Escorpianos

Quando decidi morar em São Paulo, estabeleci como meta conseguir pelo menos três entrevistas em uma semana para justificar uma viagem de 900 km do Sul para lançar a sorte. Três tentativas para relevar uma viagem com pouco dinheiro e pouca esperança. Quando recebi a ligação da terceira empresa querendo me entrevistar dali a poucos dias, vibrei sozinha na mesa do almoço. Ninguém da minha família, moradora de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, disfarçava que não queria que eu viesse para São Paulo.
Meu pai era o que menos escondia a torcida ao contrário. Seja pela violência, pelo caos, pela enchente, São Paulo não era o que sonhava para mim. Frustrada sem a ola familiar, tive um chilique. Já era medo demais enfrentar a gigante de pedra sozinha sem um suporte. Então meu pai me chamou na varanda e me falou algo que nunca esqueci. Em 1973, com menos idade que eu, também desafiou a si mesmo para bater de frente com outra metrópole. Abandonou a mesma cidadezinha pacata – bem mais agrícola que a minha – para tentar a vida no Rio. Com uma comunicação mais restrita, sabia da família no Sul por meio de cartas enviadas e trazidas pelo caminhoneiro que transportava feijão para o mercado em que trabalhava. Por tudo isso, ele me disse que não adiantava me proibir (como nunca havia feito, com nenhum dos meus sonhos). Eu iria, de qualquer jeito. Nos olhos do meu pai, naquela varanda, enxerguei a sua entrega.
Meu pai não só entregou seu coração lavado e sua benção naquele momento. Entregou-me a certeza de que éramos iguais. E que sou meu pai quando aprendi que a gente tem que fazer o que tem que ser feito, mesmo sem ninguém aplaudindo. Sou meu pai quando a gente segura as pontas dos sonhos, mesmo com calafrios.
Quando eu era bem pequena, no momento em que ele me punha na frente da janela larga para observar a Lua cheia gigante e diante da qual eu me pelava de medo, meu pai ria e me protegia, mas não fechava as cortinas. E desde aquela Lua estou aprendendo a enfrentar meus cagaços. Sozinha, é verdade, com a solidão da distância que escolhi pra mim. Sou meu pai quando me dei conta que minha vontade de me lançar ao mundo pode ser maior que o tamanho dos meus passos. Quase sempre é. Sou bem menor que a Lua. O que não me impede de olhar para ela. Então, também sou meu pai quando, ignorando o tamanho dos meus passos, eu me lanço. Sem lenço, documento ou plano.
Tive um pai viajante, impossível negar que isso me constituiu como uma pessoa que enxerga a vida tendo graça com trânsito. Sou eu a garota das pairagens. A menina dos portos sem fim. Das partidas, das chegadas, do meio do caminho. Sou eu pequena acordada de madrugada dentro do ônibus com meu pai do lado. E perguntando: onde estamos? E agora, pai, onde estamos? E com a sua metade paciência e metade vontade de dormir ele me ensinando que a maioria das cidades tem comércios que carregam seu nome. Tinha a Mecânica Curitibanos, a Vidraçaria Chapecó, a Expresso Xanxerê. E foi aí que eu aprendi sozinha a desvendar o nome das cidades de todos os meus trajetos. Até hoje me valho disso para descobrir onde estou. Sou meu pai quando descubro formas de me achar quando o mundo teima em fazer eu me perder.
Foi com todas as histórias de um Paraguai meio mágico que meu pai trazia toda a semana que aprendi a conhecer o que nunca vi. Aprendi o valor da batalha, do jogo de cintura, de não entregar os pontos. Era com a chegada do meu pai de Ciudad Del este que vivia o misto da alegria de tê-lo de volta com a tristeza de saber que contaria milhares de mercadorias no dia seguinte. Nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça, nem aquela bonequinha nova que eu queria ter. Sou meu pai quando aprendi que manter as mãos na cintura vai me deixar apenas parecida com um bule.
Desde criança sou sua garotinha, desde criança sou sua séria ferroada. Sou meu pai quando, escorpiana, sou intensa, oito e oitenta. Desde criança sou sua princesinha, desde criança sou sua cria mais ardida. Sou meu pai quando falo as coisas da boca pra fora, esperando que o amor seja maior que as minhas bolas foras, que as cores vivas de até então sirvam para pintar os negros desabafos.
De todos os defeitos que enxergo nele sou eu ali, como que Narciso olhando o reflexo. Sou meu pai quando reconheço que errei, mas não consigo declarar publicamente minhas fraquezas, mesmo não tendo vergonha de chorar em público. Sou meu pai quando contraditória, quando forte, quando teimosa, quando truco com a vida sem cartas.

Sou meu pai quando choro baixinho antes de me deitar pensando se eu o decepciono, mesmo sem coragem para, peito aberto, perguntar isso em alto e bom som. Sou meu pai quando não tenho a mínima do que fazer mas finjo bem. Sou meu pai quando, em cacos, encontro o fim, mas desperto aquela fagulha que reacende a certeza de que posso muito mais. Sou meu pai quando dizem que não dá e, só de raiva, dou, pano pra manga. Sou meu pai quando saudosa, só quero reencontrá-lo. 
Sou eu, pai, ainda uma menininha.


1 comentários:

{ Jeff } at: 15 de julho de 2014 22:20 disse...

Belo texto mocinha
bjs

 

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