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Mostrando postagens de 2013

A fé que remove berrugas

Quando pequena, eu, meus pais e irmão rezávamos todas as noites antes de dormir. Era como um ritual. Meu pai, mesmo cansado, a gente, mesmo com sono, nada nos impedia. Antes das preces católicas em voz alta, meu pai se encarregava de fazer o oferecimento. Durante um período, porém, eu tive participação especial.
- ... por tudo isso, pedimos a Deus.
- Pai!!!
- Ah, é. Tatiana. Agora você.
- Eu quero pedir a Deus que caia a berruga do meu dedo.

Minha mãe mal continha o riso. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e uma berruga. Era no dedo médio, não sei em qual mão. Não era grande, mas ficava na lateral, raspava no outro dedo e me incomodava muito. Ao invés de pomadas ou qualquer substância curativa, entreguei-me à oração. Sei lá por quantas noites rezei. Nessa distância atual com minha infância, acredito que foram muitas. Um dia, gritando, anunciei a todos: a berruga havia caído. Com o fim da berruga, o fim do incômodo e o início de uma certeza. Eu tinha a capacidade de ter fé.
Não me acho uma …

O pote de açúcar

Morei por cerca de três meses com quatro homens. Dormia na sala, num colchãozinho arranjado, e minhas roupas ficavam dobradas em cima da mala em um canto do cômodo. Algumas pessoas ainda estranham quando eu conto isso e me obrigam a detalhar que os quatro na verdade eram: um grande amigo, o irmão dele e outros dois que dividiam apartamento. Muito generosos, eles me acolheram na república quando eu, depois de ter arrumado um emprego em São Paulo, não tinha casa. Deixaram-me permanecer lá, pelo tempo necessário. Jamais vou me esquecer disso. E não esqueço ainda os ensinamentos dessa convivência. Uma convivência muito fácil, diga-se de passagem. Com quatro mulheres, não sei se duraria tanto. Salvo alguns percalços aqui e acolá, os homens são mais fáceis de lidar. Não vou reduzi-los a uma mesma personalidade, mas, em geral, eles não oscilam tanto, não se exaltam tanto, não veem tantos problemas onde não existem tantos problemas. Nada contra o clã feminino, ressalto. Mas tenho pra mim que…

O amor é como a Paulista em véspera de Natal

SP. Avenida Paulista. Véspera de Natal.
O caos.
O amor paulistano é feito de dois corpos cansados. Dois seres que se desencontram, cada qual de um lado da Avenida. Distantes pela profusão de cores, sons e luzes que se engalfinham, um aqui, outro ali, disputando a atenção de uma multidão. O amor são esses dois humanos tentando se encontrar na aglomeração.
O amor paulistano é ilógico. É esse rapaz baixinho e esquisito tentando beijar a morena alta e bonita na esquina com a Augusta. Ela faz charme, mas nega, é próprio dela negar. Em SP, o amor faz menos sentido que esses bichos gigantes em pelúcia mofada de outros Carnavais (Natais). Tem menos coerência que essa neve da decoração do Santander, que essa tentativa de europeizar o que já é Tropicália.
O amor em São Paulo tem menos nexo que esse frio, esse vento gelado em pleno mês de dezembro, como se o calor tivesse desmarcado encontro com o verão. O final do ano é cheio de encontros furados. Os corpos que adorariam se cruzar se embatem na…

Das amarras

Eu já soltei as minhas amarras e, embora elas estivessem já frouxas, é natural da desamarração doer. Quando soltei o último nó, suspirei. Não de felicidade, porque não é próprio do desatamento ser alegre. São dois cordões que se desenlaçaram e seguirão sós. Sem nós, mas sós. Suspirei por ter ido, por ter doído, por tudo ter sido. Ou não ter sido. Não penso que seja fácil, nunca é. Mas no meu caso minhas amarras me prendiam à coisa perdida, me atavam à paisagem que eu não enxergava mais no porto. E dessa convicção veio minha paciência, necessária a todo e qualquer desatamento de nó. Do cordão que se embola às linhas de texto que não se concluem. Todo e qualquer nó pronto a ser desmanchado determina um exercício de sabedoria, mas, para além disso, exige a certeza de que esse nó incomoda. Cutuca, arde, séria ferroada. Porque tive essa certeza, não posso exigir dos outros enozados que se desarticulem fácil. Que desfaçam os laços dos cadarços, que concluam de forma brusca os enredos, feit…

Promoção especial: remoção de tatuagem

Recebi um e-mail desses sites de compras coletivas: remoção de tatuagem por R$ 49,00. Acabou, meus caros. Vivemos num mundo em que a mágica do perene é desfeita por menos de 50 conto. Foi-se o tempo em que tatuagem era prova de amor, ou demandava noites de sono perdidas nos devaneios do que você deveria gravar para sempre em sua pele, em sua vida, em seu destino.
As bobagens da adolescência, como todo rompante de juventude, que te fazem desenhar um ET na panturrilha com um tatuador nada ortodoxo, numa excursão à praia, verão de 98. Na hora o extraterrestre fazia todo o sentido, mas na volta às aulas ou no verão seguinte você se debruçava choroso sobre sua consciência e se perguntava: por quê? O ET sorrindo de volta. Por quê?!?
Na próxima praia ou na próxima esquina você encontrava a solução: um tribal, fechando a perna, apagando a burrice, o passado, a rebeldia. O tribal era a certeza de que não há crime sem castigo. E que sob aquele desenho feito à força existia a prova real da sua b…

Meu outubro, meu braço no mundo

Outubro é meu mês de renascer. Aos 24 acaba o ciclo, recomeça. Só do tempo eu não posso me livrar, 28 vezes já foram esse acabar e reiniciar. Quando pequena eu dizia que esse era o mês mais lindo do ano. Sempre gostei de uma festinha. Hoje adulta continua me apetecendo. É o mês do meio. Do meio da primavera, do meio do outro meio do ano. É cheio de aniversários, é cheio de promessas. Eu adoro meu aniversário. Não sei se é pelas lembranças das superproduções de minha mãe, ou se é pelo me sentir lembrada, especial. Não sei se é pelo Plutão, o signo de Escorpião, o da regeneração, dos renascimentos. Mas o fato é que mesmo hoje mais velha não sinto o peso de fazer (ou ganhar) anos. Sou doida por esse recomeçar. Especialmente neste inferno astral acredito que esteja renascendo mais do que nunca. E se o que é mais doído, mais difícil, nos faz crescer mais, eu quero é me livrar logo desse casulo. Me livrar e me metamorfosear. Principalmente dessa carapuça de mocinha, ingênua, entregando tod…

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Hoje o sol deu as caras e o bafo ardente e seco tumultua
Toda a gente tira a simpatia do armário e põe no altar
Da minha parte, pus as pernas de fora e o corpo todo pra rua
E nesse dia, quente como o diabo, decidi meu decreto assinar

Fica expressamente proibido chover aos domingos. E nenhum se exclua!


Paulista da minha Pauliceia

A Paulista foi uma das primeiras coisas que vi quando aqui cheguei e já era dona de mim. A avenida larga, de prédios altos, pulsou em mim. A Avenida Paulista foi o start, desconfio que a partir dela decidi ser dela, falsa paulistana, da Pauliceia. A primeira coisa que pensei ao me deparar com aquele tanto tão verticalizado foi: preciso engolir essa cidade antes que ela me engula. Corta. A fila de uma loja na 25 de março. Lotada. A moça bonita e paciente atrás de mim trocou umas duas palavras e já desconfiei: é estrangeira. Catarinense, atriz, pausou a carreira para cuidar dos dois filhos. Pouca gente tem essa luxuosa possibilidade. [eu mesmo repenso uma vida de mãe e pobre mortal nessa cidade]. Estava ali para comprar as coisas para a festa do filho mais velho, que, para desespero da mãe, não queria uma festa temática. “Assim fica difícil pra mamãe, filho!”, foi a conversa que ela relatou para mim, enquanto ria. A moça bonita da qual não perguntei o nome me disse algo, no meio da con…

Bye Bye, Brás!

O apartamento que deixo tem uma área a céu aberto gigante, que dá para a parte interna do prédio. Estou me despedindo dela. Porque um ano e meio depois da minha mudança para o que já foi um dos maiores bairros italianos de São Paulo, mais conhecido na Itália que o próprio Brasil, deixo o Brás. Por um ano e meio, essa foi a pergunta que mais detestei responder: onde você mora? Já respondia franzindo a testa, suspiro abrindo o discurso: no Brás. Não aquele Brás das lojas, o do Arnesto, que fugiu do samba. O suspiro antecipado se justificava pela expressão de espanto e pena com a qual me deparava. “Mas por quê?”. Com o tempo, acostumei-me a emendar à resposta a longa explicação de que restei sozinha, decidi ficar assim, e, como não tinha muito dinheiro, foi a única opção. Assim, bem dramática. Não é esse drama todo, garanto. Também não é “ómeudeusquedelícia”. É uma possibilidade. É feio, sim. Fede a xixi, sim. Tem cachorros sarnentos a dar com o pau, moradores de rua, também. Tem a Red …
Andei pensando em toda a gente.
A que carrego comigo e a que ficou no pó da estrada
A que permanece n'algum canto da memória (a real)
A que conheço só pelo abstrato
Andei pensando em toda a gente que compõe o meu mosaico
Pedaços de vitrais de toda a sorte de cores, sotaques e simpatias
Andei pensando que a coleção em meu mosaico só aumenta
E dei graças.

Dela

A minha é um jardim. Feita de plantas, sempre bem cuidadas, de folhas abertas ao sol e à chuva. Com toda a sabedoria da natureza. Dos chás, das ervas, das sementes, conhece a força dos recomeços, das curas, das rezas. Tem a beleza das flores, não só as delicadas, mas aquelas que exigem os braços fortes e as mãos calejadas para remover as pedras, aquilo que resseca, que espinha. É feita de terra, permeada das raízes fortes que deixou para trás, do Nordeste esquecido e sempre tão presente no sotaque que teima em não ir embora e na garra. Terra adubada com o carinho de irmãos e filhos distantes, mas com amor presente e suficiente capaz de preencher seus dias. E que só cresce.

Te amo, mãe. Você é minha luz.

Quando o corpo pede arrego

Há três dias caí doente e fui acometida pela rotina real: aquela que te tira da cama para o banheiro e que torna seu estômago tolerante apenas a isotônico e bolachas cream e cracker. A incapacidade forçada que uma doença provoca é de tirar qualquer pessoa que trabalha (e gosta do seu trabalho) do sério. Mas quando o corpo pede arrego, há pouco o que fazer. No primeiro dia, obedeci aos mandos e desmandos dos meus complexos sistemas (estomacal, intestinal e afins), afinal, reconheço que sem meu corpo sou nada, ou bem pouco. Fiquei em casa na esperança de me recuperar. Recusei-me a ir ao hospital, um pouco pelo pavor de ir sozinha (acho o clima de uma recepção de pronto socorro opressor e burocrático – desconfigurando o próprio sentido de emergência) um pouco pela fé de que tudo ia melhorar e ir embora do mesmo jeito que chegou. No segundo dia, ao invés de levantar serelepe, acordei pior, acrescentando aos sintomas já desconfortáveis o enjoo, que me fazem sim não ter medo de recorrer …

Da solidão

A solidão não é um momento, nem uma característica, inerente de ninguém. A solidão não é uma arma, uma fuga, nem a derradeira, ou qualquer coisa que o valha. A solidão é um estado de espírito. Dele se apropriam os indivíduos que não se curvam às exigências diárias dos sorrisos forçados, dos papéis previamente impostos, do abandono que existe em toda pseudocompanhia.

Carlos, o cabeleireiro

O ônibus estava tão abafado que o ar grudava na minha testa e empapava meu pescoço. Num dos pontos, um dos últimos antes do final, entrou o moço dos cabelos tingidos. Como é de praxe, quando se entra pela traseira e se é jovem, começou a se desculpar por tomar seu tempo, mas faz sete dias... e continuou. O calor era tanto e eu estava tão sonolenta que estava quase completando a história por ele: “faz sete dias que me livrei das drogas”, “que entrei pra esse projeto”, “que encontrei Jesus”. Mas aí, o moço dos cabelos loiros e sotaque lá de cima e revistas na mão foi logo falando que chegou há sete dias de Fortaleza e foi roubado. E perdeu as roupas e todo o maquinário de cabeleireiro. E os sapatos. Os documentos. Não dá pra pedir emprego. Sem as roupas, e perdeu até umas economias que trouxe. Fez um boletim de ocorrência no 1º DP, fez novos documentos ali no Poupatempo mas não sabia que não era de imediato, tinha que agendar. Mas aí ele foi ao sebo do seu Messias e pediu pra organizar…
Meio esfarrapado e meio bêbado o homem chegou perto da gente, que, mesmo sem perceber, ficou meio teso. Ele falou: "olha, eu não sou ninguém" (na certa poderia dizer: não sou um ladrão, um calhorda, um assassino). Aí continuou: "não, alguém eu sou, sou um ser humano". Pediu dinheiro pra cachaça. Assim, na lata. Seres humanos também bebem cachaça. Achamos honesto. Mas ninguém tinha moedas. Ele foi em outra roda falar de ser humano. De ser, não de estar, humano.

Bom gosto

Se houvesse um concurso para eleger a pessoa que mais sabe sobre ‘Cinquenta tons de cinza’ sem nunca ter lido ‘Cinquenta tons de cinza’ eu poderia me candidatar. Já escutei mais de um punhado de vezes a história da Anastasia, muitas vezes antes que eu tenha tempo de balbuciar que já sei tudo do cabo ao rabo do Christian Grey.  Eu nunca li os ‘Cinquenta tons de cinza’ nem vou ler. Eu me dou ao direito de utilizar meu tempo com outras coisas, com outras leituras. Um pouco por causa de uma coisa que o Milton Hatoum soube definir muito bem: esse ‘fenômeno’ é, como tantos, um livro de verão, que se propõe ao entretenimento (o que faz muito bem, vide a legião de fãs) e não a pensar a respeito do mundo, como a literatura de verdade, justa contraposição que Hatoum coloca frente a esse tipo de escrito. Ocorre que, com esses pensamentos todos, nunca falei ao meu interlocutor (aquele, que discorreu sobre o tal contrato entre Ana e Cris), o que pensava. Nunca fiz cara de nojo, nunca insinuei que…