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Hoje levei um cuspe na cara


É sério. Estava andando na rua, sozinha, às duas da tarde e levei um cuspe na cara. Tão engraçado como deve ser para você ler isso foi assustador para mim passar por isso. Surreal e nojento para leitor e autor. Aconteceu muito rápido. Estava passando por uma rua simpática e florida e um cidadão veio de encontro a mim do outro lado da calçada. Dei um passo para o lado no meio da caminhada e ele deu para o mesmo lado. Foi quase perto que notei que não ia escapar. De um ataque, um assalto, tome aqui meu celular seu moço, meus cartões, meu colar de capim dourado. De um estupro, assim, tão de dia, como que pode. Não. Foi um cuspe. Ele não me encostou um dedo, não me bateu, nem empurrou, não me arranhou. Me cuspiu, com os lábios, não um cuspe escarrado, nada de catarro. Mas choveu saliva em mim. É isso, foi um cuspe chuva.
Atônita, como estou até agora, continuo embasbacada com o descaramento do sujeito que passou por mim e me lançou a cusparada. Olhei para trás e ele andava tranquilamente, como se nada tivesse feito. “Ridículo”, foi só o que consegui berrar à distância. Estava tão atordoada que nem todas as sílabas saíram. Lembrei da minha mãe dizendo para mim e para meu irmão crianças que cuspir na cara era a pior falta de respeito com uma pessoa. Judas cuspiu na cara de Jesus, ela falou.
Confesso, eu queria minha mãe comigo ali. Muito embora ela fosse rir de mim no início, como você deve estar fazendo, a minha vontade era mesmo alguém ensinar àquele sujeito bons modos, os mesmos que aprendi quando criança. Eu, que nunca cuspi na cara de ninguém, fui ser cuspida, fui receber esse emblemático sinal de desprezo de um desconhecido.
O Rubem Alves certa vez filosofou sobre o cuspe, representativamente masculino, vide à clássica semelhança com a ejaculação. Meninos cospem desde crianças pelas ruas. Quando homens desprezam seus jatos de saliva onde querem e quando tem vontade. É viril. Às meninas cabe o olhar de nojinho. Vira-se a cara. Eu não tive tempo de virar a minha e recebi na cara o desprezo, a galhofa, o desconto ou qualquer outra coisa desse moço.
Seria um doido varrido, vagando pelas ruas? Seria eu a cara (sou sempre a de alguém, nunca a minha) de uma ex-namorada que o trocou por outro? Será que ele não foi com minha cara? Ou achou que eu parecia a Geni, boa de cuspir? 
Tenho uma teoria que esse mundo está cheio de bandidos de ocasião. Não são assaltantes, estupradores, agressores em tempo integral. Atacam quando percebem uma oportunidade. E eu sou uma típica oportunidade. Menina, sozinha, quase sempre distraída. Pensei nessa dura condição de ser mulher, vulnerável sim, não venha me dizer que não. Mulheres são atacadas com frequência muito maior, têm mais medo, pagam mais para morar em lugares potencialmente seguros, sofrem mais assédio, porque são vítimas em liquidação.
Eu levei um cuspe, poderia ter perdido muito mais que uma parcela de dignidade. Mesmo depois de lavar o rosto, mesmo depois do banho, aquele cuspe ainda está em mim. Entender não entendi, mas raiva não guardei. Tenho é dó. Dó de quem não teve mãe para ensinar o que é falta de respeito.

Comentários

Finito Carneiro disse…
Devo dizer-lhe que foi deveras engraçado, mas a atitude do rapaz foi de extrema falta de respeito mesmo.

Ele poderia ao menos ter voltado e entregado um lenço.
Como eu gostaria de esmurrar esse fulano.
Felipe Lários disse…
E justo no mes que vc falou sobre cuspes bem cuspidos no blog dos 30!

Que absurdo essa historia!
Bola, o André disse…
é certo que não se deve bater em ninguém, não é Du??

Mas tem vezes que não é a gente que está batendo, e sim o outro que está apanhando. Tem gente que merece umas porradas bem dadas. Se o instrumento de justiça for nossas mãos, ok!!!

E continuo contra a violência, inclusive de salivas!!!
Anna Carvalho disse…
Eu concordo. Passei isso contigo outro dia e o cuspe me chocou mais do que os palavrões...
Jorge Mello disse…
Acho que tem mulher que merece essas atitudes por parte de um homem, pois não tem um pingo de dignidade,alguma coisa ela fez parte merecer isto.

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