Pular para o conteúdo principal

A fé que remove berrugas


Quando pequena, eu, meus pais e irmão rezávamos todas as noites antes de dormir. Era como um ritual. Meu pai, mesmo cansado, a gente, mesmo com sono, nada nos impedia. Antes das preces católicas em voz alta, meu pai se encarregava de fazer o oferecimento. Durante um período, porém, eu tive participação especial.
- ... por tudo isso, pedimos a Deus.
- Pai!!!
- Ah, é. Tatiana. Agora você.
- Eu quero pedir a Deus que caia a berruga do meu dedo.

Minha mãe mal continha o riso. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e uma berruga. Era no dedo médio, não sei em qual mão. Não era grande, mas ficava na lateral, raspava no outro dedo e me incomodava muito. Ao invés de pomadas ou qualquer substância curativa, entreguei-me à oração. Sei lá por quantas noites rezei. Nessa distância atual com minha infância, acredito que foram muitas. Um dia, gritando, anunciei a todos: a berruga havia caído. Com o fim da berruga, o fim do incômodo e o início de uma certeza. Eu tinha a capacidade de ter fé.
Não me acho uma pessoa muito sortuda. Falta conquistar ainda muita coisa e, confesso, por vezes desanimo de tão penoso que se torna meu caminho. Mas em todo esse trajeto, inúmeras vezes tive a prova de que precisei ter fé e, rezando com força, fiz as coisas mudarem. De um jeito tão surpreendente que até me comovia.
Não tenho o intuito de fazer quem desacredita acreditar, não tenho essa pretensão e nem o poder do argumento. É apenas uma reflexão e um pedido. No último dia deste ano, desejo forte para que em 2014 eu tenha cada vez mais fé. Pode ser aquela ingênua, que eu tinha quando criança. Pode ser a grandiosa, que já me levou a outros mundos.
Eu sobrevivo em São Paulo há quase 3 anos. Já vivi momentos bem ruins, é verdade. Violência, medo, ignorância. Prostrei-me algumas vezes de joelhos. Em outras gritei, reação absurda, diante da sombra. Na obstinação ou no mantra, tudo vem dando certo. Senão sozinha, com a ajuda de pessoas colocadas quase que divinamente em meu trajeto.
Tem gente que me acha doida por morar com gente desconhecida. Pode parecer tolo, mas eu acredito na minha intuição. E confio nos estalos que recebo de uma força (que eu acredito) Superior. Eu brinco dizendo que, se tivesse medo, não tinha saído debaixo das cobertas da minha mãe. Não se trata de não ser medrosa. Sou tanto que dá vergonha. Tenho medo nível cagaço. Mas eu teimo em desafiá-lo. Tenho fé de que ando protegida. Não é tão bobo a ponto de pensar que, se eu rezo, nada de mal nunca vai me acontecer. Mas sim, praticando minha fé, tenho chances de atrair muito de bom no meu caminho.
Há 5 anos, tive uma hemorragia séria e quase morri. Meus pais, que me acompanharam no dia ao hospital, lembraram do ocorrido durante a última viagem que fizemos. Naquele dia, os dois seguraram minha mão e gritaram, assim mesmo, quase brigando, para que eu reagisse. Quando voltei do quase coma, o médico, meio nervoso, brincou que eu era teimosa.
Pode ser que com o tempo a berruga iria mesmo cair, sozinha. Pode ser que eu sobreviveria daquela vez no hospital, independente dos gritos. Pode ser que as histórias de violência fossem terminar daquele jeito mesmo, sem problemas. Essa pode até ser sua opinião. Mas, para mim, não. Foi há pouco que tive esse insight. Eu vivo e sobrevivo com muita teimosia. E fé.
Que ela não afrouxe diante dos corações duros e almas vazias que encontro, amém.

Comentários

Graci disse…
Hoje me peguei pensando na fé também, Tati, que diferentemente de você, não tenho.
Desejei ser um pouquinho mais aberta ao inexplicável.
Acho muito bonita sua relação com a religião. Feliz ano novo!
Areliza Mateus disse…
"Medo nível cagaço" foi ótimo. Eu tbm sou do tipo medrosa e me identifiquei muito com seu texto. Às vezes aparece uma força e uma coragem tão inexplicáveis, que só a minha fé em algo superior consegue explicar. E olha que ainda me considero não uma pessoa de pouca fé, mas de fé pouco praticada. Quando olho pra toda a situação que antecedeu o aviso da minha gravidez, tenho mais certeza ainda de que o Deus que eu creio existe. E, dona Tatiana, que história de hemorragia foi essa?

Postagens mais visitadas deste blog

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…