Fosse minha


Eu não sou daqui, eu não sou aqui. Eu estou aqui. Há uma sutil diferença entre essas três sentenças. O paraíso de alguns, a correia nostálgica de outros, para mim é apenas a parada na minha rota. O tempo de rever quem fui, mesmo sendo tão difícil de me reconhecer nas ruas reformuladas, nos pontos de referência que conflitam com meus retratos.
O calçadão, batizado assim pelas antigas pedras brancas e pretas dispostas lado a lado, virou uma rua qualquer. Pergunto na loja de botões onde encontro uma presilha, ela me aponta e pergunto: “no calçadão?”, denunciando minha idade. Ninguém vai colher todas as lembranças que deixei impressas ali, nas pedras que já não contam mais histórias. Alguns anjos me roubaram o coração nesses e em outros bosques chamados solidão.
Mas, ao contrário do que se poderia supor, não são velhas as minhas lembranças e novos os caminhos que aqui traço como estrangeira. São os portões de ferro de agora que desafiam os ardilosos feitiços do tempo. É a pintura recente da porta de uma casa vizinha que agora mesmo está carcomida. São as tinturas descascadas, os forros vencidos, os vidros estilhaçados, a vida desgasta. A cidade, toda ela, envelhece em mim.
Mesmo jovem envelheço pouco a pouco no meio desse punhado de lembranças corroídas. Pulo meses ao voltar e sinto o peso dos saltos, a cada salto sou mais longínqua, pisco um olho e a cidade já envelheceu de novo. É o reflexo do meu passamento. Jovem o céu era um pouco mais azulado e as paredes mais coloridas. (o mesmo céu e as mesmas paredes que me empurravam pra longe pelo seu desbotamento). Hoje surpreendo a retina com esse mesmês estranho da paisagem apática, mas mesmo amarelada, por ser natal, me celebra, me prende, me atiça.
A paisagem que me esqueceu me convida sutilmente para ser dela, para sê-la. Não, arre! Envelheceu. Passou sua hora. Inquietas as janelas míopes que sempre carrego me pedem vigor novo. O nariz reclama, é ele que entope com o pó. Do pó, este pó estrangulador de negritude, não sairei, por enquanto. Para o pó, este pó duro e carregado do sotaque vencido da minha infância, não voltarei. Não volto. Quem me diz se não volto. Quiçá, chi sa?

“Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem”

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