Quando o corpo pede arrego


Há três dias caí doente e fui acometida pela rotina real: aquela que te tira da cama para o banheiro e que torna seu estômago tolerante apenas a isotônico e bolachas cream e cracker. A incapacidade forçada que uma doença provoca é de tirar qualquer pessoa que trabalha (e gosta do seu trabalho) do sério.
Mas quando o corpo pede arrego, há pouco o que fazer. No primeiro dia, obedeci aos mandos e desmandos dos meus complexos sistemas (estomacal, intestinal e afins), afinal, reconheço que sem meu corpo sou nada, ou bem pouco. Fiquei em casa na esperança de me recuperar. Recusei-me a ir ao hospital, um pouco pelo pavor de ir sozinha (acho o clima de uma recepção de pronto socorro opressor e burocrático – desconfigurando o próprio sentido de emergência) um pouco pela fé de que tudo ia melhorar e ir embora do mesmo jeito que chegou.
No segundo dia, ao invés de levantar serelepe, acordei pior, acrescentando aos sintomas já desconfortáveis o enjoo, que me fazem sim não ter medo de recorrer ao hospital. Lá chegando, acompanhada, passei pelos trâmites legais de uma recepção de PS particular: entra, pega senha, senta, espera a triagem, faz a triagem, volta, espera, vomita, preenche ficha (enquanto aguarda as atendentes comentarem entre si as maravilhas dos sites de compras coletivas), espera mais um pouco...
Nesse meio tempo, entrou uma menina, mais ou menos da minha idade, desesperada, acompanhada de pai e mãe. Ela não parou quieta um instante e, enquanto era acudida pelos dois, que faziam tudo por ela, como preencher ficha ou abaná-la, a menina chorava sem parar, enquanto tinha cabeça e pescoço massageados pelo pai, queixando-se de algo que a afligia e atraindo os olhares e as atenções de todos os pobres diabos, em maior ou menor grau, da recepção. Fiquei tentando adivinhar o que ela tinha (um certo hobby meu decifrar a história de desconhecidos, ou inventá-la) e compartilhei a dúvida com Eduardo, que me acompanhava já na sala de espera da consulta com o médico.
“Não posso julgar, mas me parece que não é grave”, ele respondeu. Perguntei por quê, no que ele aponta para outra menina, novinha, que mal se mexia. Também acompanhada de pai e mãe, a menina não falava palavra alguma e, paradoxalmente anestesiada por uma dor cortante expressa em seu olhar, a garota em qualquer oportunidade se aninhava no colo mais próximo. “Ela, sim, parece estar com dor”. Com uma experiência de mais de três anos em hospital, ele concluiu: “quem tem dor geralmente não se mexe, poupa esforços. Às vezes quem faz mais escândalo sente outra coisa que não a dor, porque, se sentisse, nem conseguiria exprimi-la dessa forma”.
É claro que não dá pra julgar. Trata-se também da forma que lidamos, cada um à sua maneira, com nossas dores. Existem pessoas mais ou menos propensas ao escândalo, mais ou menos propensas ao silêncio. Minha mãe, por exemplo, é capaz de aguentar as piores dores sem reclamar. O choro da menina, a primeira, pareceu-me, pelo que veio depois, choro de medo. Esse medo do desconhecido eu já enfrentei, ainda enfrento. Depois da consulta com o médico, já na sala de medicação, eu estava aguardando junto das duas meninas. A primeira já não mais chorava, pelo contrário, parecia que o que houve na recepção foi uma crise nervosa que àquela hora já havia passado. Mesmo assim, ela ganhou preferência e passou na frente de diversas pessoas. A outra continuava lá, imóvel, muda, no colo da mãe, aguardando sua vez.
É difícil não julgar, embora a gente faça isso o tempo todo. Quando eu era criança, às vezes ia ao posto de saúde consultar, tomar injeção para alguma crise de dor de garganta ou pegar guia para exames. No interior, o SUS não tem essa mácula de não funcionar ou de longas filas de espera. (um adendo: os médicos que me atendiam no posto faziam exames e avaliações muito mais detalhadas que o médico que me atendeu no hospital particular, que pediu pra ver minha língua a um metro de distância e finalizou a consulta em 5 minutos, sem encostar o dedo em mim ou pedir exames de sangue). Quando eu era criança, eu achava que não “tinha direito” a ir ao SUS e, principalmente quando estava sozinha, morria de medo que alguém me perguntasse qualquer coisa, como: em que escola você estuda? Meu medo era que descobrissem que eu, embora sem dinheiro, estudava em escola particular e por isso estava proibida de usar o postinho. Assim, eu ia sempre com os piores chinelos e ficava meio escamoteada, para passar despercebida. Só mais tarde fui entender o quão democrático é o sistema e que por mais que alguém julgasse, era meu direito estar ali.
Talvez por isso, a menina tinha o direito de chorar suas dores ou seus desesperos da maneira que lhe conviesse, até mesmo porque, como diz meu pai, só você pode dizer quanto o seu sapato aperta o seu calo. Mas a teoria da dor e do esforço economizado me fez refletir sobre minhas dores e sobre como as grito. Ou não as grito. Calada, sou capaz de suportá-las ou prefiro me entregar ao desespero de quem tem medo do que sente? 

1 comentários:

{ doc } at: 4 de maio de 2013 18:11 disse...

Sem julgar também, a reação à dor, quando ela existe, varia muito. Particularmente prefiro os que gritam pq, geralmente, não tem nada de grave, já que tem forças para gritar (a teoria do Eduardo é bem válida).Quanto ao texto, há um bom tempo não vejo uma descrição tão boa de um PS particular comparado ao atendimento público. Melhoras e espero que vc nunca mais fique doente a ponto de procurar atendimento. Grande abraço.

 

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