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Mostrando postagens de Janeiro, 2012

Desvairada

Sempre imaginei que a felicidade estaria em uma cidade sem fim. Sem tédio, sem rotina. Uma cidade inteira a ser desvendada, um sem fim de descobertas. Não sei ao certo a data que comemoro meu aniversário em São Paulo, sei que foi mais ou menos nessa época, há um ano, que cheguei assim, com a mala mais pesada na mão e a vontade de aprender os mistérios da megalópole mais pungente que poderia sonhar em morar. Daqui a uma semana, talvez por coincidência, São Paulo faz 458 anos e já me deu mais motivos que sua quantidade de velas no bolo para ficar. Vez ou outra descubro o cheiro de São Paulo, aquele odor que nos faz retomar de imediato alguma coisa. Um cheiro de terra molhada que me anuncia a chuva, o perfume forte e doce de uma prostituta que um dia entrevistei num posto de gasolina e que ora sinto quando uma mulher passa por mim, o sabonete de mel que meu pai trazia do Paraguai. Não. O aroma que me impregna em São Paulo é o do pingado e o do pão na chapa. Das muitas padarias por onde pa…

As maçãs, o ponto azul e nossas formas de pensar

No mundo existem 7.500 variedades de maçã. Aprendi na lâmina da bandeja do McDonald's. Aliás, aprendi hoje que aqueles papéis se chamam lâminas de bandeja. O fato é que eu adoro maçã. A gala e a fuji, bastante. Da argentina eu não gosto. É, aquela mesmo, pela qual o povo paga caro. Para mim a casca tem gosto de papel, artificial.
Pensando nas maçãs eu pensei em tudo que existe aos montes por aí e a gente desconhece. No mundo em que nos inscrevemos, circundamos uma linha em volta e, assim, no que tratamos de conhecer dentro desse espaço. Limitado, claro. Sem negativismo, não somos nômades nem anormais para conhecermos o mundo inteiro, para nos jogarmos numa aventura sem precedentes para devorar tudo. Além do que, quanto mais nos distanciamos em busca do outro, nos privamos de conhecer (ou conhecer mais) o que está bem debaixo do nosso nariz. Cada escolha uma renúncia, esse eterno paradoxo.
Embora seja impossível conhecer o mundo todo, tenho a abafada ânsia de conhecer o máximo que…

Pouco ortodoxo

Disciplinada está longe de ser minha característica número um. Geralmente sou esforçada e determinada quando o objetivo é em curto prazo e possível, assim, ao alcance das mãos. Sou péssima com aquilo que exige de mim uma dose de disciplina permanente. Por isso nunca consegui passar o filtro solar no rosto conforme recomendado, vivo num efeito sanfona e contrario todos os conselhos de revista de saúde, moda e beleza.
Foi só há um tempo que descobri como contornar isso. Pode parecer pouco ortodoxo, mas transformei médicos e afins em carrascos mentais. Tortura psicológica? Talvez. O fato é que naquele momento em que eu sobressalto de um semicochilo na cama e digo para mim mesma: "ah, só hoje eu não vou limpar o rosto antes de dormir, não fará diferença", vem a minha mente a sobrancelha arqueada da minha dermatologista como a me questionar: "tem certeza?". Levanto e vou, afinal, os produtos custaram uma fortuna. O mesmo com a preguiça esporádica de passar o fio dental,…

A cobra grande

Vi a jiboia pelo vidro. Ela estava quieta, me olhava de um jeito parecendo sorrir. Eu estava dentro da casa, ela fora, num jardim, ou matagal. Tive medo dela, passava pelo corredor onde estava a janela sempre correndo. Falava para os outros com temor, atordoada. Ela nunca vai sair dali, nunca vai entrar aqui, me diziam. Uma hora espiei e parecia não acreditar. Ela estava entrando por uma fresta, rastejando-se para dentro. Olhei nos olhos dele com aquele pânico misturado com: e agora, nego? Pois é, ela entrou. Me vi caída no chão e enrolada por ela, sem poder fazer nada. Sozinha, imóvel, conivente. Nem pânico tinha mais. Era só certeza. Certeza que ela tinha vencido. A cobra, com os olhos grandes e gélidos, olhando para mim com expressão fria enquanto me enrolava. Enquanto me vencia. Acordei sobressaltada, enquanto ele dormia tranquilamente.
Ela não vai entrar aqui, você tem razão. Meu medo não irá me vencer e, enquanto ele for pequeno, continuarei agindo tranquilamente, como os outros…