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Antianestesia


Gosto de colocar meus óculos escuros e manter meu anonimato. Mesmo quando não tem sol, visto meus óculos para encarar com sobriedade a multidão. Os óculos me mantêm invisível ante o amontoado, nesses dias em que não tenho coragem de encarar parte alguma. Os óculos me tornam imune às neuroses coletivas. Justo eu, que me incomodo tanto com o torpor diário das pessoas e seus fones de ouvido, gosto de me refugiar nos meus óculos escuros, que me dão a impressão de estar escondida, segura, secreta.

Gosto de me sentir perdida, sem saber para onde estou indo. Assusta-me a ideia de ser como um zumbi, vagando sem perceber por um trajeto estabelecido no inconsciente. Gosto de parar de repente em um ponto e me perguntar onde estou e para onde estou indo. E por que estou indo. Gosto de interromper meu caminhar e mudar os caminhos, de ver outras paisagens para não ser surpreendida quando a mudança vier e eu estar anestesiada demais para senti-la. Gosto de me cansar de ser levada pela procissão de pernas incansáveis de gentes, gentes brancas, pretas e amarelas, essas gentes que precisam chegar o mais rápido possível. Gosto de me cansar porque sei que esse arrastão não é o caminho certo, não é e nem poderá ser o caminho natural das coisas, das gentes que não merecem sua existência truncada e nem seu trajeto de indiferença.

Gosto de me perguntar para onde vão todas as pernas, mas principalmente para onde me encaminho, a fim de não me perder no vazio da existência, no caminhar sem sentido pelas ruas, na corrida para entrar no vagão dos pensamentos e se espremer lá dentro, no sufoco de partir para o misterioso caminho do sempre. Gosto de me perguntar qual é meu caminho para entender bem da minha viagem. Sei que posso passar a eternidade sem saber a resposta. Mas continuarei me perguntando.

Comentários

Michele Matos disse…
Buscar respostas nunca é perda de tempo. Você ainda encontra, atrás dos óculos =*

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