Bom gosto

Se houvesse um concurso para eleger a pessoa que mais sabe sobre ‘Cinquenta tons de cinza’ sem nunca ter lido ‘Cinquenta tons de cinza’ eu poderia me candidatar. Já escutei mais de um punhado de vezes a história da Anastasia, muitas vezes antes que eu tenha tempo de balbuciar que já sei tudo do cabo ao rabo do Christian Grey. 
Eu nunca li os ‘Cinquenta tons de cinza’ nem vou ler. Eu me dou ao direito de utilizar meu tempo com outras coisas, com outras leituras. Um pouco por causa de uma coisa que o Milton Hatoum soube definir muito bem: esse ‘fenômeno’ é, como tantos, um livro de verão, que se propõe ao entretenimento (o que faz muito bem, vide a legião de fãs) e não a pensar a respeito do mundo, como a literatura de verdade, justa contraposição que Hatoum coloca frente a esse tipo de escrito.
Ocorre que, com esses pensamentos todos, nunca falei ao meu interlocutor (aquele, que discorreu sobre o tal contrato entre Ana e Cris), o que pensava. Nunca fiz cara de nojo, nunca insinuei que ele tinha um gosto duvidoso, até porque o meu mau gosto significa o bom gosto dele e assim por diante. Muitas vezes ele não quer pensar nada sobre o mundo e está certíssimo em procurar o que lhe agrade, sendo maior de idade e vacinado que é.  
A menos que seja pedida a minha humilde opinião, não vou dizer, por causa de um mínimo bem mínimo de conhecimento literário que me fez adquirir uma postura crítica sobre o que é literatura e o que não é, que livros como o Cinquentas não estão na primeira categoria. Mas sim, respeito sua de-li-ci-o-sa experiência com o livro, nem que respeito signifique ouvir mil vezes a mesma história.
Só não posso dizer que tenho a mesma resposta em muitas vezes que falei sobre algo que gostava a alguém que não gostava. A Gal Costa, o Milton Nascimento, o Chico Buarque, o Gabriel García Márquez, o Almodóvar, o Woody Allen e outros que gosto, ao serem nomeados por mim já receberam cara feia, risadinhas, deboches, olhares de soslaio, ou xingamentos. Um dia disse que fui ao show do Milton e o interlocutor respondeu: é, tem gosto pra tudo. 
Ora, eu não faço isso quando escuto alguém falando do Camaro Amarelo ou daquele blockbuster que me é insuportável ou quando a pessoa diz que ama ler e seu livro preferido é a Cabana, entre os dois que leu na vida. Se fizesse seria preconceituosa, arrogante, insensível. E o contrário?
Me conte pela 15ª vez a história do maravilhoso e dolorido amor de Ana e Christian que eu farei sim com a cabeça. Como vou menosprezar o que o outro gosta e o diverte tentando enfiar goela abaixo o que eu penso, se eu mal sei o que te faz bem? Mas, do mesmo jeito que você pouco me sabe, não simule o vômito ou esbraveje contra meu artista preferido. Balança a cabeça, vai. E ponto. Acho que é o mínimo para uma convivência pacífica. E de bom gosto.


1 comentários:

{ bárbara. } at: 11 de janeiro de 2013 19:04 disse...

não se sinta só no mundo! hahaha
tenho umas amigas que aaamam sertanejo. e eu nunca reclamei de ter que ouvir isso na república. aí um dia tava bem lá lavando louça e resolvi ouvir uma música do vinícius que é linda! chama "chama canto de xangô". adivinha? 'aaai, bárbara! pode tirar essas músicas de macumba aí'.

e você leu meu pensamento sobre as pessoas que falam que adoram ler e citam A Cabana.

beijos!

 

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