Pular para o conteúdo principal

A moeda


Tenho um senso de justiça que às vezes me perturba de tão chato. Um senso que se ofende quando vê coisa errada acontecendo, que se incomoda também quando o alvo da injustiça sou eu. Nesse caso ele se incomoda tanto que teima até em me fazer chorar.
Descobri que meu senso de justiça está impresso em um lado da minha moeda. Sim, eu tenho uma moeda, com a qual eu faço minhas negociações, com a qual eu pago meus honorários, com a qual eu recebo o que tenho de crédito mundão afora.
Do outro lado da moeda – e como tudo na vida o outro lado costuma ser inverso – está a leveza, a leveza da qual eu quase nunca consigo lançar mão. Deve ser coisa da idade. Dias desses fui à médica e ela me perguntou como anda meu grau de estresse. Pergunta estranha para quem mora em São Paulo, cidade das pessoas e suas cabeças de panela de pressão. Respondi que me estresso muito, que brigo quando as coisas me incomodam a ponto de o sangue esquentar o rosto. Ela disse que “também era assim”. Minha chefe já me comparou com ela também, mais jovem. “Com o tempo, a gente aprende a ser leve”, elas resumiram.
Percebi a diferença entre as minhas duas faces da moeda em outro episódio, em que me irritei com a estranha mania que os covardes têm em se exprimir nas redes sociais. Sob o falso pretexto de precisarem opinar sobre tudo, saem por aí soltando farpas em formas de indiretas, sem se preocupar se magoam covardemente atrás da cortina do “só estou dando minha opinião”. Criar um perfil, para alguns, é tirar porte para atirar palavras vazias contra o vento. Algum idiota pode pegá-las e aí o objetivo – se é que existe algum – é alcançado. Prazer, eu sou a idiota. Me achei injustiçada, porque algumas palavras me feriram, mas não entendi o porquê, o porquê de alguém querer ofender de graça, protegido sobre um pseudoanonimato e uma pseudoefemeridade – característicos da rede.
Meu senso de justiça me esquentou a cara e me deixou lavada em lágrimas. Foi aí que precisei da ajuda de dois amigos para me lembrar da leveza. Da leveza de pegar dos outros apenas o que faz bem e não aceitar o que não for bom. De usar o lado da moeda destinado a fazer os planos darem certo, de trilhar os caminhos sem discórdias ou mágoas. De ser leve, empregando energia naquilo que vale a pena e flutuando sobre as adversidades e pequenices – de pessoas a situações.
Não vou deixar de me ofender quando a injustiça for maior que a decência. Não deixarei de achar que falar bonito é quem fala com interlocutor, caso contrário não é bonito, é covarde. Continuarei esperando bom senso, principalmente das pessoas que também exigem bom senso em suas relações. Prometo, entretanto, não me deixar abalar tanto. Não precisa ser cara ou coroa, simples assim. Mas quando as adversidades vierem, posso optar pela leveza como antídoto ao sofrimento.

Comentários

FABI disse…
A gente aceita o que é bom, bonito e gostoso. Se não for nada disso, renegue ou melhor, nem pegue.

Postagens mais visitadas deste blog

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…