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Em nome do pai

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Folheou o jornal em busca das últimas do futebol e se deparou com a nota, quase imperceptível no canto da página. Um grupo de pesquisadores canadenses descobriu que pessoas bilíngues teriam menor possibilidade de sofrer de Alzheimer. Pensou no pai doente, na degeneração da sua memória, na linguagem rareando, justo o pai, exímio contador de histórias. O pai mais quieto, irritado, confuso, esquecido. Demente.
Não gostava desses adjetivos, lembrava-se do pai ainda robusto e bonachão, que mesmo velho paquerava as caixas do supermercado. Não queria se deparar com o ser semi-inerte sobre a cama, que vez em quando outra se levantava para fazer as necessidades no chão do banheiro, o pai que não o reconhecia quando ia visitá-lo. Queria os olhos do pai cheios de vida quando comprava salames frescos na quitanda ou quando encontrava o biscoito que os filhos gostavam. Renegava o olhar perdido do pai enquanto lhe fazia a barba, tentando em vão conversar sobre coisas banais.
Em toda visita acabava na cozinha para fazer um café ou outro pretexto para chorar pelo pai que já não tinha, pelo pai degenerando-se em vida. Mas com o jornal em mãos pensou que teria o poder de fazer algo, algo cientificamente comprovado, ao invés de assistir à doença vencê-los covardemente.
Sabia, é claro que sabia, que não conseguiria transformar o pai em bilíngue, o pai que não arranhava uma palavra do idioma do Tio Sam. Tinha consciência de que ele já estava doente, portanto, o bilinguismo não surtiria qualquer efeito. Mas uma família inteira é capaz de adoecer junto com um paciente, a ponto de um fiozinho de esperança dominar todo raciocínio, desafiando qualquer lógica.
Comprou um quadro negro e algumas cartelas. Foi visitar o pai, ansioso. Falava bem inglês, oito anos de cursinho, todos por insistência da mãe, que pagava as mensalidades do próprio bolso. Entrou no quarto disposto a enfrentar o olhar vago e o saudou: “Good morning, Mr. Freitas! How are you?”.
O pai reagiu da mesma forma de sempre, naquele abismo insondável, recluso em pensamentos que ninguém ousaria supor quais eram. Decidido, o filho pegou a primeira cartela. “Apple... Lembra-se, pai, daquela vez que roubamos maçãs da cesta da cozinha, para testarmos nossa catapulta? A mãe ficou puta. Ia fazer compota, ou algo assim...” O pai olhava para a janela, soltou um grunhido. “Apple, can you say it, dad?” Silêncio.
This is a bear.” E riu. Lembrou-se do pai dizendo a ele que ursos de pelúcia eram coisas de menina, enquanto ele chorava abraçado ao Teddy. “Teddy is a bear. Do you remember, dad?”. Largou o urso e trancou-se no banheiro. O pai ria e só foi se preocupar quando o menino não saía por nada, nem quando mentiram que a irmãzinha tinha afogado o Teddy no tanque. Saiu horas depois do banheiro, olhos vermelhos, dizendo que queria um avião.
The plane is blue”, disse, apontando na cartela o aviãozinho com olhos e sobrancelha. Recordou-se do dia em que o pai viajou de avião pela primeira vez. Sentiu medo de perdê-lo. Desenhou a família em um papel e colocou no bolso do pai, que, quando viu, bateu no filho desesperadamente, dizendo que não queria despedidas, ninguém ia morrer. O filho chorou, sem entender a surra, sem entender que o desespero de quem batia era pelo medo da viagem, um homem feito, de barba e bigode, tremendo de medo, sem poder chorar.
O pai murmurou, apontou para o avião. O filho repetia: “the plane is blue, dad”, “the plane” e chorava, pensando na disparidade de alfabetizar o pai. Homem grande chorando, filho ensinando o pai a falar com cartelas infantis, uma pesquisa idiota que alimenta a fé de alguém ousar reconstruir, com algumas palavras em inglês, os neurotransmissores de um doente, alguém que não consegue mais lembrar, pensar, falar. “Idiota!” Jogou as cartelas no chão, esmurrou o quadro negro e ficou em pé olhando o jardim pela janela.
Viu a mãe, envelhecida mais de dez anos por causa da doença que não era dela. A mãe arrumando de forma maníaca o jardim com flores que o marido gostava, as flores que ele não conseguia mais apreciar. Olhava a cena e se via ali, em uma vida inteira tentando arrancar do pai a atenção. Primeiro criança, para merecer ser filho de um herói, depois adulto, buscando recuperar do ente querido a consciência, a reação qualquer que seja. O pai imponente prostrado pela rasteira do tempo, pela irreversibilidade do diagnóstico.
Tratou de ir à cozinha tomar alguma coisa quando ouviu o pai balbuciar: “é-pa-al”, olhando o desenho da maçã caído ao chão. O filho, como louco, beijou a testa do pai incansavelmente e chamou a mãe aos berros, perguntando pelas ferramentas. Construiriam, naquele dia, outra catapulta.
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Escrevi num dia de muita chuva. E fez sentido.

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Eu não aguento mais tanto choro, tanto respingo, tanta água rolando, não aguento mais São Pedro trabalhando, não aguento mais umidade, tanta falta de secura, me satura, não quero mais esse pranto copioso, esse estado pluvioso, não suporto mais o cinza da cidade, navegar mais nesse rio, não aguento essa ansiedade, esse vidro que embaça, essa roupa que não seca, essa garoa ilimitada, não aguento o pé molhado, a poeira que não larga, misturada com a água, vira lama, vira drama, suja todo meu programa, não aguento desviar da poça, do carro que passa, pela poça, eu fico é com essa fossa, dessa lira paulistana, essa ira dessa água, não aguento mais esse rio, esse frio, esse guarda-chuva que extravio, não guento, quero logo um unguento, para esse tempo nunca seco, não aguento sinal fechado, essa saudade, vontade de estar seca, essa enxaqueca, da vida úmida, esse rolar de lágrimas celestial, que me embala e me diz: quero dia de sol, não de sal. 
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Leitores anônimos

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Eu tenho blog há uns 6 anos. Existia uma onda desses diários virtuais e eu decidi começar o meu sem ter muita ideia de como o preencheria. Quando leio meus textos antigos nem me reconheço. No começo ficava bem, bem, bem tímida se alguém queria saber o endereço. Não divulgava nunca. Hoje eu divulgo, espalho links pelos ventos. Perdi a timidez de ter o cotidiano lido, ganhei a cara de pau de espalhar meus segredos por aí.
Dia desses, conversando com um colega de profissão lá do Paraná que eu não via há tempos, soube que ele lê meus textos. Um amigo de infância do meu irmão disse a mesma coisa. Minha mãe contou que uma prima distante lê também e, por ironia, eu quase não sei mais nada sobre ela. Por isso me fico me perguntando quantos passam por aqui uma, duas, cinco vezes ou frequentemente e eu nunca saberei. E isso é muito bom.
Eu gosto bastante da ideia de ter gente querida passando por aqui, porque a maioria diz que é uma forma de saber da minha vida. Parece que eu dei mesmo ao blog aquele sentido de diário, como quando ele foi criado. Mas soube de gente que nem me conhecia e lia, o que me deixa feliz também. Quem sou eu expressa em letras e vírgulas, para pessoas que nunca me viram, que só me conhecem assim? Queria saber qual é essa imagem, se ela condiz com a realidade.
Mas quem sou eu para falar disso... Sou também uma leitora anônima de vários sites e blogs de desconhecidos e me mantenho assim por não saber como me pronunciar. Também crio minhas imagens daqueles criadores de textos. Talvez eles nunca saibam qual é.
Então, eu só queria dizer que me deixa realmente emocionada, nesse tempo de escrivinhança, não são os números e estatísticas, nem qualquer elogio ou reconhecimento. O que realmente me honra é a possibilidade de fazer sentido, de ter uma visão compartilhada com um outro - conhecido ou não - em uma das esferas que mais gosto, a da escrita (foi mais ou menos o mesmo que disse no texto de abertura).

Obrigada por me proporcionarem isso.
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O homem-placa

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Trabalho por aí, em qualquer sinal, em muitas das esquinas por onde você passa. Certamente você já deve ter passado por mim, leu minha placa, mas não deu importância para o meu rosto. Eu mesmo só vejo minha cara nos retrovisores dos carros parados. Minha cara a tapa é suada e queimada de sol. Esse sol quente que me queima é o mesmo que doura as peles de quem desfruta das piscinas dos condomínios que eu divulgo. Condomínios. É isso que eu vendo. Sei de ouvir falar. Não sei ler. Carrego uma propaganda indecifrável, ilegível, pelo menos pra mim. Como aquelas pessoas que vestem uma camiseta, mas desconhecem o significado da sua mensagem. Eu só sei ler a cara da fome de meus filhos e é para eles que eu seguro. Seguro a onda, seguro o rojão, seguro a placa. Para vender, cada dia mais, mais apartamentos luxuosos, de 2 ou 3 dormitórios, mais apartamentos de 240 metros quadrados, mais de 10 vezes mais que o tamanho do meu puxado. É puxado, sim. Mas sabe que eu penso que todos somos um pouco homens-placas, vivemos carregando estandartes de marcas e ideologias, das quais talvez nem compartilhamos, ou entendemos o real sentido. Nem faz sentido. Melhor carregar minha placa pelos dias, sem nem perguntar. E receber meu pagamento. Eu mal sei para quem eu trabalho, mas sei bem quem enriquece. Eu sou apenas um suporte. Eu suporto.

Sou o homem-placa. Cada dia mais placa, cada dia menos homem. 
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