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O amor é como a Paulista em véspera de Natal

SP. Avenida Paulista. Véspera de Natal.
O caos.
O amor paulistano é feito de dois corpos cansados. Dois seres que se desencontram, cada qual de um lado da Avenida. Distantes pela profusão de cores, sons e luzes que se engalfinham, um aqui, outro ali, disputando a atenção de uma multidão. O amor são esses dois humanos tentando se encontrar na aglomeração.
O amor paulistano é ilógico. É esse rapaz baixinho e esquisito tentando beijar a morena alta e bonita na esquina com a Augusta. Ela faz charme, mas nega, é próprio dela negar. Em SP, o amor faz menos sentido que esses bichos gigantes em pelúcia mofada de outros Carnavais (Natais). Tem menos coerência que essa neve da decoração do Santander, que essa tentativa de europeizar o que já é Tropicália.
O amor em São Paulo tem menos nexo que esse frio, esse vento gelado em pleno mês de dezembro, como se o calor tivesse desmarcado encontro com o verão. O final do ano é cheio de encontros furados. Os corpos que adorariam se cruzar se embatem nas obrigações sociais – dos almoços coletivos, trocas de votos vazios, eventos(zzz) de networking, nas festinhas em que sobram os sorrisos amarelos e os presentes nascidos para serem trocados, porque amigo secreto que é amigo secreto já nasceu como roubada.
O amor, em qualquer avenida de São Paulo, é uma roubada. É a mãe desesperada burlando a vez da sua criança na fila, para tirar a foto com o Papai Noel. As duas mães batendo boca enquanto as crianças choram com chupeta e cartinha em punho. Isso é o amor de um paulistano. É a mentirinha, é o furo, é a lama, é a lama. É esse correr esbaforido no shopping, é esse pequeno ato fraudulento em meio ao tumulto.
A Avenida Paulista é esse amor, que começa no Paraíso dos artistas de rua livres e desimpedidos para ganhar uma moeda de consideração e que termina na Consolação do pai desajeitado e recém separado buscando arrancar um sorriso do rebento. Afeto comprado com um sorvete. Ou um Ben-10. O amor, em SP, é essa compensação de presença.
Nessa larga avenida da Pauliceia Desvairada, o amor é esse Merry Christmas desafinado. É esse urso panda dançando funk na mesma calçada que a indiana vendendo lenço turco. É essa falsa pretensão de cidade cosmopolita e high-tech, estampada nas letras dançantes no prédio da FIESP, enquanto a verdade grita rouca em corações analógicos e emparedados pelo medo.
São Paulo é essa confusão, essa desordem, e o amor, em SP, é esse motim.

O amor em SP é a mensagem visualizada e não respondida.
É a desculpa esfarrapada. É o pisca-pisca queimado.
É o minipanetone egoísta.
É trabalhar na noite do dia 24.
Em SP, o amor são os votos condicionados.
O amor, em SP, é um orgasmo de desencontros.

Comentários

L. disse…
Pois esse amor de São Paulo também veio mais para o Sul... bem mais frio e monótono, é claro.
Seus textos, estes estão cada vez mais incisivos e são um deleite pra esta persona grata.

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