O homem-placa


Trabalho por aí, em qualquer sinal, em muitas das esquinas por onde você passa. Certamente você já deve ter passado por mim, leu minha placa, mas não deu importância para o meu rosto. Eu mesmo só vejo minha cara nos retrovisores dos carros parados. Minha cara a tapa é suada e queimada de sol. Esse sol quente que me queima é o mesmo que doura as peles de quem desfruta das piscinas dos condomínios que eu divulgo. Condomínios. É isso que eu vendo. Sei de ouvir falar. Não sei ler. Carrego uma propaganda indecifrável, ilegível, pelo menos pra mim. Como aquelas pessoas que vestem uma camiseta, mas desconhecem o significado da sua mensagem. Eu só sei ler a cara da fome de meus filhos e é para eles que eu seguro. Seguro a onda, seguro o rojão, seguro a placa. Para vender, cada dia mais, mais apartamentos luxuosos, de 2 ou 3 dormitórios, mais apartamentos de 240 metros quadrados, mais de 10 vezes mais que o tamanho do meu puxado. É puxado, sim. Mas sabe que eu penso que todos somos um pouco homens-placas, vivemos carregando estandartes de marcas e ideologias, das quais talvez nem compartilhamos, ou entendemos o real sentido. Nem faz sentido. Melhor carregar minha placa pelos dias, sem nem perguntar. E receber meu pagamento. Eu mal sei para quem eu trabalho, mas sei bem quem enriquece. Eu sou apenas um suporte. Eu suporto.

Sou o homem-placa. Cada dia mais placa, cada dia menos homem. 

Comentários

Pedacinho da engrenagem. Arruela. Aquela que tá pra ser apertada. Espanada, por qualquer Zé. Ruela.
Diangela disse…
Tati, esse foi um dos teus textos que eu mais gostei. E olha que você sabe que eu conheço TODOS... hehe

beijos
Michele Matos disse…
Nossa!!!
Tatianaaa...
Concordo com a Diângela.
Klaus Pettinger disse…
Eu nem vou elogiar porque vc não acredita mais nos meus elogios. Sensacional. Ops, escapou...
Gisa disse…
Sempre bom menina

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