Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2014

Sobre carecer

Achava feio ser carente. Uma vergonha, quase uma desonra. Costumamos, se notarmos bem, associar carência a tudo que é mimado, aquele querer com birra, batendo o pé. Carente é sinônimo de um ser pegajoso e também é justificativa para as atitudes mais mesquinhas. Fez isso ou aquilo porque é carente. Que carência! Diz-se de uma atitude chata, pedante, indigente.
Aí notei que a gente maculou essa palavra, como faz com tantas outras. E a mancha da carência linguaportuguesticamente falando me fez sentir vergonha de senti-la. Foi meu terapeuta que martelou nisso, quando eu chegava me desculpando: “sei que isso é carência. Ou agi assim por estar carente”.
E ele rebatia essa autoanálise meio capenga com uma pergunta intrigante. “O que há de errado na carência?”.

Carência é carecer. A gente – pelo menos aqui no Sudeste e no Sul – tem mania de usar só o substantivo ou o adjetivo, mas é no verbo que essa palavra se mostra mais bonita e talvez é nela que reside seu real significado.  Carecer é não…

Escorpianos

Quando decidi morar em São Paulo, estabeleci como meta conseguir pelo menos três entrevistas em uma semana para justificar uma viagem de 900 km do Sul para lançar a sorte. Três tentativas para relevar uma viagem com pouco dinheiro e pouca esperança. Quando recebi a ligação da terceira empresa querendo me entrevistar dali a poucos dias, vibrei sozinha na mesa do almoço. Ninguém da minha família, moradora de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, disfarçava que não queria que eu viesse para São Paulo. Meu pai era o que menos escondia a torcida ao contrário. Seja pela violência, pelo caos, pela enchente, São Paulo não era o que sonhava para mim. Frustrada sem a ola familiar, tive um chilique. Já era medo demais enfrentar a gigante de pedra sozinha sem um suporte. Então meu pai me chamou na varanda e me falou algo que nunca esqueci. Em 1973, com menos idade que eu, também desafiou a si mesmo para bater de frente com outra metrópole. Abandonou a mesma cidadezinha pacata – bem m…

Meu menino

Por todas as vezes que me carregou nos braços, pegou-me no colo e, principalmente, pelos passos caminhados lado a lado. Pelas nossas viagens interiores, sempre rumo ao desconhecido, não porque necessariamente desconhecíamos o destino, mas porque ao seu lado qualquer rota foi sempre plena de um novo olhar. Por ter sido meus olhos quando não quis enxergar a verdade ou a hora da mudança (contraditoriamente tão ansiada, mas um tiquinho adiada, por medo, quem sabe). Mas principalmente por ter sido meus ouvidos diante de tanto chororô. Por todas as idas e vindas, tão necessárias (mas tão ardidas!) para o nosso crescimento. Por ter me permitido mudar. Por ter carregado comigo minha vida em caixas. Por ter atendido meus apelos, quando achei que não pudesse dar conta. Pelas contas, pelos contos fantásticos escritos – e imaginados – a quatro mãos. Pelos móveis montados e desmontados (mesmo me amaldiçoando baixinho por insistir no mesmo guarda-roupa). Por ter desafiado as câmeras do metrô para …

O velho

A imaginação sempre me foi companheira fiel. Bem criança eu já havia estado em todos os outros mundos possíveis de serem habitados por meio da fantasia. Era rainha, estrela de cinema. Tinha amiga imaginária. Não sei bem se isso é fruto das combinações astrológicas de meu mapa astral meio barco à deriva, das centenas de livros que meu pai vendia na Livraria Tatiana e eu devorei, de todos os poemas e trechos de músicas que eu lia na apostila da Positivo, ou mesmo de todos os mundos para os quais meus pais me possibilitavam viajar por meio de suas lembranças.
“A imaginação é a louca da casa”, disse Santa Teresa de Jesus, ecoada pela espanhola Rosa Montero em um de meus livros preferidos. “A louca da casa”, seu romance difícil de catalogar, passeia entre o mundo real e o fictício e retrata justamente reminiscências da infância da escritora. Minha infância é, ela mesma, situada num limbo entre o real e o imaginário. Ainda hoje, quando revisito a longínqua São Lourenço do Oeste, sinto-me co…

.

Não sei o que há entre mim e o pôr do sol. Deve ser esse quê de morte e renascimento, diários, que volta e meia são tão necessários. Não sei que encanto há nele ir, dia a dia. Talvez é a certeza de ele voltar, a cada manhã. Sei que no dia em que ele morreu, diante de mim, na Lagoa, era eu que renascia.






3 anos de vida na selva de pedra lascada

São Paulo, meu amor.
Ontem mesmo tu me roubou o celular. Há uns dois anos foi a bolsa toda. Tua filha Augusta está cada dia mais malandra. Mesmo assim, mudei-me pra perto dela. Aliás, é mais fácil te amar estando bem localizado. Consigo chegar mais rápido e fácil nos teus desalinhos. Ou nos teus bares chiques, em todos teus respiros. É por te amar que me lasco tanto. É esse teu trânsito sufocante, não só de carros, mas das tuas gentes de pernas brancas, pretas e amarelas. Todas automáticas rumo ao bonde. É essa sua mania de chover às cinco da tarde, cidade-pranto, de chorar copiosamente em cima do povo fudido e de mim, lascada, quase sempre sem sombrinha. São esses corações duros, emparedamento tamanho que faz chocar qualquer coisa de gentileza. Mon amour, tu me dá gente de presente e arranca na mesma proporção. Me dá experiências fantásticas, todas com fila. Porque tu pulsas, cidade-coração, é maiúsculo o som de tuas esquinas. É essa barulheira mesquinha, cada qual falando do outro …