Dos males o metrô


Costumo dizer que Deus deu a dignidade aos homens mas cortou o benefício para quem pega a linha vermelha do metrô. Não acredito em ninguém que me diga ser civilizado pegando metrô naquele fluxo de gente, em dia de semana, horário de pico. Uma vez li que 3 milhões de pessoas se deslocam da Zona Leste para trabalhar e estudar todos os dias. Creio que 95% delas estão no metrô que pego toda manhã. É porque eu moro na última estação antes da Sé, onde desemboca tudo. Então, na minha estação chegam metrôs lotados de outras 11 estações - acredito que as mais badaladas em termos de transporte público.
A primeira vez que peguei (ou melhor, tentei pegar) o metrô na vermelha, entendi o que as pessoas querem dizer com: barbárie. Depois do 5º metrô passar e você não entrar, você espuma. É preciso estar preparado para pegar suas armas e lutar, como gladiadores em uma arena. A luta não é só física, mas também psicológica (já presenciei pessoas usarem palavras de baixo calão a fim de desestabilizar o concorrente). Tenha consciência de que o inimigo pode ser qualquer um. A velhinha, o cara com muletas, a mulher que puxa uma perna. É apenas você contra o resto do mundo.
Ao escolher onde esperar seu vagão, geralmente você não está sozinho. Então, o segredo é estudar seus oponentes. Reza a lenda que quem chegou antes tem preferência. Esqueça. Todos são inimigos, bárbaros inimigos, então, golpes baixos são permitidos. Parada em frente ao vagão, estudo friamente o movimento alheio, enquanto espio de rabo de olho se em outro vagão sai um número consideravelmente de pessoas – o que raramente acontece, mas quando acontece, a ideia é se deslocar rapidamente para aquele local. Leia-se: correr esbaforido. É a sua hora. Não hesito em mostrar às pessoas que estou ali para vencer e entrarei naquele vagão a qualquer custo, mesmo com os olhares raivosos de quem já está ali dentro.
O esquema é muito simples. Sai um entra um. É praticamente impossível entrar em um metrô lá sem que ninguém saia, porque não há espaço suficiente para um mosquito. Por isso, a saída de alguém é sua única chance. Quem está lá dentro, porém, faz parte de uma verdadeira cúpula do mal, tentando maquiar a verdade de que há lugar para um ser vivo e assim relaxa, diminuindo o espaço. Ignore. Seu lugar ao sol, ou melhor, dentro do vagão, é conquistado com muito suor, persistência e cotovelos.
Já vi muita gente surtar esperando o metrô. Num dia tenso, em que passaram uns 12 trens e eu não entrava em nenhum, vi uma menina parada em frente ao vagão do lado se jogar pra dentro. Acontece que lá havia um paredão de gente formado, não havia espaço para viv’alma. Foi meio que um bate-volta. Ela se jogou, deu de cara com as pessoas e voltou. Ninguém nem xingou, ficou meio estarrecido mesmo. No que ela grita: mas é o 4º metrô que passa e eu não entro! As pessoas (lembro-me particularmente de uma senhora) a fitavam com cara de: eeee? enquanto a porta se fechava. Tadinha. Já aconteceu comigo de me apegar a essa tenacidade. Pensei: “entro nesse e ninguém me impedirá!”. Às vezes dá certo.
É que pegar metrô na linha vermelha, assim como a vida, é uma questão de sorte. Já fiquei parada em frente a um mesmo vagão do qual não saía ninguém por 5 vezes, mas insisti nele porque pressenti que ia dar certo, tal qual um apostador viciado que persevera no mesmo cavalo velho. Já consegui entrar de primeira, mas ao invés de me deixar feliz, isso me lembra de que a vida é redonda e que na próxima estação vou me ferrar.
Como disse, moro apenas a uma estação da Sé, portanto, não fico mais de 5 minutos no sufoco. Mas é nesse caminho que está a maior parte da perda da dignidade que mencionei antes. Não se pode ligar se relam em você, porque as pessoas não simplesmente se relam de propósito, elas se transformam num bloco só. Mesmo se um cara for um tarado pervertido, creio que ele não consegue fazer nada nesse trecho. Não há espaço para locomoção. Uma vez estava mandando mensagem no celular quando o trem chegou e fiz menção de continuar escrevendo dentro dele, no que um senhor me olha estremecido. Nenhum movimento, tal qual como erguer um braço ou coçar o nariz, é permitido, pois isso acarretará em uma perda de espaço para o companheiro ao lado. Que caia o nariz de tanto coçar.
Bom, entrar e permanecer são grandes desafios, mas sair é outro capítulo à parte. Basicamente porque entro em um lado do metrô e saio do outro. Como disse, na Sé desemboca tudo, então, querendo ou não você será expelido. No começo eu sentia medo de não conseguir descer, até porque a turba enfurecida está sempre a apenas uma porta de distância atrás de mim e, quando aquela porta abrir meu filho, será como abrir a portinha para o touro. Você é o toureiro infeliz, importante ressaltar. Com o tempo passei a me despreocupar. É só erguer as mãos, dar glória a Deus e esperar ser carregado. Como disse um cara que li, o metrô é tão lotado que se largar um morto em pé no meio da rapeize ele desce na Sé e faz até baldeação.
Mas por incrível que pareça, ao contrário de muita gente por aí, chegar na Sé é meu prazer diário, o meu “sobrevivi” de toda a manhã. Depois do caminho anterior, as estações que me separam do trabalho não são nada. E mesmo nessas condições bárbaras, prefiro o metrô ao ônibus, com o qual não me dou bem. Carro, se soubesse dirigir e tivesse um, também não seria minha primeira opção, porque ficar parada por horas não é comigo. Dos males o menor. Dentro do metrô a gente se aperta, a gente se rela, a gente se une forçadamente, mas a gente escuta histórias divertidíssimas de pessoas ao lado, faz amizades e colegagens, dá risada com algumas situações constrangedoras e, principalmente, torce para que não seja preciso esperar muito tempo o trem à frente. Porque, meu bem, o metrô anda tão lotado que estou vendo a hora de alguém ser ejetado lá de dentro.

4 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 6 de julho de 2012 12:00 disse...

Linha vermelha é um Uruguai saindo e voltando pra casa todos os dias, e não dê boi pros velhos, eles são o que há de pior na maldade metroviária.

{ Klaus Pettinger } at: 6 de julho de 2012 15:25 disse...

Nossa, li tudinho sem piscar, imaginando essa barbárie! Quem não vivencia isso, e nem falo de estrangeiros, não tem noção do que significa! Bom que vc aprendeu a relaxar: "É só erguer as mãos, dar glória a Deus e esperar ser carregado. ".. hahaha

{ Diangela } at: 9 de julho de 2012 19:25 disse...

Alô, Globo! Chama a Tati, vai...

{ Risa } at: 10 de julho de 2012 12:50 disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk, me rachei de rir. Pego na Patriarca e faço parte da massa que já esta lá dentro qdo vc tentam entrar.
Tudo que vc escreveu é verídico kkkkkkkkkk ótimo!

 

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