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Pão quentinho


Se me pedissem para resumir o que é viver em São Paulo, eu exemplificaria com o que aconteceu hoje comigo no mercado. Estava na fila da padaria quando uma moça perguntou sobre o pão francês. A balconista disse que ainda tinha alguns, mas que novos sairiam em 3 minutos. A moça foi comprar outras coisas e voltaria depois. Decidi esperar.
Fiquei observando o relógio no forno piscar em ordem decrescente. Em três minutos dá pra se pensar em muita coisa. Enquanto esperava meu pão quentinho, um rapaz pediu alguns pães. Ainda restavam uns na cesta. Eu toquei em seu braço, apontando para o forno: “em dois minutos e meio tem pão quentinho...” Ele respondeu com um semissussurro e uma risadinha meio “vou sair de perto dessa louca”, enquanto pegava seu pacote de pães passados.
Restou-me refletir por que alguém não se demoraria por pouco mais de dois minutos em troca da felicidade de comer um pão que sai fumacinha. São Paulo é isso. Não se tem tempo para esperar dois minutos, mesmo que esses dois minutos simbolizem um pequeno prazer adicional. As pessoas correm, as pessoas correm atropeladas e esbaforidas, sempre com pressa para dentro de suas mesmas paredes. E um toque e um aviso de um estranho é algo que escapa, obviamente, às quatro paredes, o que resulta em certo espanto.
Pode ser, entretanto, que o pão quentinho não seja uma unanimidade e sim apenas meu pequeno prazer. O meu comercial de margarina, sabe? Aquele deleite um pouco inconfessável, porque há tanta coisa pra se desejar, coisas materiais de encher os olhos e a boca e os bolsos e meu projeto de felicidade se resume a um pão quentinho. “Qual é seu último desejo? Um pão recém saído do forno”. Sou eu criança e aquela fornada saindo, aquele pão caseiro, de vó, de tia, o cenário de uma fazenda, se não me engano. A manteiga derretendo, a casquinha crocante, o desmanche na boca. Sou esse pão quentinho, é ele essa minha lembrança.
Com meu pequeno tesouro em mãos a caminho do caixa, entendo logo porque São Paulo não espera dois minutos pelo seu pão quentinho. Entre o ter e o desfrutar do pão são muitos e muitos outros minutos na fila do supermercado, outros muitos no trânsito, mais alguns no elevador e, no final, o pão nem quentinho está mais. Mas não importa. Carrego meu pequeno trunfo nos braços pelas gôndolas e dispenso a cestinha para deixá-lo junto ao corpo. Prezar por ele, pelo pão quentinho, talvez seja uma das minhas resistências de garota interiorana, das quais me dou ao luxo na selva de pedra.

Comentários

Gisa disse…
Meu pequeno prazer é ler seus textos bjo
Michele Matos disse…
E tenha como meta toda vida esperar pelo pão quentinho, mesmo que se mude pra nova York =)

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