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Descoberta

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Descobri que há uma fragilidade em estar gripada que me fortalece. Há alguma coisa na voz fanhosa, nos espirros constantes, na dor no corpo que me faz pequena, carente de colo, de atenção. Há alguma coisa no fato de estar gripada, nariz cheio, olhos inchados e noites mal dormidas, que me lembra da minha pequenez, de que não sou aquela fortaleza que pretendo – ou preciso – ser. Essa provocação do meu corpo comigo me lembra que minha autossuficiência conflita com a menina que pede arrego.
E não há coristina que cure manha, não há amor que resista a tanto dengo.
E quando eu insisto em dizer que estou quente, mesmo não tendo frio, mesmo nunca tendo febre, ele pega o termômetro e no caminho desliga o ventilador, indispensável em suas noites de verão.
E nem pede para que eu me cubra, aguentando o vento.
E se derrete feito vitamina C efervescente me fazendo cafuné.
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É culpa das bugigangas

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Não é minha culpa, doutor. Eu estou ali, quietinha, olhos vagos no infinito e de repente acontece algo assim, pequenininho. Pode ser uma briguinha, uma raivinha, uma provocaçãozinha, uma enganaçãozinha e pronto. Bastou isso para aparecer por um vão daquela cortina uma quinquilharia. Um bibelô antigo, com a pintura meio comida, pode ser num formato de gato com uma orelha quebrada, pode ser um porta-trecos sem um pedaço. Fico olhando aquela bugiganga de relance até ela me incomodar de vez, afinal de contas ela não deveria estar aparecendo, espiando-me por detrás da cortina mofada. Essa tralha enxerida, doutor, não poderia estar aparecendo, porque, oras, eu a escondi bem escondidinha atrás da cortina. E é atrás dela que eu vou tentar esconder de novo, até que me embanano toda e a cortina toda cai, mostrando aquele montão de parafernálias que a gente vai juntando com o tempo. Todas essas coisas que ficam nas gavetinhas da memória, nas estantes da minha experiência, nas prateleiras da minha vivência um quarto de século gasta. Ah, doutor, eu já nem sei se essa cortina do meu consciente é suficiente para tampar essa quinquilharia toda, eu bem deveria era quebrar tudo a marretada, mas esses cacarecos são minha bagagem, fazem parte de mim, o senhor compreende? Ei, doutor, me arruma alguma coisa para eu abrir a cortina devagarinho, espiando de relance minhas coisas gastas até redescobrir tudo com olhos de menina, que descortinar brusco me embrutece. O senhor me entende, doutor?
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Ton soleil, ta braise

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Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Também tenho amigos contraditoriamente conformados (não posso chamá-los apenas de conformados, porque essa palavra não pode estar nunca sozinha. É feia. Ninguém realmente se conforma – nem se conforta – nesse mundo em que vivemos). Então, tenho amigos dos dois tipos. Aqueles que me confortam, por eu não estar sozinha nessa agonia de ter muito mundo no mundo e, por isso, não querer ficar parada por muitos instantes. E há aqueles que me mostram justamente o contrário, a beleza de ficar parado e experimentar a felicidade serena e singela de trabalhar por mil anos no mesmo lugar, morar numa cidade pacata, casar com um bom partido, ter um filho, comprar uma casa, sem por isso precisar morrer para o restante.
Fernando é do primeiro tipo. E na sua inquietude ele me arranca a tapas meu próprio desespero. Fernando, como eu, quando perguntado “como está?” não diz apenas “bem” ou “mal”. Responde: “então...”. E aí seguem suas divagações. A gente nunca está bem ou está mal. A gente tem “entãos”. Da última vez que conversamos, numa longa caminhada entre Leblon e Copacabana, falei a ele de um poema A Casa Branca A Nau Preta, do outro Fernando, o Pessoa, que resume bem esse meu estado de espírito:

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Fernando, o Pessoa, fala bem alto dentro de mim. Já chorei muito com seus poemas. Nos meus delírios mais nonsense, quis encontrá-lo no polo Álvaro de Campos para perguntar-lhe: “isso passa? e daqui mil anos, será que isso passa?” Porque é difícil ser assim. Meus amigos do segundo tipo devem me tirar para louca mas na minha frente dizem achar o máximo esses meus rompantes de me largar no mundo. De querer um porto sem fim. Às vezes eu trocaria tudo por ser contraditoriamente conformada, por ter objetivos de vida bem traçados e, principalmente, um facho bem sossegado.
O que mais me intriga na inquietude de Fernando, o amigo, é que ele parece não ter encontrado ainda o que o move, o que o guia, o que o incendeia. Seu sol, sua brasa, como diz a música do Chico Buarque. Também me encontro nesse estágio. Falo isso em relação a profissões, a projetos de meter a cara e tocar com rufar de tambores. Mas já evoluímos muito. Há uns dois anos, nos encontramos fazendo apostinhas, com um riso meio nervoso, tentando empurrar para o outro a derrota de se enraizar na cidade que não nos confortava (nem conformava). Saímos.
Tenho amigos inconformados, graças a Deus. Porque é para eles que concentro meus melhores desejos de felicidade. O desejo de que encontrem seu sol, sua brasa, mesmo que seu sol e sua brasa sejam uma procura sem fim. Porque tem gente que se conforta em não achar nunca. Tenho amigos a quem enviar os melhores desejos, esperando que um dia eles, os desejos, voltem a mim quando eu precisar de uma tocha ardente e um sol guiando meus passos em busca da minha própria evolução.
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