Meu menino

Por todas as vezes que me carregou nos braços, pegou-me no colo e, principalmente, pelos passos caminhados lado a lado. Pelas nossas viagens interiores, sempre rumo ao desconhecido, não porque necessariamente desconhecíamos o destino, mas porque ao seu lado qualquer rota foi sempre plena de um novo olhar. Por ter sido meus olhos quando não quis enxergar a verdade ou a hora da mudança (contraditoriamente tão ansiada, mas um tiquinho adiada, por medo, quem sabe). Mas principalmente por ter sido meus ouvidos diante de tanto chororô. Por todas as idas e vindas, tão necessárias (mas tão ardidas!) para o nosso crescimento. Por ter me permitido mudar. Por ter carregado comigo minha vida em caixas. Por ter atendido meus apelos, quando achei que não pudesse dar conta. Pelas contas, pelos contos fantásticos escritos – e imaginados – a quatro mãos. Pelos móveis montados e desmontados (mesmo me amaldiçoando baixinho por insistir no mesmo guarda-roupa). Por ter desafiado as câmeras do metrô para transportar o forro do referido guarda-roupa – vulgo móvel highlander. Pela paciência de me explicar centenas de vezes a mesma história, da lógica do Campeonato Brasileiro ao disparate de sirigaitas. Pelo entendimento de todos os silêncios, de todos os soluços guardados nos silêncios das madrugadas. Pelo espírito de mariahelena possuindo meu corpo e minha alma, pelos aprendizados conjuntos, por ter me ninado, quando menina. Por cada migalha compartilhada, pelos tostões gastos, pelos bolos de pesos contados. Por ter sido meu maior trovador. Pelas cartas, e-mails, encartes de DVDs escritos e filmes gravados. Por ter sido meu homem, quando mulher. Por ter escrito mais sobre mim do que eu supunha conhecer. Por ter me descortinado um mundo diferente diante dos olhos. Pelos cachorros, pela gata. Por ter me dado a certeza de que eu não estava sozinha, não nessa vida. Pelas malas carregadas, por aquelas arremessadas. Pelas raivas, pelas birras. Por ter me suportado quando insuportável. Pelos testes, de farmácia, de sangue. Pelos desabafos, pela gastura de não querer esperar a banda passar, pelos filmes iranianos no outro canto da cidade. Pelo suor escorrido, de trabalho, de tesão. Pelas veias furadas, pelos corredores de hospitais ao meu lado. Por entender meu inconformismo gritando, pelo humanismo que me ensinou e que me aprendeu (é tanto quê de humano vivido que não sei mais se é meu ou seu). Pelo barco à deriva que dividimos, não somente pelos nossos mapas astrais tão navegáveis, mas pelos projetos sem rumo nos nossos mares poéticos de possibilidades. Pela minha e sua cabeça-durice, pelos berros nas estações, pelas despedidas e encontros ansiados em plataformas de rodoviárias e aeroportos Brasil afora. Pelas gargalhadas abafadas e aquelas que pudemos soltar. Pelas piadas, pelas histórias mirabolantes, pelos apelidos (tão nossos que mereceram até tradução quando nos embrenhamos pelo estrangeiro). Pelas nossas passagens, as compradas, as não compartilhadas, por todas as viagens, juntos, sozinhos, pelas nossas pairagens. Por ter me permitido ter te transformado. Por ter me transformado, ao seu lado. Por todo o significado de nossa vida juntos. Por todos os trilhos, pela vida trilhada – e com sentido, rumo. Pelas estações. Pela espera, pelos encontros. Pelos finais e reencontros. Por toda a nossa busca ressignificada depois que pela vida do outro passamos. Ou ficamos. Pela certeza de que não estaremos mais juntos, de que acabou e ter a paz dessa certeza transformada no sentimento de gratidão, a gratidão mais ampla e irrestrita que se pode ter por uma pessoa. Pelos aplausos, por ter colocado a mão no meu queixo e levantado minha cabeça, literal ou metaforicamente, para enfrentar esse mundo e essa sãopaulo assim, olhando pra frente. Por ter me ensinado tanto, mas tanto que até chega a doer. Pelos telefones batidos, pelos gestos tão nossos, pelos nossos roteiros tão bem escritos, embasados com nossas trilhas, nossos argumentos, nossa direção de arte. Por ter me ajudado a dirigir meu caminho, mesmo sem carta. Por tudo isso, e por muito mais que não consigo enumerar, de tanto e tanto que se encheu meu caminho em mais de três anos, por esse tanto de tudo, por tudo, você é e sempre será meu menino. Que de longe continuará a fazer parte de quem eu fui. De quem eu sou. Prometa-me ser feliz. Que eu prometo ser a sua maior – e melhor – torcedora. Daquelas que valem por um Maracanã inteiro gritando seu nome. E vibrando – de orgulho – com seu gol.


*Para meu menino, que ontem fez 31, três dos quais me foram permitidos viver ao seu lado.

1 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 24 de junho de 2014 19:00 disse...
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