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Não sei mais ralar joelhos

Esses dias eu caí na rua feito fruta madura. Derrapei na sandalinha sem salto e fui direto pro chão. De primeira machuquei a mão, um tiquinho do dedão e o joelho. Esse sim, feio. Arranquei a tampa do coitado. Como sempre me ocorre nessas situações, fingi que estava ótima e saí andando o mais natural possível. Ainda ouvi um: “tudo bem, moça?”, respondi meio no sussurro e tratei de sumir. O sangue logo coagulou, quando deu parei para lavar com água e sabão e comprei uns curativos. Achava que estava tudo bem, até o danado do ferimento começar a cicatrizar. Coça, dói, arde, tem uma área em torno da ferida que fica quente, igual uma febrezinha. Hoje nasceu uma pelinha por cima feia, molenga. Sinto dor pra subir escada, quando paro em uma determinada posição e saio andando, dói pra valer, como se a pele estivesse sendo repuxada. Lateja sempre. Não entendo como pode incomodar tanto. Poxa, eu fui uma criança ativa, ativamente arteira e ralei inúmeras vezes meus joelhinhos. Não lembro desse processo, não lembro dessa chatice. Pra mim, ralado de joelho virava casquinha quase que instantaneamente, casquinha que eu insistia em tirar, para desespero da minha mãe, que não queria me ver com marcas. Eu não sei o que mudou. Se meu organismo pré-envelhecido está demorando mais para cicatrizar a ferida ou se minha memória está me enganando sobre meus tempos (e prazos) de criança. Mas dizem que machucados infantis curam mais rápido mesmo. Isso explica muita coisa. A raiva dos coleguinhas durava o tempo do recreio, um pouco menos. A mãe deixava a gente de castigo por um dia, uma semana se a arte tivesse sido grande de verdade. As preocupações não duravam, não existia o para sempre. Semana de prova tinha no próprio nome assinalado o tempo certo para acabar. Com a prova e com nosso martírio. Sendo assim, exijo de volta meu corpo, minha capacidade regenerativa, minhas raivas com horas contadas, minhas preocupações com fim assinalado. Quero meus joelhos com casquinha. Logo!

Comentários

E naquela época você não bebia também, nem tudo é romance.
Tatiana Lazz disse…
Quem vê pensa que eu bebi pra cair né? Só caí porque o senhor me apressou! Haha
Michele Matos disse…
E quanto mais velha a gente fica, mais demorado é o processo de cicatrização. Que injusto! Mas tirar casquinha ainda é divertido.
Ótimo texto! Li todos os que estavam pendentes. Escreve um livro logo!
Unknown disse…
Adorei Tati! bjss

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