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Mostrando postagens de Junho, 2012

Em nome do pai

Folheou o jornal em busca das últimas do futebol e se deparou com a nota, quase imperceptível no canto da página. Um grupo de pesquisadores canadenses descobriu que pessoas bilíngues teriam menor possibilidade de sofrer de Alzheimer. Pensou no pai doente, na degeneração da sua memória, na linguagem rareando, justo o pai, exímio contador de histórias. O pai mais quieto, irritado, confuso, esquecido. Demente.
Não gostava desses adjetivos, lembrava-se do pai ainda robusto e bonachão, que mesmo velho paquerava as caixas do supermercado. Não queria se deparar com o ser semi-inerte sobre a cama, que vez em quando outra se levantava para fazer as necessidades no chão do banheiro, o pai que não o reconhecia quando ia visitá-lo. Queria os olhos do pai cheios de vida quando comprava salames frescos na quitanda ou quando encontrava o biscoito que os filhos gostavam. Renegava o olhar perdido do pai enquanto lhe fazia a barba, tentando em vão conversar sobre coisas banais.
Em toda visita acabava …

Escrevi num dia de muita chuva. E fez sentido.

Eu não aguento mais tanto choro, tanto respingo, tanta água rolando, não aguento mais São Pedro trabalhando, não aguento mais umidade, tanta falta de secura, me satura, não quero mais esse pranto copioso, esse estado pluvioso, não suporto mais o cinza da cidade, navegar mais nesse rio, não aguento essa ansiedade, esse vidro que embaça, essa roupa que não seca, essa garoa ilimitada, não aguento o pé molhado, a poeira que não larga, misturada com a água, vira lama, vira drama, suja todo meu programa, não aguento desviar da poça, do carro que passa, pela poça, eu fico é com essa fossa, dessa lira paulistana, essa ira dessa água, não aguento mais esse rio, esse frio, esse guarda-chuva que extravio, não guento, quero logo um unguento, para esse tempo nunca seco, não aguento sinal fechado, essa saudade, vontade de estar seca, essa enxaqueca, da vida úmida, esse rolar de lágrimas celestial, que me embala e me diz: quero dia de sol, não de sal.

Leitores anônimos

Eu tenho blog há uns 6 anos. Existia uma onda desses diários virtuais e eu decidi começar o meu sem ter muita ideia de como o preencheria. Quando leio meus textos antigos nem me reconheço. No começo ficava bem, bem, bem tímida se alguém queria saber o endereço. Não divulgava nunca. Hoje eu divulgo, espalho links pelos ventos. Perdi a timidez de ter o cotidiano lido, ganhei a cara de pau de espalhar meus segredos por aí. Dia desses, conversando com um colega de profissão lá do Paraná que eu não via há tempos, soube que ele lê meus textos. Um amigo de infância do meu irmão disse a mesma coisa. Minha mãe contou que uma prima distante lê também e, por ironia, eu quase não sei mais nada sobre ela. Por isso me fico me perguntando quantos passam por aqui uma, duas, cinco vezes ou frequentemente e eu nunca saberei. E isso é muito bom. Eu gosto bastante da ideia de ter gente querida passando por aqui, porque a maioria diz que é uma forma de saber da minha vida. Parece que eu dei mesmo ao blo…

O homem-placa

Trabalho por aí, em qualquer sinal, em muitas das esquinas por onde você passa. Certamente você já deve ter passado por mim, leu minha placa, mas não deu importância para o meu rosto. Eu mesmo só vejo minha cara nos retrovisores dos carros parados. Minha cara a tapa é suada e queimada de sol. Esse sol quente que me queima é o mesmo que doura as peles de quem desfruta das piscinas dos condomínios que eu divulgo. Condomínios. É isso que eu vendo. Sei de ouvir falar. Não sei ler. Carrego uma propaganda indecifrável, ilegível, pelo menos pra mim. Como aquelas pessoas que vestem uma camiseta, mas desconhecem o significado da sua mensagem. Eu só sei ler a cara da fome de meus filhos e é para eles que eu seguro. Seguro a onda, seguro o rojão, seguro a placa. Para vender, cada dia mais, mais apartamentos luxuosos, de 2 ou 3 dormitórios, mais apartamentos de 240 metros quadrados, mais de 10 vezes mais que o tamanho do meu puxado. É puxado, sim. Mas sabe que eu penso que todos somos um pouco h…