia ela cansa de me fitar e vai embora. Simples assim.
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