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3 anos de vida na selva de pedra lascada

São Paulo, meu amor.

Ontem mesmo tu me roubou o celular. Há uns dois anos foi a bolsa toda. Tua filha Augusta está cada dia mais malandra. Mesmo assim, mudei-me pra perto dela. Aliás, é mais fácil te amar estando bem localizado. Consigo chegar mais rápido e fácil nos teus desalinhos. Ou nos teus bares chiques, em todos teus respiros.
É por te amar que me lasco tanto. É esse teu trânsito sufocante, não só de carros, mas das tuas gentes de pernas brancas, pretas e amarelas. Todas automáticas rumo ao bonde. É essa sua mania de chover às cinco da tarde, cidade-pranto, de chorar copiosamente em cima do povo fudido e de mim, lascada, quase sempre sem sombrinha. São esses corações duros, emparedamento tamanho que faz chocar qualquer coisa de gentileza.
Mon amour, tu me dá gente de presente e arranca na mesma proporção. Me dá experiências fantásticas, todas com fila. Porque tu pulsas, cidade-coração, é maiúsculo o som de tuas esquinas. É essa barulheira mesquinha, cada qual falando do outro sempre falando de si. É esse maldamento coletivo e tão estranhamente individual. É isso que me cansa, se me permite.
Sempre sonhei encontrar em alguém um lar. E foi em ti, cidade-casa, que me baguncei. Foi nesse tanto de sonho pulando que encaixei o meu. Nesse teu mau-humor matinal abriguei meu acordar. O Marcelino Freire diz que em todas as tuas outras irmãs se desperta. Em ti se acorda. Em Fortaleza, em Recife, em Porto Alegre e até em Curitiba espreguiça-se mesmo que em frações de segundos. Em ti, cidade-despertador, uma buzina entra tão alto na fresta da janela que me arranca as cobertas. Brutalmente.
Todo dia um anjo torto me carrega pela mão e me defende dos teus perigos. De alguns não. De ser viciada em ti, de mendigar tuas trovas, de repousar em tua desordem com sorriso de canto de boca, pós-amor bem feito. Já me vejo enredada, cidade-trama, na teia que você armou chamada neurose coletiva. Há 3 anos tu me lasca e, embora pareça ser canto trágico, vejo-me romanticamente envaidecida por deixar-me ser parte da tua massa cinzenta. De gente, de nuvem.
Perdoo-te por ser louca. Por ser caótica, cidade-dos-infernos. Esquizofrênica. Como aqueles artistas bestialmente gênios que põem pra sofrer a mulher e os filhos. Reconheço, assim como eles, que não dá pra me seres tudo ao mesmo tempo. Tu és o amor de todo mundo e às vezes me emputeço. Mas se fosses só minha, não seria essa tua loucura que me arfa. Que me preenche. Daqui a pouco fico prenha de tanto amor por ti.
Há 3 anos me embrenho nessa selva e tento desfazer o bordado de teu sudário. Mas tu, cidade-penélope, dia e noite continua a tecer. A embaraçar as linhas. A trançar os pontos. A costurar as estações. No final, fica bonito.
Tentei explicar como (e principalmente por quê) continuo nessa. Eu em ti tenho fluidez, tu me és recíproca e confio-te as minhas aspirações. Desses pilares eu acredito que saia uma sólida relação. Tem outra coisa. Eu em ti são só 3 anos dos 28. Tu já tem 460. E eu respeito os mais velhos.

Com amor,

Tatiana 


1 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 25 de janeiro de 2014 22:09 disse...

São Paulo é muito dúbia, esse texto é muito, mas muito foda, e você é muito grande. Eita orgulho.

 

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