Paulista da minha Pauliceia

A Paulista foi uma das primeiras coisas que vi quando aqui cheguei e já era dona de mim. A avenida larga, de prédios altos, pulsou em mim. A Avenida Paulista foi o start, desconfio que a partir dela decidi ser dela, falsa paulistana, da Pauliceia. A primeira coisa que pensei ao me deparar com aquele tanto tão verticalizado foi: preciso engolir essa cidade antes que ela me engula.
Corta.
A fila de uma loja na 25 de março. Lotada. A moça bonita e paciente atrás de mim trocou umas duas palavras e já desconfiei: é estrangeira. Catarinense, atriz, pausou a carreira para cuidar dos dois filhos. Pouca gente tem essa luxuosa possibilidade. [eu mesmo repenso uma vida de mãe e pobre mortal nessa cidade]. Estava ali para comprar as coisas para a festa do filho mais velho, que, para desespero da mãe, não queria uma festa temática. “Assim fica difícil pra mamãe, filho!”, foi a conversa que ela relatou para mim, enquanto ria. A moça bonita da qual não perguntei o nome me disse algo, no meio da conversa, que não me esqueci. “São Paulo é uma proposta. Para ser dela é preciso se entregar a essa proposta, até que você tenha energia. Depois disso, siga outra proposta”.
Corta.
São Paulo me suga as forças, as energias e o tempo dedicado às leituras. Mas faz parte do meu projeto. São Paulo ainda é meu projeto. Estou nele até me lançar em outros rumos, mas por enquanto, é a Paulista que, ofegante, ainda corre nas minhas veias, cheias de sangue pra dar. De suor pra secar. De lágrimas para engolir. É esse se sentir pequena diante de tanto prédio alto e que estremece tanta gente que ainda me faz feliz.
É esse se sentir anônima no meio de tanta gente que não quer saber da sua vida que me instiga. Quero ser alguém sim, mas também quero me esconder. A solidão incomoda, não há a generosidade presente nos ares interioranos. As pessoas do meu mundo do Velho Oeste não entendem que esse mar de gente torna as pessoas mercenárias, capazes de cobrar por um abraço. Salvo as exceções, sempre bom lembrar.

Hoje moro perto da Paulista. Poucos abraços nativos. Os que me sobram vêm de estrangeiros. Ou de nativos que destoam. Vou sendo engolida por esse mar de gente e mar de possibilidades até dar. Dar pé no barco à deriva que vai navegando por esse projeto. Até dizer: abri o ralo, Paulista. O mar secou, eu me enchi. Te engoli. 

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