Como é que dói ser demais, ser até

Apenas um bocado de vontade. Vontade de te satisfazer. Desde o primeiro concurso de redação. As viagens, a busca pelo mundo, não sem uma foto junto, pra mostrar que fiz. Tudo que fiz é você ali. Sua imagem analisando se está bom. Os livros devorados angustiadamente, as palavras decoradas milimetricamente. As tentativas frustradas de emagrecer seguidas de ataques de fúria à comida que eu sorvia desesperada. Mente. Choro de acompanhamento. Engulo o título nunca obtido de primeira da sala. A mesma garota gorda e desajeitada, que não é bem resolvida o suficiente pra lidar com os apelidinhos da amiguinha má. Sim, eu sou essa gorda baleia e sendo assim, obesa e palerma, eu choro cá. Não, tenho que virar a mão, fazer sofrer. Sou só eu que sofro. Essa menina que permite que os outros a definam ainda existe. E a incapacidade de se fazer definir é a única coisa forte nessa personalidade quebradiça e infantiloide. Não importa quantos portos, quantas fotos, quantos concursos. A maior juíza ainda não deu seu veredicto favorável. O concurso ainda não terminou. Nunca o suficiente bonita, magra, inteligente, esperta, bem resolvida. Não está, nunca estará, nunca esteve. Decepcionei, nasci torta, gorda, descabidamente chorona e até impulsivamente tapada. Nasci do choro de um morto, não à toa nasci sem parar. Chorei sem nascer. Entrego a você o bastão de me dizer quem sou. Sou, mas nunca até, até porque nunca terei atendida a minha expectativa de um pouquinho de amor e não uma atenção frígida, fria e seca, bruta. Choro feito criancinha sem afago. Se essa é a imagem que todos têm da sua, da minha eu não conto, sou órfã desse amor deslavado. Pra mim só sobra a repulsa de ter nascido desajeitada, feia, estúpida e gorda. Não sou nada disso, mas me sobra a vontade de expulsar de mim esse ser que te agride. E não querendo ser assim sendo. A que você diz ainda, com os olhos e com os brados do desprezo, que sou. Só. Sozinha, definha. Aporrinha que pode ser feliz, a porrinha pode ser só bem resolvida, porque assim é um problema a menos. Sou só essa maltrapilha chupando o dedo e pedindo a atenção em forma de afago e palavra bonita e presença e visita e orgulho. Restou pra mim a distância porque é mais fácil manter ilusão de longe. De longe sou esse oásis que você quis pra mim e que nunca contribuiu pra fortalecer. De perto sou só eu etérea, galgando na areia movediça ser a mulher que queria ser e não consigo, porque ainda busco um tantinho de terra firme de amor e força. Pra mim restou a pressa, o desgosto, o pelo menos já que não basta. Tão feia, pelo menos tem os cabelos compridos que não embaraçam. Podia ser mais esperta, mais magra, mais bocuda. Podia saber andar de bicicleta. Ou podia ter e saber mexer numa arma, igual a essa menina que se matou aqui perto. Um problema a menos.

1 comentários:

{ Ana... } at: 20 de julho de 2012 10:39 disse...

Oi, Tati!
Muito bom este eim!
Quando posso, sempre dou uma voltinha por aqui.

Sempre bom demais suas historias!

ih,
então, te mando email, mudei os meus, acompanhei alguns post, não todos os dias.

Bem não sei se rola de fechar, tou com uma net que as vezes tem vontade própria, ou seja, só funciona quando quer.srrs

Bj

 

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