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Receitas

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O amor - pensou ela enquanto enfileirava os pedaços de peixe sobre as batatas pré-cozidas - é igual fazer comida. Eu, por exemplo - continuava pensando, ao chuviscar de sal o peixe - nunca fiz peixe assado, mas estou aqui testando a receita da tia da barraca da feira, sem saber se vai dar certo. Se errar - ela refletia - eu mesma me darei um desconto, afinal, é difícil acertar de primeira. Na segunda a gente lembra do que fez na primeira receita, repete o que acertou, dosa melhor o que errou e assim - concluía ela, picando a cebola em rodelas e os pedaços de tomate para cobrir os filés - vamos aperfeiçoando e, quem sabe, entendendo do riscado. Pode ser que eu precise ligar para a mãe - refletia, picando o cheiro verde e terminando o colorido na travessa – pedindo maiores detalhes sobre em que momento deve entrar o papel alumínio, mas, mesmo com conselhos de um ou de outro, quem está com a mão na massa sou eu e serei eu a colher os louros ou amargar a derrota do prato mal feito. E assim – finalizava ela, pingando o azeite por cima de tudo - cozinhar é como amar. Ninguém precisa testar a mesma receita infinitas vezes, da primeira para a segunda já se evolui um bocado, além do que, tem receita que nem dá certo na nossa mão, sendo melhor alterar os ingredientes. Tem gente que cozinha sem receita, tem gente que erra no mesmo relacionamento até acertar, sem preciso trocar de par. Não há um só ser que possa dizer que não sabe cozinhar, assim como não existe ser humano sem capacidade para amar – ela arrematava, colocando a forma dentro do forno pré-aquecido – porque amar e cozinhar é desse jeito assim. Intuitivo.
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Paradoxo da mulher moderna

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É quando você decide comprar um pacote de tratamento estético para eliminar a barriga porque o site de compras coletivas está com uma promoção super em conta, que pode ser parcelada mil vezes no cartão. Mas como nem tudo é um abdômen durinho você só consegue marcar a primeira sessão para 6 meses depois e no seu horário de almoço, porque você trabalha 9 horas por dia e depois do expediente a clínica já fechou. Aí você avisa no trabalho que vai dar uma pequena atrasadinha, sai botando os bofes pra fora, se joga no metrô, cai no lado errado da Paulista, acha o prédio, faz cadastro na portaria, entra, preenche uma ficha interminável, e quando é finalmente atendida passa 40 minutos sentindo os “valorosos” efeitos daqueles aparelhinhos de ET no seu corpo. Veste-se correndo, sai esgualepando-se Paulista afora, chega na rua do trabalho ultrapassando mais de 20 minutos do seu horário de almoço e pra não ficar com a barriga vazia e pra não atrasar mais meia hora engole um salgado, enquanto manda sua gastrite calar a boca.
E fim.
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A moeda

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Tenho um senso de justiça que às vezes me perturba de tão chato. Um senso que se ofende quando vê coisa errada acontecendo, que se incomoda também quando o alvo da injustiça sou eu. Nesse caso ele se incomoda tanto que teima até em me fazer chorar.
Descobri que meu senso de justiça está impresso em um lado da minha moeda. Sim, eu tenho uma moeda, com a qual eu faço minhas negociações, com a qual eu pago meus honorários, com a qual eu recebo o que tenho de crédito mundão afora.
Do outro lado da moeda – e como tudo na vida o outro lado costuma ser inverso – está a leveza, a leveza da qual eu quase nunca consigo lançar mão. Deve ser coisa da idade. Dias desses fui à médica e ela me perguntou como anda meu grau de estresse. Pergunta estranha para quem mora em São Paulo, cidade das pessoas e suas cabeças de panela de pressão. Respondi que me estresso muito, que brigo quando as coisas me incomodam a ponto de o sangue esquentar o rosto. Ela disse que “também era assim”. Minha chefe já me comparou com ela também, mais jovem. “Com o tempo, a gente aprende a ser leve”, elas resumiram.
Percebi a diferença entre as minhas duas faces da moeda em outro episódio, em que me irritei com a estranha mania que os covardes têm em se exprimir nas redes sociais. Sob o falso pretexto de precisarem opinar sobre tudo, saem por aí soltando farpas em formas de indiretas, sem se preocupar se magoam covardemente atrás da cortina do “só estou dando minha opinião”. Criar um perfil, para alguns, é tirar porte para atirar palavras vazias contra o vento. Algum idiota pode pegá-las e aí o objetivo – se é que existe algum – é alcançado. Prazer, eu sou a idiota. Me achei injustiçada, porque algumas palavras me feriram, mas não entendi o porquê, o porquê de alguém querer ofender de graça, protegido sobre um pseudoanonimato e uma pseudoefemeridade – característicos da rede.
Meu senso de justiça me esquentou a cara e me deixou lavada em lágrimas. Foi aí que precisei da ajuda de dois amigos para me lembrar da leveza. Da leveza de pegar dos outros apenas o que faz bem e não aceitar o que não for bom. De usar o lado da moeda destinado a fazer os planos darem certo, de trilhar os caminhos sem discórdias ou mágoas. De ser leve, empregando energia naquilo que vale a pena e flutuando sobre as adversidades e pequenices – de pessoas a situações.
Não vou deixar de me ofender quando a injustiça for maior que a decência. Não deixarei de achar que falar bonito é quem fala com interlocutor, caso contrário não é bonito, é covarde. Continuarei esperando bom senso, principalmente das pessoas que também exigem bom senso em suas relações. Prometo, entretanto, não me deixar abalar tanto. Não precisa ser cara ou coroa, simples assim. Mas quando as adversidades vierem, posso optar pela leveza como antídoto ao sofrimento.
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Coragem, o cão covarde (Diangela Menegazzi)

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Hoje eu li um texto lindo, de uma amiga igualmente linda que não tinha onde publicar seu texto. Ofereci o espaço, o texto realmente vale a pena. É a primeira participação especial no blog e eu fico contente de ser ela. Queria escrever mais, mas hoje o texto não é meu. Com vocês, Diangela Menegazzi.
***

Coragem, o cão covarde

Cresci dormindo no mesmo quarto que minha irmã, um ano mais velha que eu. Dormíamos num beliche. Ela em cima, porque sobrava valentia. Teve que aceitar dormir com a luz acesa por vários anos, eu tinha medo do escuro. Era ela que me defendia dos monstros imaginários e amenizava a intensidade dos meus soluços quando estávamos longe da mãe. Tinha medo de fantasmas, e do cara chamado coisa ruim, achava que algum dia seria assombrada pelo garfinho dele. Apesar disso, tinha valentia pra brigar com crianças na rua e enfrentar todos os meus primos. Em filmes de terror e suspense, sempre passava a maior parte do tempo com olhos e ouvidos fechados, mas anos mais tarde me autodenominei ateia. Sempre tive medo de alturas, mas um dia saltei de paraquedas. Nunca me achei bonita, e mesmo assim raspei o cabelo. Ouvi exclamações de coragem, mas só porque eles não sabem que ainda subo as escadas correndo com medo do que me espera atrás.

Diangela Menegazzi
diangelam@gmail.com
@ysemueven
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μάθημα

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- Eu estou certa.
- Eu estou certo.
Acho incrível como não podemos perceber que a vida não é matemática. Dois resultados diferentes podem estar certos. Se eles estão certos quer dizer que simbolizam, para cada pessoa, o seu resultado particular. E de particularidade em particularidade, vamos somando as diferenças. Lindo, não? Na minha prova real não deu certo. Tentei somar e ficou alguma coisa faltando, alguma coisa sobrando. Uma particularidade ao fundo gritando: espera aí, que eu não fui incluída nessa somatória! Então vem! Não vou, não vou porque não concordo.
Não sou boa em Matemática. Ela é perfeita demais, portanto complexa demais e eu resido numa abstração simplificada. Está tudo ao avesso, hoje te odeio, amanhã te sinto amor, não suporto mais, vem para cá, quero ir embora, acho lindo isso de ficar. Para mim essa roda viva é compreensível. Raciocínio lógico não.
O que é mais absurdo nessa coisa toda é que nesse gira-girar eu compreendi algo. Uma epifania, não tem isso em matemática. Aprendi que não tem certo nem errado, tem a somatória possível e a impossível. Melhor, tem a somatória possível agora, a impossível agora, mas possível logo mais adiante, a impossível sempre e a possibilidade que baila entre o agora e o adiante que a gente vai tentando descobrir se é ou não é a vida inteira, como um objeto de estudo que a gente elege para todas as pós-graduações.
- Par!
- Ímpar!
Somaram os dedos e deu um número. Sempre dá, malandra matemática. Deu ímpar. Não mais um par.
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Paredes

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São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam várias chaves de uma mesma casa
                que abrigam gritos e portas batidas
                que abrigam um sofá cama na sala
                que abrigam caixas de pizzas vazias.

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam uma janela bem fechada
                que abrigam um closet lotado
    que abrigam um vendaval de papelada
    que abrigam ares condicionados

São Paulo tem 4 paredes
                que abrigam seres claustrofóbicos
                que abrigam olhares para o lado
                que abrigam toneladas de tóxicos         
                que abrigam um trânsito sufocado

São Paulo tem 4 paredes
                que brigam com filhos aninhados
                que brigam com tenros abraços
                que brigam com machucados curados
                que brigam com favores desinteressados
Uma das paredes costuma ser cinza

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