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O velho

A imaginação sempre me foi companheira fiel. Bem criança eu já havia estado em todos os outros mundos possíveis de serem habitados por meio da fantasia. Era rainha, estrela de cinema. Tinha amiga imaginária. Não sei bem se isso é fruto das combinações astrológicas de meu mapa astral meio barco à deriva, das centenas de livros que meu pai vendia na Livraria Tatiana e eu devorei, de todos os poemas e trechos de músicas que eu lia na apostila da Positivo, ou mesmo de todos os mundos para os quais meus pais me possibilitavam viajar por meio de suas lembranças.
“A imaginação é a louca da casa”, disse Santa Teresa de Jesus, ecoada pela espanhola Rosa Montero em um de meus livros preferidos. “A louca da casa”, seu romance difícil de catalogar, passeia entre o mundo real e o fictício e retrata justamente reminiscências da infância da escritora. Minha infância é, ela mesma, situada num limbo entre o real e o imaginário. Ainda hoje, quando revisito a longínqua São Lourenço do Oeste, sinto-me como que revendo um filme em amadora projeção.
Minha Macondo, ou minha Pasárgada, dependendo do quanto chove ou de quantos desejos me são prontamente atendidos, é feita de reencontros. Com os outros e comigo mesma. Em cada reencontro com amigos, irmãos e pais são suscitadas historietas incrementadas diante das lacunas da memória que já se deixa enganar. Nos reencontros comigo mesma recordo-me das minhas viagens interiores.
Foi numa ensolarada tarde de dia útil de abril, já quase à beira dos trinta, que me lembrei do Velho da Tarde. Andando de mãos dadas com a pacatez e a apatia da cidade serena, diante do sigilo das ruas sempre (e sempre) vazias, naquela sensação enfastiada de sono pós-almoço que no meu povoado é perene, ouvi alguém dizer: “Boa tarde!”. E lembrei-me de quando, menina, minha imaginação abria suas comportas ao ouvir essa expressão.
Como queria escrever o mundo antes de saber as letras, minha mente construía imagens para tudo que eu ouvia. No meu entendimento, ‘boa tarde’ me remetia a um velho, de barba branca e rala e expressão serena. Esse senhor, que vejo hoje em minha memória como naquela época, não era meu avô, nem meu nonno, nem nenhum ator que tinha visto na televisão. O Velho da Tarde era meu, só meu. O meu personagem que não desgrudava de seu cenário. Sentava-se numa cadeira de balanço, na varanda de uma casa de madeira velha, como ele. Tinha a expressão plácida diante do céu cor de pôr do sol e, assim, num estado de êxtase ou espanto, meu velho contemplava todo entardecer.
Foi nessa última viagem que em sonho ainda acordada encontrei-me com o velho. Ele não esboçou reação ao me ver sentar-me de mansinho nos degraus que davam para sua varandinha. Acho que os velhos adquirem uma estranha sabedoria de se fingir invisíveis, assim como a ignorar o que não lhes diz muito respeito. Sem saber se ele dormia, ou fingia, lancei-me a pergunta que me levou em pensamento até ali:
- É tarde?
- Sempre é – respondeu-me.
- E o que fazer em relação ao tardio?
- Recordar, recordar sempre.
- Até mesmo o que te faz mal?
- Recorde até sua memória gastar de reviver. Não forçosamente. Deixe a lembrança vir de forma natural, como o fim desta tarde. Não adianta lutar contra isso. Mas de nada adianta querer o entardecer às duas horas. Também deixe a lembrança esvair-se, esmiuçar-se, como deve ser. Deixe-a passar por você. É por não querer aceitar a hora de cada coisa vir, nem antes nem depois, a raiz de todo sofrimento. Cada coisa tem o seu tempo. Até o esquecimento.

O Velho da Tarde nunca havia me dito nada. Mas eu também nunca havia lhe dirigido a palavra. Nessa última viagem, nessa última Páscoa, nesse último renascimento, aprendi muito sobre lembrança, sobre reencontro, sobre esquecimento. Sobre passar. Sei que, assim como a louca de casa, tenho um companheiro fiel, esperando-me sereno, sob um céu alaranjado, em cada entardecer. E nem é preciso revisitar minha cidade para revê-lo. Basta revisitar a fantasia inesgotável da minha infância para reencontrá-lo. Para reencontrar-me.

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