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Das amarras

Eu já soltei as minhas amarras e, embora elas estivessem já frouxas, é natural da desamarração doer. Quando soltei o último nó, suspirei. Não de felicidade, porque não é próprio do desatamento ser alegre. São dois cordões que se desenlaçaram e seguirão sós. Sem nós, mas sós. Suspirei por ter ido, por ter doído, por tudo ter sido. Ou não ter sido.
Não penso que seja fácil, nunca é. Mas no meu caso minhas amarras me prendiam à coisa perdida, me atavam à paisagem que eu não enxergava mais no porto. E dessa convicção veio minha paciência, necessária a todo e qualquer desatamento de nó. Do cordão que se embola às linhas de texto que não se concluem. Todo e qualquer nó pronto a ser desmanchado determina um exercício de sabedoria, mas, para além disso, exige a certeza de que esse nó incomoda. Cutuca, arde, séria ferroada.
Porque tive essa certeza, não posso exigir dos outros enozados que se desarticulem fácil. Que desfaçam os laços dos cadarços, que concluam de forma brusca os enredos, feitos para durar, embora duros. Que se desembaracem, simplesmente, como cabelos pela manhã. Não.
É difícil chegar à conclusão de que estamos cheios de nós. De que estamos cheios de nós mesmos. De que é preciso desfazer a trama, desenroscar os vínculos e soltar as amarras. De um jeito doído de ser para sempre, ou para um tempo longo. E, principalmente, de que não teremos mais nós. Mas com isso não teremos mais nós dois.
Estive cheia de nós. Por isso, acredito que posso dizer, com propriedade, que o caminho de desamarração dos laços exige um longo processo de reflexão. Que não acontece de uma hora para outra. É um alívio e ao mesmo tempo um embaraço na garganta. Ainda com propriedade, posso dizer que a partir do desatamento vem aquilo que é ruim, do que é próprio doer. Mas vem também aquilo que é bom, aquilo que é novo, que, sem embaraço, soma, multiplica.

Estou sem nós. Sem nós na garganta. Outros nós virão. Mas por enquanto espero fazer parte do que é bom. Sem nós. Ou para nós. 

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