Pular para o conteúdo principal

Promoção especial: remoção de tatuagem

Recebi um e-mail desses sites de compras coletivas: remoção de tatuagem por R$ 49,00. Acabou, meus caros. Vivemos num mundo em que a mágica do perene é desfeita por menos de 50 conto. Foi-se o tempo em que tatuagem era prova de amor, ou demandava noites de sono perdidas nos devaneios do que você deveria gravar para sempre em sua pele, em sua vida, em seu destino.
As bobagens da adolescência, como todo rompante de juventude, que te fazem desenhar um ET na panturrilha com um tatuador nada ortodoxo, numa excursão à praia, verão de 98. Na hora o extraterrestre fazia todo o sentido, mas na volta às aulas ou no verão seguinte você se debruçava choroso sobre sua consciência e se perguntava: por quê? O ET sorrindo de volta. Por quê?!?
Na próxima praia ou na próxima esquina você encontrava a solução: um tribal, fechando a perna, apagando a burrice, o passado, a rebeldia. O tribal era a certeza de que não há crime sem castigo. E que sob aquele desenho feito à força existia a prova real da sua babaquice. Um conserto, meia boca, do seu atrevimento juvenil. Uma tatuagem encobre a outra, assim como um novo amor apaga o anterior.
Acabou. Não há mais bobagens cometidas sem possibilidade de volta. Não existe mais o eterno. O transitório tomou conta de tudo. “Que ousada aquela menina, toda rabiscada”. Duas entrevistas de emprego em que olham feio para suas tatuagens e já era. Ela pode voltar atrás à sua exaltação de personalidade e apagar tudo. Ser mais uma. O brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Menos de 50 paus e removo a tatuagem que fiz nas costas. A tatuagem que meu pai quase chorou quando viu. Toda uma angústia familiar resolvida por menos de uma onça. Tudo já é passageiro. A remoção das tatuagens é só o reflexo de nosso tempo. A remoção das tatuagens por um preço quase irrisório é o fim das bodas de prata. Ou dos eletrodomésticos acompanhando gerações inteiras. Os casamentos não duram, nem as máquinas de lavar. Tudo é de plástico, quebrável, removível.
Meus caros, é o fim. Por menos de 50 reais o que você gravou pra sempre ruiu. Todo o símbolo pensado simbolizando um marco de sua identidade. Já era. O que você prometeu no altar, os laços perenes, as fotos amareladas nos álbuns, as cartas guardadas nos armários, a louça de vovó. Nada dura mais pra sempre. Nada.

Comentários

Michele Matos disse…
Cinquentão? Eu perdi a chance de ser rebelde na adolescência por cinquentão?
=/
Texto ótimo, pra variar =*
meianoiteeseis disse…
É por isso que minhas tatuagens sempre foram feitas de caneta BIC - indolores, poucas cores e com a saliva e uns esfregões, elas sumiam; assim como a consciência pesada por tatuar um Dragão Chinês e no final parecer a Dercy curvada.

obs.: ótimo texto.

Postagens mais visitadas deste blog

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…