É culpa das bugigangas


Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da minha vivência um quarto de século gasta. Ah, doutor, eu já nem sei se essa cortina do meu consciente é suficiente para tampar essa quinquilharia toda, eu bem deveria era quebrar tudo a marretada, mas esses cacarecos são minha bagagem, fazem parte de mim, o senhor compreende? Ei, doutor, me arruma alguma coisa para eu abrir a cortina devagarinho, espiando de relance minhas coisas gastas até redescobrir tudo com olhos de menina, que descortinar brusco me embrutece. O senhor me entende, doutor?

2 comentários:

{ Ana Vasco } at: 25 de fevereiro de 2012 18:22 disse...

Eu não sei se o doutor te entende, Tati... mas eu compreendo perfeitamente! A gente junta tantas bugigangas, tenta esconder bem e, num leve piscar de olhos, elas saltam na nossa frente como aqueles palhacinhos guardados em uma caixa de dar corda... Depois levamos dias, meses até... para enfiar tudo no seu devido lugar... novamente... novamente... debaixo da cama, no porta-retrato, na tela do computador... Haja médicos para solucionarem essas fatalidades da alma... Beijo grande minha "estrangeira" mais querida.

{ Michele Matos } at: 3 de março de 2012 15:18 disse...

Mas a gente continua escondendo, mesmo sabendo que vai aparecer no vão do esconderijo, quando não despenca e cai de uma vez né...

 

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