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Carlos, o cabeleireiro

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O ônibus estava tão abafado que o ar grudava na minha testa e empapava meu pescoço. Num dos pontos, um dos últimos antes do final, entrou o moço dos cabelos tingidos. Como é de praxe, quando se entra pela traseira e se é jovem, começou a se desculpar por tomar seu tempo, mas faz sete dias... e continuou. O calor era tanto e eu estava tão sonolenta que estava quase completando a história por ele: “faz sete dias que me livrei das drogas”, “que entrei pra esse projeto”, “que encontrei Jesus”. Mas aí, o moço dos cabelos loiros e sotaque lá de cima e revistas na mão foi logo falando que chegou há sete dias de Fortaleza e foi roubado. E perdeu as roupas e todo o maquinário de cabeleireiro. E os sapatos. Os documentos. Não dá pra pedir emprego. Sem as roupas, e perdeu até umas economias que trouxe. Fez um boletim de ocorrência no 1º DP, fez novos documentos ali no Poupatempo mas não sabia que não era de imediato, tinha que agendar. Mas aí ele foi ao sebo do seu Messias e pediu pra organizar umas prateleiras e em troca não quis dinheiro somente umas revistas para oferecer nos ônibus para poder pagar moradia até os documentos ficarem prontos e pedir emprego. As revistas eram poucas porque com a chuva que deu esses dias a maioria que tava na caixa encharcou e se perdeu a metade.
O meu sono foi embora junto com o fôlego que ele mantinha entre as orações. Carlos, o cabeleireiro, me prendeu a atenção, me levou dois tostões e uns desejos de boa sorte. Quis lhe dizer as ruas perto de casa onde tinham uns salões. Ele já me falou onde já tem certo emprego, mas antes precisa do documento e das roupas novas, pois aquelas mesmo – uma camisa vermelha, uma calça azul, da mesma cor da sandália – tinha comprado num bazar de igreja ali perto. Junto com meus tostões, que dei em troca de uma palavra cruzada, Carlos recebeu mais um bolo de notas e moedas. Nem acreditava. A hospedagem custava 30,00 se chegar depois da meia-noite. Antes, 70,00. Perto da Estação da Luz era mais barato, mas dali ele queria distância, tinha muito drogado.
- É aqui que eu vou ficar, já me familiarizei – falou, quando chegamos ao Parque Dom Pedro II. Foi aqui que perdi as minhas coisas e é aqui que vou conseguir tudo de novo. E se vocês me encontrarem no salão trabalhando, me lembrem desse ônibus, faço o cabelo de vocês de graça.
Era tamanha simpatia, era tamanha riqueza de detalhes que ninguém nem cogitou que era mentira sua história. Todo mundo queria saber mais de Carlos, o cabeleireiro, atração maior do coletivo.
Uma mulher deu 10 centavos e um Deus te abençoe. Ele fez questão que ela levasse uma revista. Ela disse que não. Carlos falou que aquela era evangélica. Ela aceitou. Todo mundo já em pé, esperando pra descer, amolecendo de calor, acompanhou o ato. O cabeleireiro reclamou do quentume. Fortaleza é abafado, mas corre vento. “Aqui tem muito concreto”, eu falei. Outra mulher, que havia dito três vezes a palavra “fé” para ele, perguntou por que ele saiu da terra linda para acabar em São Paulo. “Minha mulher fez umas coisas erradas e eu vim. Deixei lá os dois filhos” e ele largou a mochila no banco. Pensei que ia mostrar a foto, mas puxou a manga da camisa vermelha pra exibir orgulhoso a tatuagem no antebraço: Wilgner e Isaque.

Antes de descer falei boa sorte. Falei pra ele procurar outros sebos, vender mais livros, mais revistas, que era legal vender isso em ônibus, até ele conseguir o dinheiro pra arrumar a vida. Acho que falei pouco de São Paulo. Tem muito concreto, sim. Gente concreto também. Gente surda, como paredes. Surda pra muita gente, principalmente pra gente como ele. Gente impregnada no marasmo de uma surdez covarde, que só ouve o que lhe convém.
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