Sobre carecer

Achava feio ser carente. Uma vergonha, quase uma desonra. Costumamos, se notarmos bem, associar carência a tudo que é mimado, aquele querer com birra, batendo o pé. Carente é sinônimo de um ser pegajoso e também é justificativa para as atitudes mais mesquinhas. Fez isso ou aquilo porque é carente. Que carência! Diz-se de uma atitude chata, pedante, indigente.
Aí notei que a gente maculou essa palavra, como faz com tantas outras. E a mancha da carência linguaportuguesticamente falando me fez sentir vergonha de senti-la. Foi meu terapeuta que martelou nisso, quando eu chegava me desculpando: “sei que isso é carência. Ou agi assim por estar carente”.
E ele rebatia essa autoanálise meio capenga com uma pergunta intrigante. “O que há de errado na carência?”.

Carência é carecer. A gente – pelo menos aqui no Sudeste e no Sul – tem mania de usar só o substantivo ou o adjetivo, mas é no verbo que essa palavra se mostra mais bonita e talvez é nela que reside seu real significado.  Carecer é não ter (e principalmente notar que não se tem) o que é preciso. É sentir essa falta, mas como naquele poema do Drummond não focar na falta e sim pensar numa ausência como um estar em mim. Há bastante falta na ausência. Há bastante falta no carecer.
Em grande parte, a gente carece de carícias. Não somente no sentido literal, mas carecemos de algo que nos acaricie. O ego, a alma, a autoestima. Um bom autor faz carícia, cócegas, às vezes as duas coisas juntas. Voltei recentemente de uma viagem e acredito que só consigo resumir a felicidade que senti diante dos novos cenários descortinados com a metáfora da carícia. A experiência me cativou e, cativando-me, preencheu-me, acariciando-me.
“Carece perguntar”, diria alguém lá do Nordeste. “Carece não”. Carece sim. Carecemos, sempre. Estamos sempre faltantes, sempre carecendo. Precisamos nos dar essa resposta. Carecemos do quê? Entender essa ausência assimilada é nos permitir essa “carecência”. Para voltar a passar os olhos ao redor procurando. O que é preciso. O que nos falta para nos sermos completos.
Minha resposta vem, nesse momento, não no que, mas muito em quem. De quem eu careço é, à mesma medida, quem me carece. Tem aquele que passa, finge ficar, mas sabe que não sabe permanecer. Careço daquele que mostra que me precisa. Que não blefa. Não quero faltar para quem me falta. Quero bastar.
Falta não é normal, bom, talvez não devesse ser. Mas carência, ah, essa carência adoecida, enfermada, são também minhas exclamações alegres. E talvez um dia eu brinque, cante e dance com alguém que também traga suas carências próprias. E que não tenha vergonha de ser carente, uma vez que eu saberei estender minhas carícias e entender as suas. E completá-las com minhas carícias acumuladas. E que, mais que tudo, seja digna de carecer das suas carícias.


Um mantra.

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