125x125 Ads

O pote de açúcar

Morei por cerca de três meses com quatro homens. Dormia na sala, num colchãozinho arranjado, e minhas roupas ficavam dobradas em cima da mala em um canto do cômodo. Algumas pessoas ainda estranham quando eu conto isso e me obrigam a detalhar que os quatro na verdade eram: um grande amigo, o irmão dele e outros dois que dividiam apartamento. Muito generosos, eles me acolheram na república quando eu, depois de ter arrumado um emprego em São Paulo, não tinha casa. Deixaram-me permanecer lá, pelo tempo necessário. Jamais vou me esquecer disso.
E não esqueço ainda os ensinamentos dessa convivência. Uma convivência muito fácil, diga-se de passagem. Com quatro mulheres, não sei se duraria tanto. Salvo alguns percalços aqui e acolá, os homens são mais fáceis de lidar. Não vou reduzi-los a uma mesma personalidade, mas, em geral, eles não oscilam tanto, não se exaltam tanto, não veem tantos problemas onde não existem tantos problemas.
Nada contra o clã feminino, ressalto. Mas tenho pra mim que, mais do que me salvar a vida e me dar um teto por três meses, os meus colegas de apartamento me proporcionaram uma experiência quase antropológica. Entendi muito do mundo dos machos depois dessa. E todo meu aprendizado pode ser resumido a um exemplo concreto: o pote de açúcar.
Na cozinha existia um pote de açúcar grande, capaz de abrigar uns cinco quilos do alimento. Num dos meus primeiros dias de hóspede, em que precisei adoçar algo na xícara, perguntei onde guardavam o açúcar e me apontaram o recipiente na prateleira. Reticente, passei os olhos em volta procurando um açucareiro menor, esses de mesa, mas como a mesa tinha tudo e qualquer outra coisa, exceto um porta-açúcar, retirei o potão do armário, já buscando uma colher na gaveta. “Não”, me disseram. “Aí dentro”.
Sim, o pote tinha uma colher de sopa espetada na montanha de açúcar. A mecânica era muito simples e consistia em levar o açúcar à xícara com essa colher, que também servia para mexer dentro da xícara, sendo devolvida ao pote (dava pra passar uma aguinha na torneira antes, não sei se todo mundo levava à risca essa regra).
Pronto. Quer praticidade maior? Diz-me, ó céus, para que intermediários, quando o caminho pode ser direto e reto? Eis a chave, garotas, do mundo masculino. Tudo é muito simples, tal e qual um pote de açúcar com a colher dentro. Não sejamos tão burocráticas no entendimento. Não exijamos ou utilizemos um açucareiro, uma colher para passar o açúcar do pote para o açucareiro, outra para pegar o açúcar do açucareiro e despejar na xícara e outra colher ainda menor para mexer o líquido na xícara. Percebe o cansaço? Percebe por que muitos homens se enfastiam, enfezam-se, até, com toda a complexidade de emoções que lhes é exigida e que eles, por natureza, não conseguem ter?
Depois do meu estudo de caso, em campo, obrigo-me, às vezes a contragosto, a advogar em favor de alguns homens. Diante de todo o caminho tortuoso cheio de fios, hipóteses, teorias da conspiração, de todas as suposições e conjecturas tecidas, presumidas e induzidas por, e apenas por, uma mulher desesperada e à beira de um ataque de pânico, balanço a cabeça por alguns segundos e penso que aquele homem não conseguiria sobremaneira imaginar que um simples gesto renderia tal conto de realismo fantástico.
Sem menosprezo. Não se trata de subtraí-los a uma capacidade emocional menor. Trata-se apenas de imaginar que, diante da tarefa de guardar açúcar na cozinha, um homem precisa de um pote e uma colher, somente. Já a mulher tende a embaraçar a missão e, como se não bastasse, inclina-se a exigir do homem que raciocine como ela, que mexa o açúcar como ela, e que adivinhe que o caminho mais difícil é, obviamente, o único possível.
Que não se torne regra, mas, minha filha, o homem não liga às vezes porque não deu pra ligar. Disse o que disse porque era o que estava pensando, te juro. Chamou pra sair às 9 da noite porque foi o único horário que deu, ou porque é a hora que ele pensa em fazer alguma coisa. Sumiu porque sumiu, não dava mais. É duro, chicas, mas os homens, em geral, são feitos de poucas surpresas. Claro, também existem os jogadores e, além deles, os melindrosos, os medrosos, os perversos, os mimados, os babacas. Esses pregam umas surpresinhas ruins, mas, se você notar bem, tudo é muito previsível.

A imprevisibilidade dos homens é inversamente proporcional à complexidade feminina e a sua capacidade de surtar. Se não foge à regra, o homem, esse mesmo, aí do seu lado, ou na tela do seu celular, é bem simples. É só um cara mexendo o açúcar com a colher do pote.

2 comentários:

{ Gisa } at: 26 de dezembro de 2013 18:52 disse...

Muito bom, como sempre, isso me fez lembrar o Mateus que quando foi morar sozinho, veio me contar todo feliz (para meu desespero) a descoberta que cozinhar miojo na chaleira era ótimo pois não precisava escorrer, pq a chaleira já tinha peneira kkkkkkkkkkkk

{ Klaus Pettinger } at: 26 de dezembro de 2013 19:13 disse...

Obrigado, Tati, por prestar esse serviço inestimável à perpetuação da espécie humana! Enquanto comia o atum ralado direto da lata, sentado na ponta da cama, vi um fio de esperança no horizonte! Obrigado!

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine