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Receitas


O amor - pensou ela enquanto enfileirava os pedaços de peixe sobre as batatas pré-cozidas - é igual fazer comida. Eu, por exemplo - continuava pensando, ao chuviscar de sal o peixe - nunca fiz peixe assado, mas estou aqui testando a receita da tia da barraca da feira, sem saber se vai dar certo. Se errar - ela refletia - eu mesma me darei um desconto, afinal, é difícil acertar de primeira. Na segunda a gente lembra do que fez na primeira receita, repete o que acertou, dosa melhor o que errou e assim - concluía ela, picando a cebola em rodelas e os pedaços de tomate para cobrir os filés - vamos aperfeiçoando e, quem sabe, entendendo do riscado. Pode ser que eu precise ligar para a mãe - refletia, picando o cheiro verde e terminando o colorido na travessa – pedindo maiores detalhes sobre em que momento deve entrar o papel alumínio, mas, mesmo com conselhos de um ou de outro, quem está com a mão na massa sou eu e serei eu a colher os louros ou amargar a derrota do prato mal feito. E assim – finalizava ela, pingando o azeite por cima de tudo - cozinhar é como amar. Ninguém precisa testar a mesma receita infinitas vezes, da primeira para a segunda já se evolui um bocado, além do que, tem receita que nem dá certo na nossa mão, sendo melhor alterar os ingredientes. Tem gente que cozinha sem receita, tem gente que erra no mesmo relacionamento até acertar, sem preciso trocar de par. Não há um só ser que possa dizer que não sabe cozinhar, assim como não existe ser humano sem capacidade para amar – ela arrematava, colocando a forma dentro do forno pré-aquecido – porque amar e cozinhar é desse jeito assim. Intuitivo.

Comentários

L. disse…
Realmente , não é preciso trocar de par. Sou a prova viva de que sem acertar na 543a. vez não se perde nada. Só se ganha experiência pq o amor tem dessas coisas.
Klaus Pettinger disse…
Incrível, sua analogia, Tati! Gosto muito de cozinhar e acho que seu raciocínio faz todo sentido... Interessantíssimo esse formato de texto em primeira pessoa, contada pela terceira ou de terceira contada em primeira... vixi, depois eu faço a análise do discurso disso... De qualquer forma, muito bom!!!
Michele Matos disse…
Não sei não, cozinhar é difícil. Mas faz sentido, como sempre seu texto faz todo sentido. =)

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