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Allontanarsi dalla linea gialla


Tenho visto muita gente surtada. Na rua, no metrô, em qualquer esquina trombo com elas. Tem vezes que me assusto com seus berros, tem vezes que até consigo achar graça. Dia desses na hora do almoço passei por um restaurante e vi uma mulher: barriga descoberta pela blusa um pouco curta, cabelos desalinhados, enchia de cerveja seu copo. Até aí tudo bem, no que a ouvi: Bill Gates nunca pediu minha opinião pra nada, pra nada!
Lembrei-me esses dias de uma frase que eu ouvia sempre na Itália, quando ia desbravar outras cidades por linhas ferroviárias. Enquanto esperava o trem, a voz, a voz misteriosa e robótica de todas as estações, dizia assim: allontanarsi dalla linea gialla. E essa frase sempre me calava um pouco, me fazendo pensar mais do que devia nela.
Difícil entender, já que eu vivo no metrô de São Paulo para cima e para baixo e sempre escuto sobre a linha amarela, que é a sua segurança, só a ultrapasse depois de o trem abrir as portas, e isso nunca me perturbou. Mas percebi que aquela outra linha amarela, a italiana, era bem diferente. Quando eu escutava o toque e a instrução, eu ouvia, muito além do aviso, um conselho, bem sábio, sobre outras linhas amarelas da nossa vida.
A instrução me intrigava, dei-me conta, porque a linha amarela, no fundo, era uma metáfora para aqueles momentos de atenção, de previsão do perigo, e se encaixava em muita coisa. É a gente vivendo e o perigo rondando, vermelho e fatal. Mas não só o perigo externo, o que independe da gente, mas o que brota dos nossos próprios pensamentos, das nossas próprias doenças, neuroses, psicoses. Daquilo que nos surta.
Venho, desde então, buscando identificar as linhas amarelas que me mostram que algo pode estar mal. Uma depressãozinha que demora a passar, um medo desesperado de sabe-se lá o quê, a sensação de vazio, mais forte, uma tristeza que se instala como visita chata, a insegurança do dia a dia, que nos obriga ao recolhimento sem razão de ser. Identificando esses primeiros sintomas, apontada la linea gialla, fica mais fácil correr para o outro lado. Balançar a cabeça, desanuviar os pensamentos. Buscar respiro, fôlego. A linha amarela tem me mostrado muita coisa, inclusive que muitas pessoas não conseguiram allontanarsi e andam assim, sozinhas e a esmo. Tenho visto muita gente surtada e isso me mostra a necessidade de estar sempre atenta à linha amarela, que me pisca o caminho contrário. Afinal, eu também poderia estar bem chateada porque Bill Gates nunca pediu minha opinião pra nada! Mas acho que eu posso viver sem isso. 

Comentários

Michele Matos disse…
Adorei!
Tenho brincado de andar por cima da linha amarela da minha vida ultimamente, vou me afastar dela.

*Bill Gates é uma pessoa muito orgulhosa mesmo.
ulisses sebrian disse…
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