Pular para o conteúdo principal

Das amarras

Eu já soltei as minhas amarras e, embora elas estivessem já frouxas, é natural da desamarração doer. Quando soltei o último nó, suspirei. Não de felicidade, porque não é próprio do desatamento ser alegre. São dois cordões que se desenlaçaram e seguirão sós. Sem nós, mas sós. Suspirei por ter ido, por ter doído, por tudo ter sido. Ou não ter sido.
Não penso que seja fácil, nunca é. Mas no meu caso minhas amarras me prendiam à coisa perdida, me atavam à paisagem que eu não enxergava mais no porto. E dessa convicção veio minha paciência, necessária a todo e qualquer desatamento de nó. Do cordão que se embola às linhas de texto que não se concluem. Todo e qualquer nó pronto a ser desmanchado determina um exercício de sabedoria, mas, para além disso, exige a certeza de que esse nó incomoda. Cutuca, arde, séria ferroada.
Porque tive essa certeza, não posso exigir dos outros enozados que se desarticulem fácil. Que desfaçam os laços dos cadarços, que concluam de forma brusca os enredos, feitos para durar, embora duros. Que se desembaracem, simplesmente, como cabelos pela manhã. Não.
É difícil chegar à conclusão de que estamos cheios de nós. De que estamos cheios de nós mesmos. De que é preciso desfazer a trama, desenroscar os vínculos e soltar as amarras. De um jeito doído de ser para sempre, ou para um tempo longo. E, principalmente, de que não teremos mais nós. Mas com isso não teremos mais nós dois.
Estive cheia de nós. Por isso, acredito que posso dizer, com propriedade, que o caminho de desamarração dos laços exige um longo processo de reflexão. Que não acontece de uma hora para outra. É um alívio e ao mesmo tempo um embaraço na garganta. Ainda com propriedade, posso dizer que a partir do desatamento vem aquilo que é ruim, do que é próprio doer. Mas vem também aquilo que é bom, aquilo que é novo, que, sem embaraço, soma, multiplica.

Estou sem nós. Sem nós na garganta. Outros nós virão. Mas por enquanto espero fazer parte do que é bom. Sem nós. Ou para nós. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…