Desvairada

Sempre imaginei que a felicidade estaria em uma cidade sem fim. Sem tédio, sem rotina. Uma cidade inteira a ser desvendada, um sem fim de descobertas. Não sei ao certo a data que comemoro meu aniversário em São Paulo, sei que foi mais ou menos nessa época, há um ano, que cheguei assim, com a mala mais pesada na mão e a vontade de aprender os mistérios da megalópole mais pungente que poderia sonhar em morar. Daqui a uma semana, talvez por coincidência, São Paulo faz 458 anos e já me deu mais motivos que sua quantidade de velas no bolo para ficar.
Vez ou outra descubro o cheiro de São Paulo, aquele odor que nos faz retomar de imediato alguma coisa. Um cheiro de terra molhada que me anuncia a chuva, o perfume forte e doce de uma prostituta que um dia entrevistei num posto de gasolina e que ora sinto quando uma mulher passa por mim, o sabonete de mel que meu pai trazia do Paraguai. Não. O aroma que me impregna em São Paulo é o do pingado e o do pão na chapa. Das muitas padarias por onde passo, nos bairros pobres e afetados, todas com seus garçons quase sempre muito gentis anotando “seu pedido, dona”.
Aprendi a dizer “obrigada, viu?”, quando agradeço algo. Um costume daqui, acrescentar “viu?” como se agradecimento necessitasse de aceitação. Agradeci mais de centena de vezes gestos despretensiosos e sorrisos de gentileza mesmo quando o mundo teime em professar que a cidade é ranzinza e cinza como o céu. Meu agradecimento mais tenro foi merecido por uma recepcionista morena simpática de um edifício de um bilhão de andares. Sem me ter visto nunca na vida, caçou listas de e-mails para que eu pudesse mandar meu currículo. Ainda tenho vontade de voltar lá e dizer que ela é tão linda por dentro como por fora.
Meus filmes e livros que São Paulo me deu de presente. Um filme raro lado B encontrado ao acaso na rua mais cosmopolita do meu mundo, justo na rua que me tirou tanto, a mesma rua que me devolveu aquela alegria de encontrar algo que você não estava procurando naquele momento. Ainda não inventaram uma palavra no nosso idioma para definir esse sentimento. O livro de Virginia ganhado de presente do meu querido amigo sem data nem motivo, o livro de Cortázar que recebi das mãos do meu mais novo antigo amigo, em comemoração aos meus 26. Os livros e filmes que ganhei dos olhos verdes mais singelos do mundo, que me abriu as portas de São Paulo e as portas de um mundo mais humano e menos coisificado.
Estabeleço com São Paulo uma relação quase humana, sou eu e esse organismo vivo, que se transmuta nos seus sotaques e traços de todos os lugares do universo. Estar em São Paulo é como ter a prova que você nunca conhecerá todo o mundo e se sentir pequeno com essa constatação. É sentir vontade de um teletransporte para sugar tudo o que há de interessante em todos os pontos da cidade e quando você acha que conseguiu ligar os pontos, surgem outros e outros e novas gentes e novos lugares e, pronto, você foi sugado por ela. Sugado e expelido em seguida como esse ar preto, que gruda nos móveis sem ganas de ser removido, sugado pela energia compartilhada com quilômetros de ferro, de trilhos, de vagões. Sugado, expelido, sugado, expelido. E continuar na cidade por ver que ninguém é verdadeiramente dela e nem ela verdadeiramente de ninguém. É como se ao conhecer um lugar novo você perdesse de imediato a memória do antigo e vivesse descobrindo e esquecendo, um jogo de gato e rato impensável com gente, ainda mais com cidade.
Cidade não. São Paulo é gente. Humana, viva. São todos. Sou eu.
Descobrindo aqui quem sou. Esquecendo e conhecendo.
Obrigada, viu? 

6 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 18 de janeiro de 2012 15:57 disse...

Ainda acho que quem ganha nessa é ela, eu, de te ter aqui.

{ Suellen Vieira } at: 18 de janeiro de 2012 18:51 disse...

Ainda bem, Tati. Que vc se encontrou aí. Porque eu (mesmo que o motivo das idas não tenha sido O motivo) não tenho as melhores impressões, nem as melhores lembranças :(

{ Tatiana Lazzarotto } at: 19 de janeiro de 2012 03:34 disse...

Acontece, Su. As cidades não são as mesmas para cada um de nós. Guarapuava mesmo, que muita gente gosta, não me completava. São Paulo não me é perfeita (ainda não sei se quero criar meus filhos aqui), mas no momento é o que eu quero. Esse choque de realidade, como é para alguns, é o que mais eu poderia querer pra mim agora.

{ Michele Matos } at: 2 de fevereiro de 2012 05:13 disse...

É um presente da vida se identificar com uma cidade, se encontrar nela. Poucos sabem o que é isso =)
bjuus Taticaaaa.

{ Ana Vasco } at: 6 de fevereiro de 2012 06:16 disse...

A cidade fica ainda mais linda quando você fala dela com tanta poesia. Já amei muito São Paulo... Agora ela não faz mais parte do meu sonho.

{ Paula Mancano } at: 19 de agosto de 2013 12:04 disse...

Então onde se aprende a escrever assim, como se faz pra colocar em palavras aquilo que sentimos e abrir horizontes desconhecidos em pessoas idem, parabéns você escreve muito bem.

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine