Ton soleil, ta braise

Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante.
Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca está bem ou está mal. A gente tem “entãos”. Da última vez que conversamos, numa longa caminhada entre Leblon e Copacabana, falei a ele de um poema A Casa Branca A Nau Preta, do outro Fernando, o Pessoa, que resume bem esse meu estado de espírito:

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Fernando, o Pessoa, fala bem alto dentro de mim. Já chorei muito com seus poemas. Nos meus delírios mais nonsense, quis encontrá-lo no polo Álvaro de Campos para perguntar-lhe: “isso passa? e daqui mil anos, será que isso passa?” Porque é difícil ser assim. Meus amigos do segundo tipo devem me tirar para louca mas na minha frente dizem achar o máximo esses meus rompantes de me largar no mundo. De querer um porto sem fim. Às vezes eu trocaria tudo por ser contraditoriamente conformada, por ter objetivos de vida bem traçados e, principalmente, um facho bem sossegado.
O que mais me intriga na inquietude de Fernando, o amigo, é que ele parece não ter encontrado ainda o que o move, o que o guia, o que o incendeia. Seu sol, sua brasa, como diz a música do Chico Buarque. Também me encontro nesse estágio. Falo isso em relação a profissões, a projetos de meter a cara e tocar com rufar de tambores. Mas já evoluímos muito. Há uns dois anos, nos encontramos fazendo apostinhas, com um riso meio nervoso, tentando empurrar para o outro a derrota de se enraizar na cidade que não nos confortava (nem conformava). Saímos.
Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Porque é para eles que concentro meus melhores desejos de felicidade. O desejo de que encontrem seu sol, sua brasa, mesmo que seu sol e sua brasa sejam uma procura sem fim. Porque tem gente que se conforta em não achar nunca. Tenho amigos a quem enviar os melhores desejos, esperando que um dia eles, os desejos, voltem a mim quando eu precisar de uma tocha ardente e um sol guiando meus passos em busca da minha própria evolução.

3 comentários:

{ Ana Vasco } at: 10 de fevereiro de 2012 18:18 disse...

Querida Amiga, mais que inconformada, sou desassossegada, como vc e o outro Fernando, o Pessoa. E acho mesmo que almas assim se atraem... mesmo que virtualmente!! Beijo bem grande!!

{ Bola, o André } at: 10 de fevereiro de 2012 19:43 disse...

Ah Tati, eu sou bem incoformado com o mundo, mas o meu Alasca não é fora do corpo. É dentro, por isso adoro meu quarto. É lá que alcanço o fim do mundo e o começo...

{ Klaus Pettinger } at: 26 de fevereiro de 2012 14:11 disse...

Sua inconformidade me conforta, me orgulha, me inspira... Não faz muito sentido, mas esse texto me trouxe gostosos sentimentos esperanças. Obrigado ;)

 

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