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Ora

Eu não quero buscar em mim o que te falta
Porque nessa procura desenfreada perdi o prumo
De ser assim e de afogar meu karma
Somos dois incompletos e incompreendidos
Mas assusta-me você ter esse raciocínio certo
Ser coerente no que acredita, no que sente
Pois dá na mesma medida que exige
Pois quer ser visto no que não mente

Sua coerência me assusta porque não a quero mais
Como absoluta, tenho cá dentro uma verdade
Abrupta, que surta, insulta a conclusão dos finais
De ser sempre esta insana, eterna imbasta
Com a lista de defeitos vasta, com a de desejos curta
Assume as culpas, as minhas, as tuas
Cede as rédeas, rege o rastejo, se desgasta
Se culpa, se mata e não basta

Eu quero é transbordar, ultrapassar a borda
Passar por cima do que basta, de toda a bosta
Fluir em primeira pessoa, singular ou plural
Ser a mesma certeza quando dorme e quando acorda
Quero saber que tenho você ali, ao lado
Ao lado, disposto, talvez mudado
Teu orgulho me fere, me envenena
Tua boca vocifera, sou ora convicta ora pequena

Grande é o rio que observo, turbulento
Observo enquanto o encho com meu desalento
Procuro uma resposta, e a quero agora
Mas a água é turva e grossa, me suja
Quero a paz de um rio claro, sereno
Para deitar-me na beira e ver-me em seu reflexo
Sou eu ali, mas vista de fora, de longe, sem nome
Sou eu aqui neste silêncio e a sua voz que some

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