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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

Descoberta

Descobri que há uma fragilidade em estar gripada que me fortalece. Há alguma coisa na voz fanhosa, nos espirros constantes, na dor no corpo que me faz pequena, carente de colo, de atenção. Há alguma coisa no fato de estar gripada, nariz cheio, olhos inchados e noites mal dormidas, que me lembra da minha pequenez, de que não sou aquela fortaleza que pretendo – ou preciso – ser. Essa provocação do meu corpo comigo me lembra que minha autossuficiência conflita com a menina que pede arrego.
E não há coristina que cure manha, não há amor que resista a tanto dengo.
E quando eu insisto em dizer que estou quente, mesmo não tendo frio, mesmo nunca tendo febre, ele pega o termômetro e no caminho desliga o ventilador, indispensável em suas noites de verão.
E nem pede para que eu me cubra, aguentando o vento.
E se derrete feito vitamina C efervescente me fazendo cafuné.

É culpa das bugigangas

Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da min…

Ton soleil, ta braise

Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante. Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca est…