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A fé que remove berrugas

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Quando pequena, eu, meus pais e irmão rezávamos todas as noites antes de dormir. Era como um ritual. Meu pai, mesmo cansado, a gente, mesmo com sono, nada nos impedia. Antes das preces católicas em voz alta, meu pai se encarregava de fazer o oferecimento. Durante um período, porém, eu tive participação especial.
- ... por tudo isso, pedimos a Deus.
- Pai!!!
- Ah, é. Tatiana. Agora você.
- Eu quero pedir a Deus que caia a berruga do meu dedo.

Minha mãe mal continha o riso. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e uma berruga. Era no dedo médio, não sei em qual mão. Não era grande, mas ficava na lateral, raspava no outro dedo e me incomodava muito. Ao invés de pomadas ou qualquer substância curativa, entreguei-me à oração. Sei lá por quantas noites rezei. Nessa distância atual com minha infância, acredito que foram muitas. Um dia, gritando, anunciei a todos: a berruga havia caído. Com o fim da berruga, o fim do incômodo e o início de uma certeza. Eu tinha a capacidade de ter fé.
Não me acho uma pessoa muito sortuda. Falta conquistar ainda muita coisa e, confesso, por vezes desanimo de tão penoso que se torna meu caminho. Mas em todo esse trajeto, inúmeras vezes tive a prova de que precisei ter fé e, rezando com força, fiz as coisas mudarem. De um jeito tão surpreendente que até me comovia.
Não tenho o intuito de fazer quem desacredita acreditar, não tenho essa pretensão e nem o poder do argumento. É apenas uma reflexão e um pedido. No último dia deste ano, desejo forte para que em 2014 eu tenha cada vez mais fé. Pode ser aquela ingênua, que eu tinha quando criança. Pode ser a grandiosa, que já me levou a outros mundos.
Eu sobrevivo em São Paulo há quase 3 anos. Já vivi momentos bem ruins, é verdade. Violência, medo, ignorância. Prostrei-me algumas vezes de joelhos. Em outras gritei, reação absurda, diante da sombra. Na obstinação ou no mantra, tudo vem dando certo. Senão sozinha, com a ajuda de pessoas colocadas quase que divinamente em meu trajeto.
Tem gente que me acha doida por morar com gente desconhecida. Pode parecer tolo, mas eu acredito na minha intuição. E confio nos estalos que recebo de uma força (que eu acredito) Superior. Eu brinco dizendo que, se tivesse medo, não tinha saído debaixo das cobertas da minha mãe. Não se trata de não ser medrosa. Sou tanto que dá vergonha. Tenho medo nível cagaço. Mas eu teimo em desafiá-lo. Tenho fé de que ando protegida. Não é tão bobo a ponto de pensar que, se eu rezo, nada de mal nunca vai me acontecer. Mas sim, praticando minha fé, tenho chances de atrair muito de bom no meu caminho.
Há 5 anos, tive uma hemorragia séria e quase morri. Meus pais, que me acompanharam no dia ao hospital, lembraram do ocorrido durante a última viagem que fizemos. Naquele dia, os dois seguraram minha mão e gritaram, assim mesmo, quase brigando, para que eu reagisse. Quando voltei do quase coma, o médico, meio nervoso, brincou que eu era teimosa.
Pode ser que com o tempo a berruga iria mesmo cair, sozinha. Pode ser que eu sobreviveria daquela vez no hospital, independente dos gritos. Pode ser que as histórias de violência fossem terminar daquele jeito mesmo, sem problemas. Essa pode até ser sua opinião. Mas, para mim, não. Foi há pouco que tive esse insight. Eu vivo e sobrevivo com muita teimosia. E fé.
Que ela não afrouxe diante dos corações duros e almas vazias que encontro, amém.
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O pote de açúcar

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Morei por cerca de três meses com quatro homens. Dormia na sala, num colchãozinho arranjado, e minhas roupas ficavam dobradas em cima da mala em um canto do cômodo. Algumas pessoas ainda estranham quando eu conto isso e me obrigam a detalhar que os quatro na verdade eram: um grande amigo, o irmão dele e outros dois que dividiam apartamento. Muito generosos, eles me acolheram na república quando eu, depois de ter arrumado um emprego em São Paulo, não tinha casa. Deixaram-me permanecer lá, pelo tempo necessário. Jamais vou me esquecer disso.
E não esqueço ainda os ensinamentos dessa convivência. Uma convivência muito fácil, diga-se de passagem. Com quatro mulheres, não sei se duraria tanto. Salvo alguns percalços aqui e acolá, os homens são mais fáceis de lidar. Não vou reduzi-los a uma mesma personalidade, mas, em geral, eles não oscilam tanto, não se exaltam tanto, não veem tantos problemas onde não existem tantos problemas.
Nada contra o clã feminino, ressalto. Mas tenho pra mim que, mais do que me salvar a vida e me dar um teto por três meses, os meus colegas de apartamento me proporcionaram uma experiência quase antropológica. Entendi muito do mundo dos machos depois dessa. E todo meu aprendizado pode ser resumido a um exemplo concreto: o pote de açúcar.
Na cozinha existia um pote de açúcar grande, capaz de abrigar uns cinco quilos do alimento. Num dos meus primeiros dias de hóspede, em que precisei adoçar algo na xícara, perguntei onde guardavam o açúcar e me apontaram o recipiente na prateleira. Reticente, passei os olhos em volta procurando um açucareiro menor, esses de mesa, mas como a mesa tinha tudo e qualquer outra coisa, exceto um porta-açúcar, retirei o potão do armário, já buscando uma colher na gaveta. “Não”, me disseram. “Aí dentro”.
Sim, o pote tinha uma colher de sopa espetada na montanha de açúcar. A mecânica era muito simples e consistia em levar o açúcar à xícara com essa colher, que também servia para mexer dentro da xícara, sendo devolvida ao pote (dava pra passar uma aguinha na torneira antes, não sei se todo mundo levava à risca essa regra).
Pronto. Quer praticidade maior? Diz-me, ó céus, para que intermediários, quando o caminho pode ser direto e reto? Eis a chave, garotas, do mundo masculino. Tudo é muito simples, tal e qual um pote de açúcar com a colher dentro. Não sejamos tão burocráticas no entendimento. Não exijamos ou utilizemos um açucareiro, uma colher para passar o açúcar do pote para o açucareiro, outra para pegar o açúcar do açucareiro e despejar na xícara e outra colher ainda menor para mexer o líquido na xícara. Percebe o cansaço? Percebe por que muitos homens se enfastiam, enfezam-se, até, com toda a complexidade de emoções que lhes é exigida e que eles, por natureza, não conseguem ter?
Depois do meu estudo de caso, em campo, obrigo-me, às vezes a contragosto, a advogar em favor de alguns homens. Diante de todo o caminho tortuoso cheio de fios, hipóteses, teorias da conspiração, de todas as suposições e conjecturas tecidas, presumidas e induzidas por, e apenas por, uma mulher desesperada e à beira de um ataque de pânico, balanço a cabeça por alguns segundos e penso que aquele homem não conseguiria sobremaneira imaginar que um simples gesto renderia tal conto de realismo fantástico.
Sem menosprezo. Não se trata de subtraí-los a uma capacidade emocional menor. Trata-se apenas de imaginar que, diante da tarefa de guardar açúcar na cozinha, um homem precisa de um pote e uma colher, somente. Já a mulher tende a embaraçar a missão e, como se não bastasse, inclina-se a exigir do homem que raciocine como ela, que mexa o açúcar como ela, e que adivinhe que o caminho mais difícil é, obviamente, o único possível.
Que não se torne regra, mas, minha filha, o homem não liga às vezes porque não deu pra ligar. Disse o que disse porque era o que estava pensando, te juro. Chamou pra sair às 9 da noite porque foi o único horário que deu, ou porque é a hora que ele pensa em fazer alguma coisa. Sumiu porque sumiu, não dava mais. É duro, chicas, mas os homens, em geral, são feitos de poucas surpresas. Claro, também existem os jogadores e, além deles, os melindrosos, os medrosos, os perversos, os mimados, os babacas. Esses pregam umas surpresinhas ruins, mas, se você notar bem, tudo é muito previsível.

A imprevisibilidade dos homens é inversamente proporcional à complexidade feminina e a sua capacidade de surtar. Se não foge à regra, o homem, esse mesmo, aí do seu lado, ou na tela do seu celular, é bem simples. É só um cara mexendo o açúcar com a colher do pote.
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O amor é como a Paulista em véspera de Natal

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SP. Avenida Paulista. Véspera de Natal.
O caos.
O amor paulistano é feito de dois corpos cansados. Dois seres que se desencontram, cada qual de um lado da Avenida. Distantes pela profusão de cores, sons e luzes que se engalfinham, um aqui, outro ali, disputando a atenção de uma multidão. O amor são esses dois humanos tentando se encontrar na aglomeração.
O amor paulistano é ilógico. É esse rapaz baixinho e esquisito tentando beijar a morena alta e bonita na esquina com a Augusta. Ela faz charme, mas nega, é próprio dela negar. Em SP, o amor faz menos sentido que esses bichos gigantes em pelúcia mofada de outros Carnavais (Natais). Tem menos coerência que essa neve da decoração do Santander, que essa tentativa de europeizar o que já é Tropicália.
O amor em São Paulo tem menos nexo que esse frio, esse vento gelado em pleno mês de dezembro, como se o calor tivesse desmarcado encontro com o verão. O final do ano é cheio de encontros furados. Os corpos que adorariam se cruzar se embatem nas obrigações sociais – dos almoços coletivos, trocas de votos vazios, eventos(zzz) de networking, nas festinhas em que sobram os sorrisos amarelos e os presentes nascidos para serem trocados, porque amigo secreto que é amigo secreto já nasceu como roubada.
O amor, em qualquer avenida de São Paulo, é uma roubada. É a mãe desesperada burlando a vez da sua criança na fila, para tirar a foto com o Papai Noel. As duas mães batendo boca enquanto as crianças choram com chupeta e cartinha em punho. Isso é o amor de um paulistano. É a mentirinha, é o furo, é a lama, é a lama. É esse correr esbaforido no shopping, é esse pequeno ato fraudulento em meio ao tumulto.
A Avenida Paulista é esse amor, que começa no Paraíso dos artistas de rua livres e desimpedidos para ganhar uma moeda de consideração e que termina na Consolação do pai desajeitado e recém separado buscando arrancar um sorriso do rebento. Afeto comprado com um sorvete. Ou um Ben-10. O amor, em SP, é essa compensação de presença.
Nessa larga avenida da Pauliceia Desvairada, o amor é esse Merry Christmas desafinado. É esse urso panda dançando funk na mesma calçada que a indiana vendendo lenço turco. É essa falsa pretensão de cidade cosmopolita e high-tech, estampada nas letras dançantes no prédio da FIESP, enquanto a verdade grita rouca em corações analógicos e emparedados pelo medo.
São Paulo é essa confusão, essa desordem, e o amor, em SP, é esse motim.

O amor em SP é a mensagem visualizada e não respondida.
É a desculpa esfarrapada. É o pisca-pisca queimado.
É o minipanetone egoísta.
É trabalhar na noite do dia 24.
Em SP, o amor são os votos condicionados.
O amor, em SP, é um orgasmo de desencontros.
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Das amarras

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Eu já soltei as minhas amarras e, embora elas estivessem já frouxas, é natural da desamarração doer. Quando soltei o último nó, suspirei. Não de felicidade, porque não é próprio do desatamento ser alegre. São dois cordões que se desenlaçaram e seguirão sós. Sem nós, mas sós. Suspirei por ter ido, por ter doído, por tudo ter sido. Ou não ter sido.
Não penso que seja fácil, nunca é. Mas no meu caso minhas amarras me prendiam à coisa perdida, me atavam à paisagem que eu não enxergava mais no porto. E dessa convicção veio minha paciência, necessária a todo e qualquer desatamento de nó. Do cordão que se embola às linhas de texto que não se concluem. Todo e qualquer nó pronto a ser desmanchado determina um exercício de sabedoria, mas, para além disso, exige a certeza de que esse nó incomoda. Cutuca, arde, séria ferroada.
Porque tive essa certeza, não posso exigir dos outros enozados que se desarticulem fácil. Que desfaçam os laços dos cadarços, que concluam de forma brusca os enredos, feitos para durar, embora duros. Que se desembaracem, simplesmente, como cabelos pela manhã. Não.
É difícil chegar à conclusão de que estamos cheios de nós. De que estamos cheios de nós mesmos. De que é preciso desfazer a trama, desenroscar os vínculos e soltar as amarras. De um jeito doído de ser para sempre, ou para um tempo longo. E, principalmente, de que não teremos mais nós. Mas com isso não teremos mais nós dois.
Estive cheia de nós. Por isso, acredito que posso dizer, com propriedade, que o caminho de desamarração dos laços exige um longo processo de reflexão. Que não acontece de uma hora para outra. É um alívio e ao mesmo tempo um embaraço na garganta. Ainda com propriedade, posso dizer que a partir do desatamento vem aquilo que é ruim, do que é próprio doer. Mas vem também aquilo que é bom, aquilo que é novo, que, sem embaraço, soma, multiplica.

Estou sem nós. Sem nós na garganta. Outros nós virão. Mas por enquanto espero fazer parte do que é bom. Sem nós. Ou para nós. 
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Promoção especial: remoção de tatuagem

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Recebi um e-mail desses sites de compras coletivas: remoção de tatuagem por R$ 49,00. Acabou, meus caros. Vivemos num mundo em que a mágica do perene é desfeita por menos de 50 conto. Foi-se o tempo em que tatuagem era prova de amor, ou demandava noites de sono perdidas nos devaneios do que você deveria gravar para sempre em sua pele, em sua vida, em seu destino.
As bobagens da adolescência, como todo rompante de juventude, que te fazem desenhar um ET na panturrilha com um tatuador nada ortodoxo, numa excursão à praia, verão de 98. Na hora o extraterrestre fazia todo o sentido, mas na volta às aulas ou no verão seguinte você se debruçava choroso sobre sua consciência e se perguntava: por quê? O ET sorrindo de volta. Por quê?!?
Na próxima praia ou na próxima esquina você encontrava a solução: um tribal, fechando a perna, apagando a burrice, o passado, a rebeldia. O tribal era a certeza de que não há crime sem castigo. E que sob aquele desenho feito à força existia a prova real da sua babaquice. Um conserto, meia boca, do seu atrevimento juvenil. Uma tatuagem encobre a outra, assim como um novo amor apaga o anterior.
Acabou. Não há mais bobagens cometidas sem possibilidade de volta. Não existe mais o eterno. O transitório tomou conta de tudo. “Que ousada aquela menina, toda rabiscada”. Duas entrevistas de emprego em que olham feio para suas tatuagens e já era. Ela pode voltar atrás à sua exaltação de personalidade e apagar tudo. Ser mais uma. O brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Menos de 50 paus e removo a tatuagem que fiz nas costas. A tatuagem que meu pai quase chorou quando viu. Toda uma angústia familiar resolvida por menos de uma onça. Tudo já é passageiro. A remoção das tatuagens é só o reflexo de nosso tempo. A remoção das tatuagens por um preço quase irrisório é o fim das bodas de prata. Ou dos eletrodomésticos acompanhando gerações inteiras. Os casamentos não duram, nem as máquinas de lavar. Tudo é de plástico, quebrável, removível.
Meus caros, é o fim. Por menos de 50 reais o que você gravou pra sempre ruiu. Todo o símbolo pensado simbolizando um marco de sua identidade. Já era. O que você prometeu no altar, os laços perenes, as fotos amareladas nos álbuns, as cartas guardadas nos armários, a louça de vovó. Nada dura mais pra sempre. Nada.
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Meu outubro, meu braço no mundo

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Outubro é meu mês de renascer. Aos 24 acaba o ciclo, recomeça. Só do tempo eu não posso me livrar, 28 vezes já foram esse acabar e reiniciar. Quando pequena eu dizia que esse era o mês mais lindo do ano. Sempre gostei de uma festinha. Hoje adulta continua me apetecendo. É o mês do meio. Do meio da primavera, do meio do outro meio do ano. É cheio de aniversários, é cheio de promessas.
Eu adoro meu aniversário. Não sei se é pelas lembranças das superproduções de minha mãe, ou se é pelo me sentir lembrada, especial. Não sei se é pelo Plutão, o signo de Escorpião, o da regeneração, dos renascimentos. Mas o fato é que mesmo hoje mais velha não sinto o peso de fazer (ou ganhar) anos. Sou doida por esse recomeçar.
Especialmente neste inferno astral acredito que esteja renascendo mais do que nunca. E se o que é mais doído, mais difícil, nos faz crescer mais, eu quero é me livrar logo desse casulo. Me livrar e me metamorfosear. Principalmente dessa carapuça de mocinha, ingênua, entregando todos os pontos e recebendo de volta o tricô já feito, a opinião dos outros formada e para mim assinalada. Já não sei viver só. Mas tenho o direito de querer gente de bem aqui comigo.
Do que fui, quero carregar a fé, nuvem no céu e raiz. A fé que me engrandece, quando o cansaço das coisas, de todas as coisas, me deságua. O elo entre mim e os meus, que estão lá longe (de distância e de tempo). Quero a fé e a força do supremo que me fazem enxergar o rio à frente, pronto a navegar, me convidando pela mão, mas prontas pra me empurrar. De muito medo foi feita a minha caminhada. Graças.
Eu fui descobrir só maiorzinha que grandes nomes nasceram no meu mês. O Milton Nascimento vivia falando em outubro, fui procurar e lá! É do 26. O Vinicius, o meu Vinicius, é do dia 19. O Pelé nasceu um dia antes do meu aniversário, 23. Até o Maradona é de outubro, 30. O Cartola, grande, dia 11. Fernanda Montenegro, 16. Até o Wando, minha gente, nasceu dia 2. Mais do que uma lista de celebridades, meu mês tem toada. Tem canto.
Brado forte para que, como diz o próprio Milton, venham muitos e muitos outros outubros, renascendo em mim outra Tatiana. Que venham outras manhãs, plenas (sempre) de sol e de luz. Sol pra queimar, luz pra guiar. Sol pra cobrar, luz pra crescer. Sol pra envelhecer, luz pra enternecer.

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Hoje o sol deu as caras e o bafo ardente e seco tumultua
Toda a gente tira a simpatia do armário e põe no altar
Da minha parte, pus as pernas de fora e o corpo todo pra rua
E nesse dia, quente como o diabo, decidi meu decreto assinar

Fica expressamente proibido chover aos domingos. E nenhum se exclua!


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Paulista da minha Pauliceia

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A Paulista foi uma das primeiras coisas que vi quando aqui cheguei e já era dona de mim. A avenida larga, de prédios altos, pulsou em mim. A Avenida Paulista foi o start, desconfio que a partir dela decidi ser dela, falsa paulistana, da Pauliceia. A primeira coisa que pensei ao me deparar com aquele tanto tão verticalizado foi: preciso engolir essa cidade antes que ela me engula.
Corta.
A fila de uma loja na 25 de março. Lotada. A moça bonita e paciente atrás de mim trocou umas duas palavras e já desconfiei: é estrangeira. Catarinense, atriz, pausou a carreira para cuidar dos dois filhos. Pouca gente tem essa luxuosa possibilidade. [eu mesmo repenso uma vida de mãe e pobre mortal nessa cidade]. Estava ali para comprar as coisas para a festa do filho mais velho, que, para desespero da mãe, não queria uma festa temática. “Assim fica difícil pra mamãe, filho!”, foi a conversa que ela relatou para mim, enquanto ria. A moça bonita da qual não perguntei o nome me disse algo, no meio da conversa, que não me esqueci. “São Paulo é uma proposta. Para ser dela é preciso se entregar a essa proposta, até que você tenha energia. Depois disso, siga outra proposta”.
Corta.
São Paulo me suga as forças, as energias e o tempo dedicado às leituras. Mas faz parte do meu projeto. São Paulo ainda é meu projeto. Estou nele até me lançar em outros rumos, mas por enquanto, é a Paulista que, ofegante, ainda corre nas minhas veias, cheias de sangue pra dar. De suor pra secar. De lágrimas para engolir. É esse se sentir pequena diante de tanto prédio alto e que estremece tanta gente que ainda me faz feliz.
É esse se sentir anônima no meio de tanta gente que não quer saber da sua vida que me instiga. Quero ser alguém sim, mas também quero me esconder. A solidão incomoda, não há a generosidade presente nos ares interioranos. As pessoas do meu mundo do Velho Oeste não entendem que esse mar de gente torna as pessoas mercenárias, capazes de cobrar por um abraço. Salvo as exceções, sempre bom lembrar.

Hoje moro perto da Paulista. Poucos abraços nativos. Os que me sobram vêm de estrangeiros. Ou de nativos que destoam. Vou sendo engolida por esse mar de gente e mar de possibilidades até dar. Dar pé no barco à deriva que vai navegando por esse projeto. Até dizer: abri o ralo, Paulista. O mar secou, eu me enchi. Te engoli. 

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Bye Bye, Brás!

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O apartamento que deixo tem uma área a céu aberto gigante, que dá para a parte interna do prédio. Estou me despedindo dela. Porque um ano e meio depois da minha mudança para o que já foi um dos maiores bairros italianos de São Paulo, mais conhecido na Itália que o próprio Brasil, deixo o Brás. Por um ano e meio, essa foi a pergunta que mais detestei responder: onde você mora? Já respondia franzindo a testa, suspiro abrindo o discurso: no Brás. Não aquele Brás das lojas, o do Arnesto, que fugiu do samba. O suspiro antecipado se justificava pela expressão de espanto e pena com a qual me deparava. “Mas por quê?”. Com o tempo, acostumei-me a emendar à resposta a longa explicação de que restei sozinha, decidi ficar assim, e, como não tinha muito dinheiro, foi a única opção. Assim, bem dramática.
Não é esse drama todo, garanto. Também não é “ómeudeusquedelícia”. É uma possibilidade. É feio, sim. Fede a xixi, sim. Tem cachorros sarnentos a dar com o pau, moradores de rua, também. Tem a Red Line (ergo a placa: eusobrevivi). Nesse Brás, meio residencial meio Tim Burton, a vida meio que acaba às 6 da tarde e, depois disso, os ares são cinzas e sombrios. Desconfio que aqui ainda é mais frio que no restante da cidade.
Sem contar no perigo, o que ronda a cada esquina. No meu saldo ficou o semirrosto de incontáveis taxistas, a maioria com uma história boa, ou sinistra. A maioria deles peguei na Sé e quase todos me contaram um causo de assalto e sequestro escabroso. Se é verdade, não sei. De taxista e pescador se ouve qualquer coisa. Em todo caso eu tinha a minha para contar. Foi numa rua do Brás que quase me assaltaram (mais uma vez). Dessa vez me fiz de doida e berrei sem parar. O assaltante me pediu calma.
Meu Brás foi feito de riso, choro. E vela. A cada dia uma nova promessa, a cada dia uma novena, uma nova oração. Se eu não for assaltada, Senhor... Se aquele cara não mexer comigo, Senhor... Faça com que tenha táxi. Ou ninguém na rua. Não aguento mais essa vida de medo, Senhor. Chega dessa chantagem emocional. O Senhor tem mais com que se preocupar. Só não esqueça que esporadicamente os pedidos ainda continuarão, ainda vivo em São Paulo, afinal.
No Brás até já faltou luz. Por dias. Ficou escuro de solidão. E nervoso.
Mas é no mesmo Brás que tenho coisas para se guardar, na minha caixa (mais uma, entre as tantas de papelão que me espionam) de recordações. Como o prazer de ter uma manicure barata, boa de papo. Nesse quesito as irmãs mineiras Cida e Catarina ganharam meu coração. A Sarah, filha da Catarina, vai ganhar um irmãozinho e tá feliz da vida. Ela tem 14 anos e é um amor. No Brás tem feira livre aos sábados e foi lá que eu ouvi que era parecida com Dona Odite, a professora de infância do vendedor de tomates. No Brás também tem São Vito, café com leite e bolo barato na rua, o suco de manga com leite da lanchonete que não cobra a embalagem pra viagem. No Brás tem as lojas, incontáveis, para as quais ia a pé. Para as quais tem que ter disposição. E habilidade.
Tem a Amy e a Tapioca, meus amores que me acolhiam no final do corredor de um dia cansativo, quase sempre com comidinhas gostosas (Amanda) e lambidas frenéticas (Tapis). As duas encontraram um novo amor, o Marcelo. Foi no Brás que ganhei de presente o nome de um dos personagens do livro que ainda estou pra escrever. Aliás, cada lugar que passo é um pedaço desse livro ainda não escrito.
Só no Brás você vê mendigo dormindo com cone ao lado. Ou em colchão de casal. Mendigo sinalizado e ocupando a calçada toda. Mas a rua é mesmo deles, não sua. Foi para os mendigos que distribuía comida quando ia viajar e precisava esvaziar as panelas. Saía na rua cheia de potes de margarina, bem quentinhos, levando a marmita. De um deles, um cubano meio doido que a rua já adotou, ouvi que “não, obrigada”.
Minha varanda interna já deu pano pra manga. Já secou minhas roupas, minhas lágrimas. Agora eu to deixando, to mudando, to fechando esse ciclo. To indo, ironicamente, pra um lugar sem área nenhuma. Mas quero viver de frente pra rua, não mais dividindo parede com o gás encanado. Sou grata a isso, como a tudo. Foi aqui que vivi, enfim, a experiência de morar sozinha. Nem sei se dou mais conta.
O que conto, agora, é com essa mudança. De rua, de bairro, de cor da linha do metrô. De vida. A última ficha caiu. Não dá mais, Brás. Tenho tesão é no mar. No mar de gente. Mudou, acabou, bye, bye. Foi bom enquanto durou. Vou partir, deixando saudades (acredite!) de ti. Só que vou para onde tem mais cor, luz e movimento. Agora eu me vou. De trenó. Pra rua do Sol, Maceió.

 
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Andei pensando em toda a gente.
A que carrego comigo e a que ficou no pó da estrada
A que permanece n'algum canto da memória (a real)
A que conheço só pelo abstrato
Andei pensando em toda a gente que compõe o meu mosaico
Pedaços de vitrais de toda a sorte de cores, sotaques e simpatias
Andei pensando que a coleção em meu mosaico só aumenta
E dei graças.
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Dela

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A minha é um jardim. Feita de plantas, sempre bem cuidadas, de folhas abertas ao sol e à chuva. Com toda a sabedoria da natureza. Dos chás, das ervas, das sementes, conhece a força dos recomeços, das curas, das rezas. Tem a beleza das flores, não só as delicadas, mas aquelas que exigem os braços fortes e as mãos calejadas para remover as pedras, aquilo que resseca, que espinha. É feita de terra, permeada das raízes fortes que deixou para trás, do Nordeste esquecido e sempre tão presente no sotaque que teima em não ir embora e na garra. Terra adubada com o carinho de irmãos e filhos distantes, mas com amor presente e suficiente capaz de preencher seus dias. E que só cresce.

Te amo, mãe. Você é minha luz.

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Quando o corpo pede arrego

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Há três dias caí doente e fui acometida pela rotina real: aquela que te tira da cama para o banheiro e que torna seu estômago tolerante apenas a isotônico e bolachas cream e cracker. A incapacidade forçada que uma doença provoca é de tirar qualquer pessoa que trabalha (e gosta do seu trabalho) do sério.
Mas quando o corpo pede arrego, há pouco o que fazer. No primeiro dia, obedeci aos mandos e desmandos dos meus complexos sistemas (estomacal, intestinal e afins), afinal, reconheço que sem meu corpo sou nada, ou bem pouco. Fiquei em casa na esperança de me recuperar. Recusei-me a ir ao hospital, um pouco pelo pavor de ir sozinha (acho o clima de uma recepção de pronto socorro opressor e burocrático – desconfigurando o próprio sentido de emergência) um pouco pela fé de que tudo ia melhorar e ir embora do mesmo jeito que chegou.
No segundo dia, ao invés de levantar serelepe, acordei pior, acrescentando aos sintomas já desconfortáveis o enjoo, que me fazem sim não ter medo de recorrer ao hospital. Lá chegando, acompanhada, passei pelos trâmites legais de uma recepção de PS particular: entra, pega senha, senta, espera a triagem, faz a triagem, volta, espera, vomita, preenche ficha (enquanto aguarda as atendentes comentarem entre si as maravilhas dos sites de compras coletivas), espera mais um pouco...
Nesse meio tempo, entrou uma menina, mais ou menos da minha idade, desesperada, acompanhada de pai e mãe. Ela não parou quieta um instante e, enquanto era acudida pelos dois, que faziam tudo por ela, como preencher ficha ou abaná-la, a menina chorava sem parar, enquanto tinha cabeça e pescoço massageados pelo pai, queixando-se de algo que a afligia e atraindo os olhares e as atenções de todos os pobres diabos, em maior ou menor grau, da recepção. Fiquei tentando adivinhar o que ela tinha (um certo hobby meu decifrar a história de desconhecidos, ou inventá-la) e compartilhei a dúvida com Eduardo, que me acompanhava já na sala de espera da consulta com o médico.
“Não posso julgar, mas me parece que não é grave”, ele respondeu. Perguntei por quê, no que ele aponta para outra menina, novinha, que mal se mexia. Também acompanhada de pai e mãe, a menina não falava palavra alguma e, paradoxalmente anestesiada por uma dor cortante expressa em seu olhar, a garota em qualquer oportunidade se aninhava no colo mais próximo. “Ela, sim, parece estar com dor”. Com uma experiência de mais de três anos em hospital, ele concluiu: “quem tem dor geralmente não se mexe, poupa esforços. Às vezes quem faz mais escândalo sente outra coisa que não a dor, porque, se sentisse, nem conseguiria exprimi-la dessa forma”.
É claro que não dá pra julgar. Trata-se também da forma que lidamos, cada um à sua maneira, com nossas dores. Existem pessoas mais ou menos propensas ao escândalo, mais ou menos propensas ao silêncio. Minha mãe, por exemplo, é capaz de aguentar as piores dores sem reclamar. O choro da menina, a primeira, pareceu-me, pelo que veio depois, choro de medo. Esse medo do desconhecido eu já enfrentei, ainda enfrento. Depois da consulta com o médico, já na sala de medicação, eu estava aguardando junto das duas meninas. A primeira já não mais chorava, pelo contrário, parecia que o que houve na recepção foi uma crise nervosa que àquela hora já havia passado. Mesmo assim, ela ganhou preferência e passou na frente de diversas pessoas. A outra continuava lá, imóvel, muda, no colo da mãe, aguardando sua vez.
É difícil não julgar, embora a gente faça isso o tempo todo. Quando eu era criança, às vezes ia ao posto de saúde consultar, tomar injeção para alguma crise de dor de garganta ou pegar guia para exames. No interior, o SUS não tem essa mácula de não funcionar ou de longas filas de espera. (um adendo: os médicos que me atendiam no posto faziam exames e avaliações muito mais detalhadas que o médico que me atendeu no hospital particular, que pediu pra ver minha língua a um metro de distância e finalizou a consulta em 5 minutos, sem encostar o dedo em mim ou pedir exames de sangue). Quando eu era criança, eu achava que não “tinha direito” a ir ao SUS e, principalmente quando estava sozinha, morria de medo que alguém me perguntasse qualquer coisa, como: em que escola você estuda? Meu medo era que descobrissem que eu, embora sem dinheiro, estudava em escola particular e por isso estava proibida de usar o postinho. Assim, eu ia sempre com os piores chinelos e ficava meio escamoteada, para passar despercebida. Só mais tarde fui entender o quão democrático é o sistema e que por mais que alguém julgasse, era meu direito estar ali.
Talvez por isso, a menina tinha o direito de chorar suas dores ou seus desesperos da maneira que lhe conviesse, até mesmo porque, como diz meu pai, só você pode dizer quanto o seu sapato aperta o seu calo. Mas a teoria da dor e do esforço economizado me fez refletir sobre minhas dores e sobre como as grito. Ou não as grito. Calada, sou capaz de suportá-las ou prefiro me entregar ao desespero de quem tem medo do que sente? 
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Da solidão

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A solidão não é um momento, nem uma característica, inerente de ninguém. A solidão não é uma arma, uma fuga, nem a derradeira, ou qualquer coisa que o valha. A solidão é um estado de espírito. Dele se apropriam os indivíduos que não se curvam às exigências diárias dos sorrisos forçados, dos papéis previamente impostos, do abandono que existe em toda pseudocompanhia.
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Carlos, o cabeleireiro

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O ônibus estava tão abafado que o ar grudava na minha testa e empapava meu pescoço. Num dos pontos, um dos últimos antes do final, entrou o moço dos cabelos tingidos. Como é de praxe, quando se entra pela traseira e se é jovem, começou a se desculpar por tomar seu tempo, mas faz sete dias... e continuou. O calor era tanto e eu estava tão sonolenta que estava quase completando a história por ele: “faz sete dias que me livrei das drogas”, “que entrei pra esse projeto”, “que encontrei Jesus”. Mas aí, o moço dos cabelos loiros e sotaque lá de cima e revistas na mão foi logo falando que chegou há sete dias de Fortaleza e foi roubado. E perdeu as roupas e todo o maquinário de cabeleireiro. E os sapatos. Os documentos. Não dá pra pedir emprego. Sem as roupas, e perdeu até umas economias que trouxe. Fez um boletim de ocorrência no 1º DP, fez novos documentos ali no Poupatempo mas não sabia que não era de imediato, tinha que agendar. Mas aí ele foi ao sebo do seu Messias e pediu pra organizar umas prateleiras e em troca não quis dinheiro somente umas revistas para oferecer nos ônibus para poder pagar moradia até os documentos ficarem prontos e pedir emprego. As revistas eram poucas porque com a chuva que deu esses dias a maioria que tava na caixa encharcou e se perdeu a metade.
O meu sono foi embora junto com o fôlego que ele mantinha entre as orações. Carlos, o cabeleireiro, me prendeu a atenção, me levou dois tostões e uns desejos de boa sorte. Quis lhe dizer as ruas perto de casa onde tinham uns salões. Ele já me falou onde já tem certo emprego, mas antes precisa do documento e das roupas novas, pois aquelas mesmo – uma camisa vermelha, uma calça azul, da mesma cor da sandália – tinha comprado num bazar de igreja ali perto. Junto com meus tostões, que dei em troca de uma palavra cruzada, Carlos recebeu mais um bolo de notas e moedas. Nem acreditava. A hospedagem custava 30,00 se chegar depois da meia-noite. Antes, 70,00. Perto da Estação da Luz era mais barato, mas dali ele queria distância, tinha muito drogado.
- É aqui que eu vou ficar, já me familiarizei – falou, quando chegamos ao Parque Dom Pedro II. Foi aqui que perdi as minhas coisas e é aqui que vou conseguir tudo de novo. E se vocês me encontrarem no salão trabalhando, me lembrem desse ônibus, faço o cabelo de vocês de graça.
Era tamanha simpatia, era tamanha riqueza de detalhes que ninguém nem cogitou que era mentira sua história. Todo mundo queria saber mais de Carlos, o cabeleireiro, atração maior do coletivo.
Uma mulher deu 10 centavos e um Deus te abençoe. Ele fez questão que ela levasse uma revista. Ela disse que não. Carlos falou que aquela era evangélica. Ela aceitou. Todo mundo já em pé, esperando pra descer, amolecendo de calor, acompanhou o ato. O cabeleireiro reclamou do quentume. Fortaleza é abafado, mas corre vento. “Aqui tem muito concreto”, eu falei. Outra mulher, que havia dito três vezes a palavra “fé” para ele, perguntou por que ele saiu da terra linda para acabar em São Paulo. “Minha mulher fez umas coisas erradas e eu vim. Deixei lá os dois filhos” e ele largou a mochila no banco. Pensei que ia mostrar a foto, mas puxou a manga da camisa vermelha pra exibir orgulhoso a tatuagem no antebraço: Wilgner e Isaque.

Antes de descer falei boa sorte. Falei pra ele procurar outros sebos, vender mais livros, mais revistas, que era legal vender isso em ônibus, até ele conseguir o dinheiro pra arrumar a vida. Acho que falei pouco de São Paulo. Tem muito concreto, sim. Gente concreto também. Gente surda, como paredes. Surda pra muita gente, principalmente pra gente como ele. Gente impregnada no marasmo de uma surdez covarde, que só ouve o que lhe convém.
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Meio esfarrapado e meio bêbado o homem chegou perto da gente, que, mesmo sem perceber, ficou meio teso. Ele falou: "olha, eu não sou ninguém" (na certa poderia dizer: não sou um ladrão, um calhorda, um assassino). Aí continuou: "não, alguém eu sou, sou um ser humano". Pediu dinheiro pra cachaça. Assim, na lata. Seres humanos também bebem cachaça. Achamos honesto. Mas ninguém tinha moedas. Ele foi em outra roda falar de ser humano. De ser, não de estar, humano.
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Nenhum discurso é original, ou tô errada, Bakhtin?

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Todos os grandes clássicos já foram escritos. Todas as músicas essenciais já foram compostas. Todas as imagens singulares já foram captadas e tudo de mágico que poderia ter sido mostrado por uma câmera já foi feito. E tudo mais, apesar de estranhamente novo, tornou-se obsoleto no mesmo instante que nasceu.
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Bom gosto

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Se houvesse um concurso para eleger a pessoa que mais sabe sobre ‘Cinquenta tons de cinza’ sem nunca ter lido ‘Cinquenta tons de cinza’ eu poderia me candidatar. Já escutei mais de um punhado de vezes a história da Anastasia, muitas vezes antes que eu tenha tempo de balbuciar que já sei tudo do cabo ao rabo do Christian Grey. 
Eu nunca li os ‘Cinquenta tons de cinza’ nem vou ler. Eu me dou ao direito de utilizar meu tempo com outras coisas, com outras leituras. Um pouco por causa de uma coisa que o Milton Hatoum soube definir muito bem: esse ‘fenômeno’ é, como tantos, um livro de verão, que se propõe ao entretenimento (o que faz muito bem, vide a legião de fãs) e não a pensar a respeito do mundo, como a literatura de verdade, justa contraposição que Hatoum coloca frente a esse tipo de escrito.
Ocorre que, com esses pensamentos todos, nunca falei ao meu interlocutor (aquele, que discorreu sobre o tal contrato entre Ana e Cris), o que pensava. Nunca fiz cara de nojo, nunca insinuei que ele tinha um gosto duvidoso, até porque o meu mau gosto significa o bom gosto dele e assim por diante. Muitas vezes ele não quer pensar nada sobre o mundo e está certíssimo em procurar o que lhe agrade, sendo maior de idade e vacinado que é.  
A menos que seja pedida a minha humilde opinião, não vou dizer, por causa de um mínimo bem mínimo de conhecimento literário que me fez adquirir uma postura crítica sobre o que é literatura e o que não é, que livros como o Cinquentas não estão na primeira categoria. Mas sim, respeito sua de-li-ci-o-sa experiência com o livro, nem que respeito signifique ouvir mil vezes a mesma história.
Só não posso dizer que tenho a mesma resposta em muitas vezes que falei sobre algo que gostava a alguém que não gostava. A Gal Costa, o Milton Nascimento, o Chico Buarque, o Gabriel García Márquez, o Almodóvar, o Woody Allen e outros que gosto, ao serem nomeados por mim já receberam cara feia, risadinhas, deboches, olhares de soslaio, ou xingamentos. Um dia disse que fui ao show do Milton e o interlocutor respondeu: é, tem gosto pra tudo. 
Ora, eu não faço isso quando escuto alguém falando do Camaro Amarelo ou daquele blockbuster que me é insuportável ou quando a pessoa diz que ama ler e seu livro preferido é a Cabana, entre os dois que leu na vida. Se fizesse seria preconceituosa, arrogante, insensível. E o contrário?
Me conte pela 15ª vez a história do maravilhoso e dolorido amor de Ana e Christian que eu farei sim com a cabeça. Como vou menosprezar o que o outro gosta e o diverte tentando enfiar goela abaixo o que eu penso, se eu mal sei o que te faz bem? Mas, do mesmo jeito que você pouco me sabe, não simule o vômito ou esbraveje contra meu artista preferido. Balança a cabeça, vai. E ponto. Acho que é o mínimo para uma convivência pacífica. E de bom gosto.


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